O anúncio da descoberta das jazidas petrolíferas de Tupi pelo governo omitiu a informação de que não existe tecnologia para exploração a uma profundidade superior a 6 quilômetros e podendo chegar até 10 quilômetros.
Na ocasião - novembro de 2007 – dona Dilma, discretamente, fez apenas a ressalva de que o início efetivo da entrada em operação comercial dessas jazidas poderia levar uns 8 anos. Um outro representante do governo falou em “altíssimos custos de investimento inicial, mas com a garantia da ‘sustentabilidade da auto-suficiência’ no longo prazo” (sic). Ninguém se estendeu sobre esses temas - tecnologia e viabilidade econômico-financeira – e a imprensa brasileira tampouco interessou-se em aprofundar o tema.
Estima-se que Tupi, na bacia de Santos, tenha entre 5 e 8 bilhões de barris. Poucos meses depois, a Petrobras anunciou a descoberta de reservas muito maiores nas proximidades de Tupi, algo na faixa de 33 bilhões de barris. Esse “mega-campo” foi denominado Carioca e a Petrobras afirmou que ainda serão necessários alguns meses para a definição mais precisa de seu potencial. As profundidades das duas jazidas, bastante próximas, sao similares.
Não é improvável que o prazo para o anúncio do dimensionamento “final” de Carioca se dê um pouco antes das eleições. Quem se antecipar à data do anúncio oficial pode se dar bem comprando ações da Petrobras.
O que não se disse, nessa lenga-lenga toda de que Deus é brasileiro, é que não existe a tecnologia para chegar a essa profundidade, bem maior do que a alcançada pela Exxon e pela Chevron no Golfo do México, onde, há cerca de 2 anos, os sistemas de tubulação foram esmagados e brocas de diamante desintegraram-se em decorrência das pressões elevadas. A Exxon abandonou o projeto em 2006. Mas quem, no afã de divulgar resultados positivos para o governo, se interessaria por um detalhe como esse?
Alguns dizem que a Petrobras já sabia da existência de Tupi há anos, e sempre optou por não divulgar por as informações por temer ironias do mercado internacional diante desse detalhe da inexistência de tecnologia para a produção comercial de petróleo a essas profundidades.
Além da profundidade e da pressão corrrespondente, a temperatura das jazidas brasileiras, encontradas abaixo de espessas camadas de sal – algo em torno de 1,5 quilômetros -, pode atingir 260 graus Celsius, o suficiente para derreter até mesmo estruturas metálicas utilizadas para transportar urânio para usinas nucleares.
Ao longo dos esforços para extrair petróleo e gás a profundidades bastante inferiores, uma empresa norte-americana – a Anadarko – desenvolveu e está utilizando aços capazes de suportar as pressões da exploração de gás natural a 2.700 metros de profundidade. Numa entrevista recente, um engenheiro da Anadarko comparou os esforços da empresa à exploração espacial.
“O que fazemos nessas profundidades é semelhante ao que a NASA fez e faz na área do desenvolvimento de materiais para o lançamento de espaçonaves. Mas a NASA não se defronta com o problema das enormes pressões externas.”
Os especialistas acreditam que essas tecnologias podem ser desenvolvidas e utilizadas comercialmente, em particular com o aumento contínuo dos preços do petróleo. Afinal, US$ 200 por barril ao final deste ano da graça de 2008 é, hoje, a projeção do mercado de futuros da Bolsa de Chicago. Mas todos concordam que no atual momento nenhum país ou empresa se arriscaria a fazer investimentos tão elevados na produção comercial em decorrência dos riscos tecnológicos.
Os mais otimistas estimam que com imensos investimentos – se comparados com os necessários para explorar petróleo às profundidades atuais -, Tupi pode entrar em operação até mesmo em 2012. Mas 2008 já vai quase em meio e não há sinais da contratação das plataformas para a exploração de Tupi, plataformas cuja mera fabricação demanda esse prazo (e ainda mais quando considerados os prazos da publicação de editais, impugnações administrativas, e outras mumunhas mais até a assinatura dos contratos.
Não é tão remota a possibilidade do desenvolvimento das tecnologias necessárias. Engenheiros sempre acham que Deus criou o mundo e a eles cabe a tarefa de aperfeiçoá-lo. Resta saber qual será o balanço energético dessa exploração, isto é, quantas unidades de energia serão necessárias para extrair e refinar cada unidade de energia obtida a partir do petróleo nessas profundidades. Em tese, a humanidade pode extrair energia até mesmo do centro da Terra, onde as temperaturas são elevadíssimas. Mas não o faz por falta dos mesmos detalhes: tecnologia e balanço energético.
Ainda não há estimativas sobre os custos da extração do petróleo de Tupi e de Carioca. Mas tampouco há dúvidas de que eles serão muito elevados. E estabelecerão patamares para os aumentos dos preços para os consumidores nas bombas de gasolina. Depois das eleições, é claro! Aí, como de hábito, no dia seguinte virão os aumentos enfaticamente negados nos discursos da véspera.
Num país que há muito trocou o transporte ferroviário pelo rodoviário, os riscos inflacionários são elevados com os novos preços dos derivados do petróleo. E como a alta produtividade agrícola depende de fertilizantes derivados do petróleo, vale preparar-se desde já para as adaptações necessárias às novas realidades, com ou sem mudanças climáticas.
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O Brasil já produz mais petróleo que países membros da OPEC – a sigla em inglês dos países exportadores de petróleo – tais como Angola, Líbia e Algéria. A diferença é que o Brasil não é um país exportador.
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As miçangas do “grau de investimento” foram concedidas ao Peru um mês antes de Brasília comemorá-las. Nunca se ouvir falar de um gigante estrangeiro que tomasse a decisão de investir ou não no Brasil com base nelas. As operadoras de telefonia, concessionárias de serviços de eletricidade e muitas grandes empresas privadas foram compradas por grupos estrangeiros com ou sem as bobagens do grau de investimento. A Standard & Poor’s foi uma dessas que não percebeu ou foi conivente com o tombo que a Enron e muitas outras deram nos fundos de pensão norte-americanos, tendo mantido o bom rating até o colapso. É esse tipo de “máfia” que dá os certificados de bom comportamento que Brasília comemora.
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