Marina Silva – Transitória e Retrógrada

Nm trabalho coordenado pelo cientista político Romero Jacob, a PUC-RJ, mostra aquilo que o jornalista Merval Pereira denominou “a maldição do terceiro colocado”.  Entre os terceiros colocados em eleições anteriores encontram-se Enéas (1994), Ciro (1998), Garotinho (2002) e Heloísa Helena (2006).  Nenhum deles conseguiu se transformar numa liderança política de expressão nacional e, em alguns casos, nem mesmo local.

Com Marina Silva não será diferente.  O total de seus votos foi menor do que o número de abtenções somado aos votos brancos e nulos.  A votação de Marina resultou muito mais da insatisfação do eleitorado com a mesmice do morno debate político entre Serra e Dilma do que da pretendida “onda verde”, que não tirou o PV de seu já tradicional “naniquismo”: a bancada do PV subiu de 13 para 15 o número de deputados no Congresso Nacional – quem tem 513 deputados -, perdeu a sua única cadeira no Senado (Marina foi eleita pelo PT e depois bandeou-se para o PV naquilo que se define como infidelidade partidária) e, nos estados, o total de deputados “pevistas” subiu apenas de 34 para 37 representantes eleitos, apesar de 1.400 candidatos terem sido lançados.  Ou seja, nada, absolutamente nada a comemorar.

A capacidade de Marina de transferir votos é ínfima ou desprezível.  E a do PV de impor condições, é nula, dado o tamanho de sua bancada.

Seria muito bom mesmo se uma onda de interesse pelas questões ambientais tivesse ocorrido!  Em especial num país que pouco avançou na coleta e no tratamento de esgotos e  na coleta e disposição adequada de resíduos urbanos; que não apresentou resultados na despoluição dos rios e lagoas, na proteção de seus recursos hídricos subterrâneo, na efetiva implantação de seus parques nacionais e estaduais, na adoção de sistemas de transporte menos poluentes (continuamos nas rodovias e ônibus), no domínio e adoção de tecnologias de eficiência energética, e por aí afora.  A onda verde foi apenas uma frase de efeito, com pouco ou nenhum efeito.

Dotado de imenso potencial hidrelétrico – cuja exploração a custos competitivos  já começa a se exaurir -, o país continua a se vangloriar de sua matriz energética limpa e da já antiga produção de etanol, ao mesmo tempo que se volta para novas reservas de petróleo como a grande esperança de riqueza futura.  Tsc, tsc, tsc.

Enquanto isso, os programas de redução de carbono praticamente se limitam à questão do desmatamento e às “compensações ambientais” com o plantio de árvores, evidenciando uma abordagem evidentemente muito limitada se o objetivo é alcançar uma sociedade de baixo emissão carbono.  Tais limitações saltam aos olhos de quem não está cego por dogmas ou tem recursos intelectuais limitados ao “dia da árvore”.  Em particular num período em que se acelera novamente a migração de indústrias de alta emissão de carbono de outros países para cá, como vem ocorrendo com as indústrias de ferro gusa e de aço, desde as alemães até as chinesas, e cresce rapidamente o número de veículos e de termelétricas.

Em resumo, nunca tivemos, no Brasil, uma política pública de gestão ambiental consistente, com  metas e resultados efetivos.  Nada que se possa assemelhar aos resultados alcançados nos países desenvolvidos!

Durante o tempo em que permaneceu à frente do Ministério do Meio Ambiente (MMA), Marina Silva conseguiu poucos ou nenhum avançoa nas áreas antes citadas, ainda que tenha conquistado uma boa visibilidade nacional e internacional com o samba de uma nota só da redução do desmatamento na Amazônia.  E mesmo na Amazônia, foi ela quem licenciou as hidrelétrticas do rio Madeira, em Rondônia, com razoável descaso pelos impactos sociais.  Nada diferente de muitas outras hidrelétricas do passado.

Quanto ao resto, os avanços na efetiva implantação dos parques nacionais – com vias de acesso e infraestrutura de visitação – foram pífios, apesar dos elevados recursos financeiros doados por fontes estrangeiras para essa finalidade específica, recursos que desapareceram sem deixar vestígios.  Nada ou quase nada na área do saneamento básico, nem mesmo para os amazônidas dos quais ela se auto-proclama legítima representante.

Marina é a encarnação do pensamento mais retrógrado em matéria de gestão ambiental.  Nesse campo, ela continua em Xapuri.

Se os candidatos que foram para o segundo turno quiserem realmente debater meio ambiente, é melhor diversificarem tanto o discurso quanto suas fontes de informação, porque esses verdes de ONGs e pevistas não somam ao debate, à formulação de políticas públicas e nem aos votos.

E se quiserem falar do Código Florestal, ficarão melhor se ouvirem a atual ministra do Meio Ambiente do que os demais gestores públicos que atuam nesse campo, que se omitem, não dizem o que pensam ou não pensam nada, quando não optam por puxa o saco das ONGs para “ficar bem na fita” dos tapetões.  Por ser uma profissional de carreira sem interesses no estrelato e na politicagem, Izabella Teixeira vem falando sobre o Código Florestal de maneira bem mais sensata do que todos os seus antecessores e os políticos “verdes” em geral.  Uma entrevista dela pode ser vista clicando aqui.  E é muito enriquecedora!

Os Custos Sociais da Incompetência na Gestão Ambiental e do Atraso Mental das "Elites"

A importância das questões ambientais como alavanca ou freio ao “desenvolvimento” estão novamente na berlinda em consequência da apatia e da falta de criatividade das autoridades brasileiras.  Falamos do Brasil, é claro, já que nos demais países sérios essas dimensões do desenvolvimento econômico e social já foram plenamente absorvidas como elementos essenciais à sustentabilidade do próprio desenvolvimento econômico.

O atraso mental das “elites” brasileiras no que se refere aos custos sociais e econômicos da poluição e do mau uso dos recursos naturais pode ser melhor entendido com algumas poucas informações sobre como o assunto foi percebido nos países mais avançados desde o início do século XX (pelo menos).

Em 1913, O Instituto Mellon de Pesquisa Industrial de Pittsburgh, na Pennsylvania estimou os custos sociais da poluição atmosférica na cidade em em cerca de US$ 10 milhões anuais (valores da época, ou algo entre de US$ 227 milhões e US$ 1,2 bilhão em valores de hoje – todas as atualizações e explicações para os critérios adotados que permitem tão ampla diferença podem ser encontrados e calculados aqui; a diferença se deve à utilização de diferentes critérios e conceitos, como preços reais, valores reais, valor do trabalho e valor da renda).

Outros estudos similares foram conduzidos na década de 1930 em em Nova York, Chicago, Boston, Baltimore e outras cidades norte-americanas situaram os custos sociais da poluição atmosférica na faixa de US$ 10 a US$ 30 per capita/ano.  Em 1932, o custo social total da poluição atmosférica na cidade de Nova York foi calculado em US$ 100 milhões/ano (ou algo na faixa US$ 1,7 bilhão a US$ 11,4 bilhões em valores de hoje; para os que denominam o idioma inglês, a diferença de critérios e conceitos antes mencionados para justificar essa variação pode ser encontrada no artigo Explicando Medidas de Valor – para ir aos links, é sempre suficiente colocar o cursor no trecho sublinhado).

Esses estudos não incluíam, evidentemente, o sofrimento humano, que não pode ser quantificado, mas sim o absenteí­smo ao trabalho provocado por doenças respiratórias, os valores das consultas médicas e dos medicamentos, o aumento das taxas de corrosão dos materiais metálicos expostos a uma atmosfera mais ácida (em decorrência das altas concentrações de dióxido de enxofre) e a redução do espaço de tempo entre cada pintura externa das edificações.

Nos países sérios, desde o pioneiro estudo quantitativo do Instituto Mellon de Pesquisa Industrial, as pesquisas desse tipo se sucederam e aperfeiçoaram.  Em 1927, o Instituto Internacional de Agricultura de Roma demonstrou que as emissões das termelétricas afetavam de maneira decisiva a fertilidade dos solos e o metabolismo das plantas.  O estudo demonstrou que elementos como potássio, cálcio e manganês eram removidos dos solos agrí­colas pelas chuvas ácidas.  E, também, que os produtos desses solos se tornavam tóxicos para os animais que comiam a forragem neles produzida:

“É possí­vel afirmar com segurança que a presença de 0,002% de ácido sulfúrico na atmosfera pode causar a redução drástica da produtividade agrícola.”

Em 1953, um resumo dos estudos feitos em diferentes paí­ses informava que a redução da produtividade agrí­cola oscilava entre 30 e 90% na antiga Tchecolováquia (dependendo da proximidade das usinas de geração térmica), 50% na Inglaterra, e 50% em testes laboratoriais.

Na Inglaterra, o relatório final de uma pesquisa feita no campo da saúde pública demonstrou perdas econômicas equivalentes a 27 milhões de homens-hora de trabalho em decorrência de bronquite crônica. Em Newcastle, 36% dos homens e 17% das mulheres com mais de 30 anos sofriam de bronquite crônica.

Onde e quando foram feitos estudos multidisciplinares semelhantes no Brasil, onde elites políticas e econômicas tacanhas ainda veem o controle da poluição como um custo – e não como uma forma de evitar custos sociais bem mais amplos – e toleram o adiamento constante dessas medidas.

* – Todas as informações deste artigo foram retiradas de Os Custos Sociais nas Economias de Mercado, do economista alemão Karl William Kapp, em sua obra seminal intitulada Os Custos Sociais da Empresa Privada, originalmente publicada em 1950 – que ainda pode ser encontrado na Amazon.com sob o título The Social Costs of Business Enterprise).