Jornalismo de Releases – O Globo e a Garganta Profunda da Petrobras

A imprensa brasileira embarca em qualquer release distribuído por grandes anunciantes, sem pestanejar, por preguiça, insuficiência ou incompetência de equipes de jornalismo, distração ou outra razão.  Isso permite à Petrobras “plantar” (é o jargão das redações) notícias sobre avanços na qualidade do diesel que ocorrem com imensos atrasos.

A notícia “plantada” em O Globo afirma que “novo combustível, se usado em veículos com motores modernos, reduz emissões de enxofre em 80%”.

“O próximo dia 1º será um marco para a melhoria da qualidade do ar que se respira no Brasil. No primeiro dia do ano, a Petrobras passará a oferecer um óleo diesel menos poluente, com 50 partículas de enxofre por milhão (ppm), o S-50. Com isso, o Brasil se junta a EUA e diversos países da Europa, além de Chile e Colômbia, que já utilizam o combustível. E, a partir de 2013, a redução das emissões vai aumentar ainda mais, já que a estatal vai passar a oferecer o diesel 10, que substituirá o S-50. Em 2014, o mercado terá apenas dois tipos de diesel: o S-500 no interior (para motores mais antigos) e o S-10 nas regiões metropolitanas.”

A primeira coisa a ser destacada é que a Petrobras conseguiu atrasar em três anos um prazo estabelecido em 2002 pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente – CONAMA, depois de muito tempo de negociação.  Fez isso através de um Termo de Ajuste de Conduta – TAC inadmissível se não fosse uma estatal e se não detivesse – na prática – o monopólio do refino de petróleo no Brasil.  A tolerância das autoridades ambientais e do MP com a Petrobras seria impensável em se tratando de qualquer grande empresa privada, para não falar de uma petroleira estrangeira.

O argumento da Petrobras para o TAC foi que a indústria brasileira ainda não fabricava motores capazes de transformar em realidade os benefícios do “novo” (no Brasil) diesel.  De fato, ocorreu o oposto: a indústria brasileira atrasou a fabricação de motores mais modernos – e mais eficientes – pelo fato do país não dispor de um combustível cujas especificações fossem compatíveis com o seu desempenho.  O diesel sujo danifica os motores fabricados para um diesel de menor teor de enxofre, e isso aconteceu muito com veículos importados.

Os autores do release também ocultam que a distribuição do combustível só para as regiões metropolitanas coloca em risco a vida útil e o desempenho dos motores de caminhões e outros veículos que não se limitam a trafegar nessas áreas.  Fora delas, eles serão abastecidos com diesel de teor de enxofre mais elevado, exceto se saírem buscando postos específicos.   De fato, sabendo disso, a Petrobras Distribuidora tem… “uma ideia”:

“O presidente da Petrobras Distribuidora, José de Lima Neto, garantiu que, no mínimo, 900 postos com a bandeira da empresa oferecerão o S-50 a partir de janeiro. A ideia é que os motoristas não precisem rodar mais de 400 quilômetros para encontrar o combustível.”

Por último, mas não menos importante, a Petrobras sonega uma informação de interesse da nação: o Brasil é importador de enxofre, amplamente utilizado na indústria de fertilizantes (formação de ácido sulfúrico e daí até o ácido fosfórico – cerca de 80% do consumo nacional).  E o enxofre retirado do petróleo há muito encontra o seu destino  produtivo no Brasil, o que pode ser uma forma de remunerar os investimentos e de melhorar a balança comercial do Brasil.

Noves fora a publicação do grande avanço no dia do Natal, a notícia deveria ser: “com grande atraso, Petrobras faz o dever de casa”.  Interesses ocultos, desleixo, ou incompetência mesmo?  Ah – essa tendência a confundir interesses de estatais com interesse nacional e com interesses do partido político da vez!

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A notícia publicada por O Globo sob o título Chega aos postos deisel menos poluente mostra claramente o quanto é fácil empurrar uma versão conveniente de uma verdade qualquer na grande imprensa.

Um bom estudo sobre a produção, a importação e o consumo de enxofre no Brasil foi produzido com din-din do Banco Mundial para a preparação do “Plano duodecenal (2010 – 2030) de geologia, mineração e transformação mineral” do Ministério de Minas e Energia e o corrrespondente relatório técnico contem interessantes informações para os que se interessarem pelo assunto.  Em particular porque a Petrobras não disse, ainda, qual será a destinação do enxofre adicional que produzirá.

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O resultado da mudança será, sem sombra de dúvida, altamente positivo, inclusive em termos de custos sociais da poluição.  A origem da necessidade de diesel mais limpo foi o desenvolvimento de motores mais modernos e eficientes.  Coisa da boa engenharia, e não de ONGs ou de ambientalistas.

Não vai, aqui, nenhuma crítica à excelência da Petrobras na área da produção (leia-se, extração).  Mas essa é a regra das multinacionais do petróleo.  Na área ambiental é que a coisa muda de figura.

ThyssenKrupp – Cai a Máscara, Fica a Intimidação Descarada – Poluição Atmosférica e Poluição Moral

Depois de fabricar canhões para o III Reich*, a ThyssenKrupp optou por alguns genes da truculência e partiu para a agressão desavergonhada do poder econômico a cientistas brasileiros!

A indústria instalou-se em Sepetiba, no Rio de Janeiro, com o nome de Companhia Siderúrgica do Atlântico – CSA, nome que talvez se deva à percepção de que nossa costa é só um ponto de apoio para as suas operações mundiais.  O produto é de baixo valor agregado, já que os lingotes serão enviados para laminação principalmente nos EUA.  Trouxeram para cá as emissões e talvez tenham até ganhado uns trocados pelos malfadados “créditos de carbono” em seu país de origem.  Cinicamente, mas dentro das regras do jogo.

Depois de multada inúmeras vezes pelas autoridades ambientais do Estado do Rio de Janeiro por exceder os frouxos padrões nacionais de poluição atmosférica – irrelevantes, diante de casas inteiras cobertas de pó preto; depois do belo trabalho do Ministério Público que ofereceu denúncia-crime contra a indústria e alguns de seus dirigentes; depois de atrair a atenção da imprensa com as lambanças que fez na região onde se instalou, a ThyssenKrupp mostrou as suas garras germânicas e processou cientistas de uma das mais renomadas instituições de pesquisa brasileiras – a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) por terem dito o óbvio: dependendo de sua composição, o material particulado pode causar problemas mais graves à saúde da população atingida.  E a composição química das montanhas de sujeira lançadas sobre a cabeça da população pela indústria não é  exatamente oxigênio em pó.

“A primeira ação foi ajuizada em 18 de julho contra o pneumologista Hermano de Castro, pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ENSP), da Fiocruz. As outras duas, no dia 14 de outubro, contra o engenheiro-sanitarista Alexandre Pessoa, pesquisador da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV), da Fiocruz, e a bióloga Mônica Lima, da Faculdade de Ciências Médicas da UERJ.” – informou reportagem publicada pelo Estado de São Paulo, depois da entrevista feita pelo jornalista Ricardo Boechat com um dos pesquisadores.

A CSA, inaugurada há 16 meses em Santa Cruz, na zona oeste do Rio, alega que as ações são motivadas por “declarações públicas contendo acusações graves e infundadas”.  Estudo preliminar da Escola Politécnica de Saúde e da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca da Fundação Oswaldo Cruz indica a possibilidade de que danos à saúde de moradores de Santa Cruz tenham sido causados por poluição resultante de atividades da siderúrgica.  O estudo intitula-se Avaliação dos Impactos Socioambientais e de Saúde em Santa Cruz Decorrentes da Instalação e Operação da Empresa TKCSA.  Independentemente de algum eventual exagero na forma de apresentação ou de divulgação, o caminho que a indústria adotaria na Alemanha seria rebater essas afirmações com o trabalho de pesquisadores de calibre igual ou superior.  Nem mesmo a canalha da indústria de tabaco que durante décadas pagou cientistas defenderem os seus interesses jamais ousou propor uma ação judicial por danos morais

Com o cinismo que lhe tem sido característico no trato das questões ambientais, a indústria afirma que a divulgação do relatório técnico preliminar da FIOCRUZ e o processo contra os pesquisadores foi “mera coincidência”.  Covardemente, a indústria optou por processar os pesquisadores, e não as instituições.  Assim, deixaram no ar uma certa lembrança do estilo adotado por Joseph Goebbels, que foi Ministro do Povo, da Alegria e da Propaganda de Hitler (Propagandaminister) na Alemanha nazista, exercendo severo controle sobre as instituições educacionais e os meios de comunicação: pura intimidação.

Os dirigentes da ThyssenKrupp que tomaram essa decisão envergonham a moderna Alemanha que é liderança internacional em gestão ambiental e em liberdade de pesquisa científica.

Felizmente, a direção da FIOCRUZ não hesitou e afirmou que “ratifica a garantia de manifestação individual de seus pesquisadores” e “o respeito pela competência técnico-científica, postura ética e compromisso social que os qualificam como profissionais de referência”. E afirmou que a via jurídica escolhida pela CSA “repercute como cerceamento a essa liberdade de expressão”.  Agora, espera-se que pelo menos a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC saia de seu usual marasmo e manifeste a sua solidariedade aos cientistas brasileiros.

Seu Fritz – volte para o seu país!

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Num trabalho de excelente qualidade, promotores do Ministério Público do Rio de Janeiro ofereceram denúncia criminal também contra profissionais contratados para fazerem uma auditoria ambiental na TKCSA por sonegação de informação ou algo no gênero. Agora, espera-se que o mesmo MP não tarde a ajuizar ação civil pública por danos ao meio ambiente e à população local.  A ação criminal clama por essa sequência natural da proteção aos direitos coletivos, nesse caso nem tão difusos.

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Ter fabricado canhões não é, em si, um problema.  A Dow Chemical norte-americana também fabricou o napalm e o agente laranja que foi despejado às toneladas na cabeça dos vietnamitas e não consta que tenham pedido desculpas.

Baía de Guanabara – De Novo o Desperdício de Dinheiro, de Esforços e de Esperanças?

O Rio de Janeiro se prepara para jogar mais dinheiro direcionado para o saneamento no bolso das empreiteiras e sem um projeto – além de um emaranhado de idéias vagas e marketing político-eleitoral?

Trata-se de um novo empréstimo do Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID.  Quando se fala em recursos dessas instituições financeiras internacionais, a turma baba, já que os “projetos” têm ciclos de implantação superiores aos prazos eleitorais: – “o outro” sempre pode ser responsabilizado!  E os prazos para pagamento das dívidas são longos, sempre tendo recursos públicos como contrapartida e garantia, numa contabilidade que faz com que tudo se misture a tudo, com cara de “dinheiro de graça”, com os sempre mal utilizados royalties do petróleo.

No início da década de 90, Leonel Brizola, então governador do Rio de Janeiro, e Enrique Iglezias, então presidente do BID, anunciaram, no Uruguai ou na Argentina, um plano para despoluir a baía de Guanabara.  Natural anunciar um “plano” quando se tem apenas uma idéia na cabeça e um monte de dinheiro que parece não se de ninguém – e de fato não é – no outro lado.   A idéia dos dois lados era fazer um bonito com a preparação da Rio – 92.

Mas como ninguém tinha projeto nenhum e nem idéia de como fazer para elaborar um – mas apenas a idéia e grandes números -, o contrato só foi assinado em março de 1994.  O prazo previsto para que o “projeto” terminasse era março de 1999, mas a lerdeza foi tanto que o encerramento só ocorreu em 2004.  A pobre Baía de Guanabara nem notou que foram gastos quase US$ 1,2 bilhões para assegura a sua despoluição.  Esqueceram de informá-lo.  Já o bolso do contribuinte foi sangrado sem que ele soubesse de onde vinha a tunga.

relatório de avaliação final do projeto – mesmo com todos os salamaleques que caracterizam essas instituições ditas multilaterais – é altamente revelador da mega-esculhambação.

O Programa de Despoluição da Baía de Guanabara – PDBG foi um naufrágio.  Completo ou quase completo – dependendo de ligeiras variações de ótica.  Licitações em que os empreiteiros mesmos podem elaborar os projetos terminam em obras mal feitas e muito mais caras, com os infindáveis aditivos.

Projetos de verdade na área de saneamento requerem uma base de dados que o poder público não tem: sistema de informações geográficas com informações sobre topografia, panorama geral da geologia do terreno, densidade populacional atual e prevista, outros usos do solo urbano.  Essas informações são essenciais para definir o melhor caminhamento e diâmetro das redes de coleta de esgoto, a localização e dimensionamento das estações de recalque, e por aí afora.

Sem isso, ninguém vai ter um projeto ou um conjunto de projetos, mas apenas o alarde eleitoral seguido da quebradeira geral de ruas que tanto agrada aos empreiteiros, com os usuais aditivos contratuais, custos bem mais elevados e resultados imprevisíveis.

Não se trata, vale ressaltar, da digitalização das redes existentes (de qualquer dos serviços que requerem o subsolo das cidades)!  Mas da digitalização da malha viária para que se possam fazer OS PROJETOS dos caminhos de mais baixo custo para a colocação das redes.  No caso específico de esgotamento sanitário, isso é ainda mais importante porque as redes têm um caimento – ao contrário de uma rede de distribuição de gás, por exemplo.  E desse caimento depende o volume de escavações – que tanto agradam aos empreiteiros brasileiros, que querem obras mais caras, e não mais eficientes – e, também, o número de estações de recalque, além da óbvia possibilidade de “esbarrar” com outras redes ou com pedras – reais ou fictícias – cuja remoção é cara.

A elaboração de projetos – em vez de percursos hipotéticos lançados nas plantas das ruas – objetiva reduzir os custos e fazem com que todos os esgotos cheguem a algum lugar.  Além disso, projetos de engenharia sérios devem incluir a alternativa de uso das chamadas técnicas não destrutivas, com equipamentos há décadas usados em outros países e que evitam os mega-engarrafamentos de trânsito que tanto agradam o poder público no Brasil, sempre com as placas de “desculpe-nos, estamos trabalhando para o seu conforto”.  Eles são muito mentirosos!

Dar um novo nome ao novo “projeto” – o correto seria Programa de Despoluição da Baía de Guanabara II – apenas para não associar o naufrágio anterior ao novo conjunto de idéias não eximirá o Banco Inter-Americano de Desenvolvimento – BID e o Governo do Estado do Rio de Janeiro de responsabilidades.  Ou eximirá, já que a memória é curta.

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Será que o Banco Mundial, o Banco Interamericano de Desenvolvimento e similares em outras regiões do mundo já se perguntaram por que nenhum país asiático que saiu do subdesenvolvimento para elevados patamares de conhecimento/riqueza nunca tomaram empréstimos ou levaram à sério os empréstimos desses bancos?

 

Código Florestal – Faixas Marginas de Proteção: O Sagrado e o Profano

Na mitologia ambientalóide, a preservação da “faixa marginal de proteção” tem muitas funções sagradas, que faz com que a sua intocabilidade seja uma lei da “Mãe-Terra”. E a definição da faixa a ser preservada deve ser proporcional à largura do rio, não importando a geologia, a hidrologia e a climatologia da região; e importando menos ainda a ocupação humana ou os recursos disponíveis de engenharia, usualmente desconsiderados por serem incompatíveis com alguma lei superior, senão divina, não importando que a civilização tenha surgido às margens dos rios de todos os tipos, com ou sem áreas de alagamento.

Mais recentemente, os ambientalóides resolveram que essas faixas servem para proteger a vida e o patrimônio das pessoas. Assim, inventaram as “áreas de risco” para ampliar o seu poder sobre a opinião pública.  Essa é, literalmente, uma “pegada ecológica” tupiniquim.  Agora, só falta o Conselho Nacional de Meio Ambiente – CONAMA adotar uma “resolução” proibindo chuvas torrenciais acima dos limites considerados em ciclos de 10, 20 ou 50 anos. Eventualmente, incluirão nessa “resolução” a proibição de tufões extra-tropicais, sendo aceitos apenas os tufões puramente tropicais.  Afinal, tais chuvas provocam a subida do nível dos rios e, em consequência, a mudança das faixas marginais de proteção!

Infiltrados no poder público, ambientalistas de algibeira já falam até mesmo na “função ecológica” dessas faixas para a infiltração de água e recarga dos aquíferos subterrâneos. Essa abordagem é divertida!  É inexpressivo o papel das faixas marginais de proteção para a recarga de aquíferos quando comparado com a adoção de técnicas de conservação dos solos na agricultura, com a limitação das taxas de impermeabilização e com a adoção de tecnologias apropriadas para assegurar a retenção e a infiltração das águas de chuva.

O ecologismo tupiniquim é vazio e desconhece que outros países adotaram estratégias diferentes e bem mais sensatas para lidar com esses assuntos, entre as quais a definição de diretrizes para a drenagem e a infiltração das águas de escorrimento superficial nas cidades. Essa abordagem envolve engenharia, planos diretores de micro e macrodrenagem, desenho e dimensionamento adequados dos sistemas de coleta de águas pluviais, etc – coisas que fogem ao domínio dos ambientalóides e, portanto, reduz o seu peso nas decisões sobre políticas públicas em áreas sobre as quais eles tentam exercer algum tipo de domínio através de uma “re$erva de mercado”.

Quem resolveu os problemas de poluição hídrica, de recarga dos aquíferos subterrâneos, de contenção de cheias, de usos múltiplos dos rios e similares em países como, por exemplo, a Alemanha, foram engenheiros e profissionais de formações técnicas diversas – geologia, hidrologia, química, microbiologia – e não “ambientalistas”.  Mas que importância tem isso para quem professa a fé em princípios tão abstratos e genéricos quanto imutáveis?

Nos países sérios, diretrizes para lidar com as águas de escorrimento superficial resultante das chuvas e seu encaminhamento a áreas de infiltração – tanto para recarga do lençol freático quanto para controle de poluição e de cheias – podem alcançar algumas centenas de páginas, com indicadores sobre o regime de chuvas, as taxas de impermeabilização dos solos urbanos, a geologia, e topografia, etc. O fato de não termos nada similar no Brasil não significa que não seja possível, necessário e desejável desenvolver diretrizes desse tipo, que devem servir de base para planos diretores e para a elaboração de projetos específicos.

Um bom exemplo dessas diretrizes, bem como de sua extensão e amplitude das variedades de abordagens técnicas pode ser encontrado, apenas como exemplo, no Manual de Gestão de Águas Pluviais da Região Oeste do Estado de Washington, nos EUA (revisão feita em 2005).  São cinco volumes, nos quais é usada a melhor tecnologia disponível para a concepção e o desenho de sistemas de drenagem de áreas urbanas, incluindo importantes dimensões “ecológicas” (aqui entre aspas porque o se os países sérios denominam ecologia é muito diferente daquilo que parece prevalecer aqui na Terra Brasilis).

O primeiro desses volumes tem 218 páginas com requisitos técnicos mínimos e indicadores para o planejamento da área real – não uma generalização que aqui tem possibilitado o “cheque em branco”  para a omissão.

O volume II, com 178 páginas (até aqui, cerca de 400 páginas) , inclui não apenas um conjunto de parâmetros para lidar com a quantidade, mas também com a qualidade das águas que lavam as ruas e não podem ser lançadas em rios ou lagoas sem o seu tratamento – que pode ser a sua infiltração lenta em certos trechos.  Isso é denominado controle da poluição, algo que não parece despertar muito interesse de nossos ambientalóides.

Com os volumes III, IV e V, chega-se a um documento de cerca de 900 páginas, fora os mapas do mundo real da região noroeste do Estado de Washigton.

Na suposição de que cidades existem inevitavelmente, atribuir à faixa marginal de proteção definida através de um número cabalístico de metros igualmente aplicável às serras do Rio de Janeiro, ao Pantanal e ao Sertão o poder mágico de assegurar a infiltração de água e a recarga do lençol freático pode ser visto como parte do mundo fantástico de ambientalistas neófitos e/ou superficiais.

A Alemanha, entre muitos outros países onde gestão ambiental é levada a sério, têm, há décadas, áreas para destinação das águas de chuvas no meio urbano e sua infiltração lenta no terreno para evitar a poluição das águas superficiais e as enchentes; e áreas reservadas para alagamento e contenção de cheias no meio rural, além de trabalharem intensamente sobre técnicas de conservação dos solos agrícolas que de fato – e não apenas no mundo imaginário – asseguram a recarga dos reservatórios de águas subterrâneos.

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Durante uma visita recente do prefeito de Nova Jersey ao Rio de Janeiro, o diretor de águas da cidade perguntou-me o que acontecia, no Rio, com a chuva incidente sobre uma edificação e se existiam regras para evitar que elas alagassem o terreno vizinho.  Apenas sorri e ele compreendeu.

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O Brasil é tem a patente mundial de “palpites ambientalóides em áreas de risco”.  Isso se deve à omissão geral das autoridades no que se refere ao uso do espaço territorial.

Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA) – O Crime Compensa?

No Brasil de hoje, o marketing é peça essencial não apenas da política, mas das mais simples iniciativas como fazer uma raspagenzinha no asfalto e um recapeamento mixuruca: colocam-se imensas placas nos pontos mais visíveis e dá-se o nome à bobagem de rotina de “Operação Asfalto Liso”.  O marketing passou a ter mais importância do que o que é feito!

Agora, é a vez da CSA com o slogan “Grafite Zero”.  Grafite é a mãe!  Dever ser o único pó de grafite no mundo com o qual as cricanas brincam de ajudar as mães e fazerem a limpeza usando imãs… para atrair o tal do grafite!

De toda forma, o nome genérico daquela imensa porcaria é particulado.  “Tóxico” ou não – o argumento cretino da CSA, e a mentira na qual ela tenta acreditar – o particulado causa problemas de saúde, em particular bronco-pulmonares com as inevitáveis conseqüências cardiológicas.

Aliás, alguém já fez uma campanha de análise química dessa montanha de poeira negra que cobre a casa e a vida dos moradores?  Se bobear, ali está toda a escala periódica de elementos químicos!

E, além dos danos à saúde pública e da imensa porcaria, particulados entram pelos computadores, televisões e outros aparelhos eletrônicos, diminuindo a vida útil e causando defeitos.

Já é tempo da população local tomar vergonha na cara se organizar em lugar de deixar ao poder público e à empresa a decisão sobre o que fazer.

A unica “compensação ambiental” aceitável numa situação dessas é parar de poluir e mudar radicalmente de ATITUDE diante da autoridade ambiental e da comunidade atingida.  As demais “compensações” são periféricas.

A  persistência da empresa naquilo que em inglês denomina-se “denial” (denegação, na tradução psicanalítica brasileira, ou recusa de ver algo que é evidente) é uma patologia social e  uma fonte da continuidade das infrações.  E nada importam as baboseiras sobre as médias e asa máximas de particulados no ar, já que as normas brasileiras de qualidade ambiental e de controle de poluição são mais do que antiquadas, são largamente obsoletas.

De toda forma, uma empresa alemã tem que cumprir, aqui, as normas de lá, e isso inclui não causar os imensos incômodos que a CSA está causando, há meses, à população da região.

Um excelente exemplo desse tipo persistente de descaso desavergonhado é o porto de Tubarão.  Na década de 90, começaram a ser examinadas alternativas para conter as nuvens de pó de carvão e de minério que se espalha continuamente sobre a cidade, proveniente do arraste eólico sobre as imensas pilhas desses materiais nos pátios do complexo portuário.  Os imóveis vivam imundos, o dano era visível o tempo todo, e os médicos falavam com freqüência nos altos índices de doenças respiratórias.

Uma das soluções consideradas foi a colocação de telas quebra-ventos (wind fences), já então  bastante usadas em outro lugares do mundo com as mais diversas finalidades, desde evitar que trens de alta velocidade descarrilassem na saída de tuneis em regiões de fortes ventos até o controle do arraste eólico de pó em áreas portuárias.

Já estava mais do que comprovado de que se bem dimensionadas as cercas quebra-ventos reduzem o arraste de poeira em 90%.  Mas os “investidores” queriam lucros e não havia interesse dos gerentes locais em tentar convencê-los.  Além do que, o argumento era o mesmo de sempre: não há normas brasileiras sobre esse tipo de controle.  Ora, bolas, o que importa se existem normas ou não quando uma cidade inteira está sendo visivelmente prejudicada e a saúde da população está sendo prejudicada?

A primeira reação da canalha local foi a disseminação boca a boca de que aquela solução não existia e de que a única explicação era o então secretário de estado de então – o autor deste blog – representava os interesses de algum fabricante.  A Companhia Siderúrgica de Tubarão, a Vale (então do Rio Doce) e a administração do Complexo Portuário de Tubarão recusaram-se a sequer considerar o assunto.

Mas brasileiro odeia inovação – ainda que goste de novidade – e por essa razão é que Tom Jobim dizia que para fazer sucesso aqui era necessário primeiro fazer sucesso “lá fora”.

Enfim, a proposta foi abandonada, mas, tampos depois, alguém deve ter arranjado uma forma de ganhar dinheiro com ela, colocando cercas quebra-ventos – ainda que de altura questionável para o tipo de ventos e para a altura das pilhas – e hoje anunciam, com orgulho, que estão fazendo o que deveriam ter feito há 30 anos atrás.

Esse é o Brasil do futuro na área do controle da poluição, entre outros.

A notícia foi divulgada como um grande avanço em 2008 e pode ser lida em

http://www.folhavitoria.com.br/geral/noticia/2008/08/cercas-de-20-metros-de-altura-em-volta-de-pilhas-de-minerio-reduzirao-poeira.html

No ano seguinte, a Vale anunciou o seu grande atraso tecnológico no controle da poluição como grande inovação, como se pode ver em

http://www.vale.com.br/saladeimprensa/pt/releases/release.asp?id=19150

Não há informações sobre o dimensionamento apropriado das cercas quebra-ventos ou dos resultados do monitoramento, como seria de se esperar, mas já é um reconhecimento de que a engenharia existe para resolver problemas, e não para cumprir normas antiquadas.

Da mesma forma, a proposta de colocar câmeras – incluisve infra-vermelhas para assegurar a visibilidade noturna – nas áreas problemáticas da CSA merece ser levada adiante – afinal, qualquer condomínio ou shopping as tem – e não apenas para controle do INEA, mas para o acesso de toda a população e da imprensa.  Ou a CSA tem algo mais a esconder?