Sustentabilidade Corporativa e Geração de Resíduos

Sustentabilidade e responsabilidade socioambiental das corporações é o tema, desde o mero slogan até algumas iniciativas muito interessantes.  Mas acreditar que as corporações e o livre-mercado substituirão os governos na resolução das questões básicas relacionadas à gestão ambiental num plano maior parece não passar de necessidade de ter esperança, para não falar da crescente dependência financeira das ONGs ambientalistas.

Aos fatos!

Nem mesmo as corporações que lidam com a alta tecnologia e baixo consumo de materiais conseguem i além de seus próprios limites, e um bom exemplo disso são os fabricantes de telefones celulares e smartphones.  A fabricação de baterias demandam minerais raros e ainda assim elas nem tentam padronizá-las para evitar que sejam descartadas juntamente com os aparelhos.

De acordo com a EPA, em 2010 foram descartados 152 milhões de telefones celulares nos EUA, dos quais apenas 11% foram reciclados.  Descarta-se a bateria e o carregador juntamente com o circuito e a e invólucro plástico.  Ninguém tem notícia de que um fabricante de celulares tenha deixado de lado, por um momento, a competição pelo mercado e procurado os demais para um acordo sobre a padronização de baterias e carregadores, ainda que não apenas num único modelo, mas em três ou quatro, como aconteceu no passado com as pilhas.  Isso evitaria uma boa quantidade de descartes.

O mesmo relatório da EPA informa que no mesmo ano foram descartados 82 milhões de teclados e mouses, dos quais apenas 10% foram reciclados.  Um mínimo de atenção ao design e padronização poderia facilitar imensamente a substituição dos componentes, ou sua limpeza.  Mas que fabricante desses periféricos vai gastar tempo com uma coisa dessas, quando é bem mais fácil doar para algumas ONGs o valor passível de dedução no imposto de renda?

Vale não sonegar que a própria reciclagem tem um custo ambiental, isto é, um custo em transporte, energia, água e outros insumos.

No próximo mês de agosto, a lei que instituiu a política nacional de resíduos sólidos no Brasil completa dois anos, depois de se arrastar no Congresso por uma década ou mais.  Uma boa parte da lentidão se deu em decorrência da reação das corporações à responsabilidade compartilhada pelo destino final dos resíduos.  A resistência seria menor se o mercado fosse segmentado, mas os crentes nos “códigos” insistem na visão de que eles resolvem os problemas, apesar de conterem apenas diretrizes, e não metas, prazos, procedimentos para implementação e avaliação periódica, nada.

Vejamos, então, a experiência internacional e, mais especificamente, a prática alemã.

Na década de 80, foi regulamentada a responsabilidade do comércio de bens de consumo sobre as embalagens de maneira muito simples: os compradores ou usuários finais deveriam dispor de um ponto para descarte das embalagens no próprio local da compra.  Nada dessa tolice usual brasileira que “entra em vigor na data de sua publicação”, mas como a iniciativa era bem simples, o prazo não foi longo.  Logo foi possível identificar as embalagens mais inúteis e mais desinteressantes para os consumidores, como as então padronizadas embalagens de plástico de CDs e DVDs. Que rapidamente desapareceram.  Ou seja, com um pequeno toque de regulação, o mercado se desfez de um material que aumentava o custo ambiental e o preço dos produtos, e que inevitavelmente terminaria no lixo.

O que é melhor: comemorar a alta taxa de reciclagem ou ter menos materiais para reciclar.

Muitos anos depois, o Ministério do Comércio da Inglaterra notificou fabricantes de brinquedos de que seu entendimento era de que os consumidores estavam sendo enganados ao comprarem um pequeno bonequinho de não mais de 10 cm com uma embalagem que três vezes mais do que o produto.  A iniciativa foi resultado das preocupações com o esgotamento de áreas para aterros sanitários.

Voltando à Alemanha, na mesma época em que se fez a primeira regulamentação simples sobre descarte de embalagens, uma regra bastante rigorosa obrigou os fabricantes de automóveis a retirarem de circulação as unidades abandonadas ou que tivessem atingido o fim de suas vidas úteis, não importando o país de fabricação.  A primeira reação desses fabricantes foi extremamente negativa, com a suposição de que isso aumentaria os preços.   Logo a indústria reagiu fabricante veículos com menor número de materiais e com design que facilitava a desmontagem – e, portanto, a substituição de peças.

Duas são as possíveis conclusões.  De um lado, que as corporações não têm – e nem podem ter – a visão do conjunto da sociedade, cabendo aos governos tomarem iniciativas regulatórias factíveis. Do outro lado, essas iniciativas não precisam se dar sob a forma de “códigos”, mas podem e devem ser mais simples e conter diretrizes claras para assegurar a sua aplicabilidade, com metas, prazos, procedimentos e critérios de avaliação periódica.  Sem isso, ficaremos no pensamento mágico que leva tudo aos tribunais – que julgam caso a caso, desconsiderando a jurisprudência (ah, o ego latino).

O mito da corporação dedicada à sustentabilidade não se sustenta, exceto quando se refere a aspectos que lhes interessam até mesmo financeiramente.

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Parabéns ao Ministério das Cidades por ter aprovado linha de crédito para o mais avançado sistema de processamento de resíduos urbanos já proposto no Brasil, que envolve aeração forçada ou biodigestão aeróbia.  O sistema foi trazido da Alemanha por dois empresários paranaenses visionários e corajosos, que enfrentaram as muitas reações locais dos grupos interessados nos usuais aterros sanitários centralizados, com custos de transporte cada vez mais elevados.

O Ministério das Cidades mostrou-se mais ágil que o Ministério do Meio Ambiente!  Caberá a ele apoiar a disseminação dessa tecnologia, incomparavelmente mais próxima do conceito de sustentabilidade do que os antiquados aterros sanitários.

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O Brasil precisa aprender a ser conduzido pela melhor tecnologia e não pelo custo financeiro inicial mais baixo.  Se a 8.666 fosse uma boa lei de licitações, ela seria usada em outros países!

 

Tráfico de Resíduos Tóxicos e Questões Ambientais de Interesse da "Humanidade"

Um pequeno grupo de milionários ingleses tem a terceira maior empresa privada do mundo atuando na área de comércio de petróleo e de minerais: Trafigura.  A empresa tem sede na Holanda, escritório na Suíça, e amigos no poder.  O líder do partido conservador da Inglaterra, Lord Strathclyde, membro do Parlamento, está na folha de pagamento da Trafigura como diretor de um fundo de hedge.

Se a sua página na internet está atualizada, a Trafigura – agora ré num dos maiores escândalos de tráfico de resíduos tóxicos do mundo – também tem uma representação no Brasil, com o nome de Intracom, no Rio de Janeiro, em pleno Leblon, além de diversos outros países da América do Sul: http://www.trafigura.com/our_global_locations.aspx.

No momento, 31.000 cidadãos de Abidjan na Costa do Marfim, estão processando a Trafigura nos tribunais ingleses por danos à saúde caudados pela disposição de lama tóxica nos arredores da cidade.  Temendo o pior, a Trafigura já propôs um “acordo”.  Ainda não há informações sobre o valor da proposta, mas pode-se imaginar que será aceita, já que as vendas da empresa atingiram US$ 73 bilhões no ano passado, o dobro do produto nacional bruto da Costa do Marfim.

A empresa agora tenta escapar de acusações criminais nas cortes holandesas.

Numa de suas operações, a Trafigura começou a comprar óleo sujo (conhecido como coker nafta) de uma refinaria mexicana da PEMEX.  Desse óleo, extraia outro, limpo, de maior valor, com a adição da soda cáustica e catalisadores.  A primeira dessas operações teria sido feita num navio ancorado em Gibraltar.  Os resíduos – talvez acrescidos de outros – foram destinados à Costa do Marfim, onde foram jogados nos sistemas de drenagem e lagoas no entorno de Abidjan.  

No passado, a Trasfigura foi acusada de fazer uma “doação política” ao Partido do Povo (o nome é muito bom!) que então se encontrava no poder na Jamaica para obter uma autorização de vender um óleo de má qualidade proveniente da Nigéria.  A Trasfigura nega essa acusação.

Numa reportagem recente publicada no The Guardian, respeitável jornal da Inglaterra, há um comentário passageiro, com a usual “fleugma” inglesa, muito útil para mascarar fatos incômodos:

“Há indícios de que muito mais lixo tóxico esteja sendo levado para outras partes do mundo onde os controles ambientais são fracos e há gente pobre e inescrupulosa que aceita fazer uma disposição desses resíduos em qualquer lugar por pouco dinheiro.  E não são apenas resíduos químicos.  No início do ano, uma investigação na qual o The Guardian tomou parte mostrou que empresas inglesas enviam para a África televisões, computadores e outros equipamentos eletrônicos inservíveis, ainda que a lei determine que esses equipamentos tenham que ser desmontados por pessoal especializado.”

O governo inglês, em particular as lastimáveis figuras do príncipe Charles e do ministro de energia e mudanças climáticas, David Miliband, falam muito sobre a necessidade de proteger as florestas e os povos indígenas na Amazônia.  Mas silenciam quando se trata escândalos como o tráfico de resíduos tóxicos.  E essa turma fala em nome de “salvar o planeta” quando se trata de mudanças climáticas.
Logo eles, que representam um país que enriqueceu pilhando a África, a Ásia e o Oriente Médio.

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A Trafigura tem uma fundação que se dedica – diz ela, na página da empresa na internet – ao meio ambiente, à educação e à inclusão social.  Se bobear tem até ISO 95.000, ainda que as empresas dos países altamente industrializados estejam pouco se lixando para essa história de ISO, tão bem vendida para as empresas dos países de economia periférica.

Reciclagem e Redução da Geração de Lixo Urbano

A grande questão planetária é o modelo de produção e de consumo.
Produz-se e consome-se muita bobagem.  Então, vale ficar atento para avaliar em que medida a ênfase na reciclagem não ofusca a necessidade de políticas orientadas para reduzir drasticamente a geração de lixo, começando pelo o consumo de produtos e embalagens inúteis como, por exemplo, Coca-Cola, bebidas gasosas em geral e água de processo industrial do tipo Nestlé.

Há poucas semanas, uma conferência de prefeitos de 250 cidades norte-americanas aprovou uma resolução no sentido de parar de fornecer água engarrafada para os funcionários municipais e até mesmo durante os encontros oficiais.  No lugar de garrafas de plástico, jarras de água nas mesas de reunião e nos locais de trabalho.

Uma organização que luta pela transparência na prestação de contas das corporações estima que as despesas com a coleta e disposição final das embalagens de água mineral engarrafada  geradas nas prefeituras norte-americanas atingem US$ 70 milhões por ano.  A resolução, redigida pelo prefeito de São Francisco, foi imediatamente apoiada pelo prefeito de Nova York.

Agora, há que estender essa campanha a outras instituições, às corporações que afirmam ter um programa de responsabilidade ambiental, e estabelecer uma “contabilidade do lixo” transparente de forma a atingir o grande público.  Não é difícil reanimar a indústria dos antigos e bons bebedouros que existiam nos corredores de qualquer escola, órgão público ou empresa privada.

Hoje, esses bebedouros estão bastante aperfeiçoados e qualquer filtro de carvão ativado é suficiente para remover o cloro e outras sujeiras presentes na água fornecida pelas concessionárias brasileiras de água e esgoto. Há de se ensinar as crianças para não se viciarem nas bebidas-lixo e lutar para que os restaurantes sejam obrigados a servir água filtrada para quem quiser (como, aliás, ocorre nos EUA).

Para não perder mercado, multinacionais como a Coca-Cola, Nestlé e similares, há alguns anos, estão entrando no mercado de água “adicionada de sais” e outras tolices.  No Brasil, já há algum tempo, empresas de água mineral – lideradas pela Nestlé (Caxambu) e pela Minalba e Indaiá, ambas do grupo Edson Queiroz (cearense) –  começaram a diminuir o tamanho das garrafas de água vendidas em restaurantes até o limite mínimo de um copo.  O cliente, sem alternativa, paga muito mais pela embalagem do que pela água.  Novamente em questão a tal da “responsabilidade social e ambiental” dessas empresas.

A campanha iniciada pelos prefeitos norte-americanos deve ser estendida, também, às bebidas-lixo, como Coca-Cola e outras coisas gasosas com muita água e uma quantidade desprezível de xarope vagabundo, adocicado.

Para a produção de um litro de Coca-Cola são necessários – na média mundial – 2,6 litros de água, não contabilizado o consumo de água dos escritórios, áreas de estocagem, laboratórios e sistemas de transporte.  Certamente, a média  bem maior nos países subdesenvolvidos, mas essas informações a Coca-Cola não divulga, talvez por excesso de “responsabilidade social e ambiental”.

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Reciclagem de lixo é um tema que fascina muitos profissionais de diversas formações, que fazem um belo trabalho de organização dos catadores.  Estudos recentes em 5 estados brasileiros mostram que o campeão da reciclagem pós-consumo foi o Rio Grande do Sul, com taxa de 27,6%. Abaixo dele estão Ceará (21,3%) e Rio de Janeiro (18,6%), seguidos da Bahia (9,4%) e Minas Gerais (5,6%). Na região metropolitana de São Paulo o índice ficou em 15,8%.  A estimativa da reciclagem pós-consumo no Brasil é de 17,5%, com a coleta feita na maior parte por catadores informais, contra 22% na Europa, onde a atividade é regulada.  A coleta, transporte e reciclagem mais difícil é a de PET.  Então, as políticas públicas para o setor podem e devem se tornar mais agressivas, com maior responsabilidade para as indústrias que utilizam esse tipo de embalagem.

O lado bom desse trabalho vem sendo feito grande profissionalismo por Pólita Gonçalves, entre outros.  Quem quiser conhecer um pouco mais do belíssimo trabalho de Pólita pode visitar www.lixo.com.br.

O tema, sob outras óticas, foi abordado em artigos anteriores deste blog.  Recomenda-se uma visita à pagina ONG acima mencionada, que luta pela transparência das informações ambientais das grandes corporações, em lugar de apenas aceitar pequenas doações para “mitigar” os problemas ambientais por elas causados.

http://www.stopcorporateabuse.org/cms

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A União Européia tem, desde 1997, diretrizes para os fabricantes que usam embalagens de todos os tipos.  Informações – em inglês – podem ser obtidas em

http://www.wasteonline.org.uk/resources/InformationSheets/Plastics.htm

Guerreiro do Lixo – Arquitetura Para Um Planeta em Colapso

Ziggurats eram enormes construções feitas de terra (adobe) erguidas desde 3.000 anos AC, ou seja, há cerca de 5.000 anos, originalmente na Suméria, e depois na Assíria e na Babilônia. A Suméria pode ser considerada o berço da civilização humana, ou pelo menos um dos berços da civilização humana, já que ali foram encontrados os mais antigos escritos, em caracteres cuneiformes, e um clássico da literatura mundial, O Épico de Gilgamesh. Gilgamesh tornou-se herói por conduzir o seu povo através das florestas de cedro e estabelecer uma cidade. Já nesse texto se encontram referências ao grande dilúvio, depois incorporado pela Bíblia cristã.

Como ziggurats modernos, o arquiteto Michael Reynolds já no início da década de 70 começou a construir “casas do futuro”, feitas de “lixo”: pneus cheios de terra, latas, garrafas de plástico.

Reynolds deu uma designação genérica ao seu conceito: “Navio-Terra Biotectura”, e as construções aos poucos incorporaram painéis solares e energia geotérmica para assegurar o aquecimento e o resfriamento das casas, além de coleta de água e reciclagem de água da chuva, bem como instalações sanitárias.

Contestado várias vezes pelas associações de arquitetos e pelas leis que estabelecem padrões de arquitetura dos EUA, Michael Reynolds viu diversas de suas construções serem interditadas por não disporem de meras instalações de água quente.

Mas Reynolds prosseguiu seu trabalho.  No início de 2005, foi para a ilha de Nicobar, no oceano Índico, que acabava de ser devastada por um tsunami, na esperança de que a calamidade e a falta de infraestrutura fizessem com que as “sutilezas burocráticas” pudessem ser postas de lado.

Hoje já existem mais de 1.000 “navios-terra” no estado do Novo México, nos EUA.  Centenas de outros “navios-terra” estão sendo construídos nos EUA, na Escócia, na França, na Espanha e até na Sibéria. Em 2007, a cidade de Brigthon, na Inglaterra, concedeu licenças para a construção de 16 “navios terra”.

No momento, Reynolds dedica-se a um projeto denominado Fênix – nome do pássaro que na mitologia grega renasceu das cinzas: uma casa para quatro pessoas capaz de mantê-las vivas “em quaisquer circunstâncias”.

“Em minha opinião, a situação do planeta é tão crítica que temos que fazer tudo o que pudermos” – ele afirma.

Agora, um documentário sobre a sua trajetória e a sua obra já se encontra nos cinemas dos países desenvolvidos: Guerreiro do Lixo. Um trailer do filme pode ser visto em www.garbgewarrior.com, onde também há muitas informações sobre a trajetória e a obra de Mike Reynolds (em inglês).  A página do filme na internet merece uma visita.

A seguir, outros links interesssantes para compreender o assunto:

www.mesopotamia.co.uk/ziggurats/home_set.html

http://en.wikipedia.org/wiki/Mike_Reynolds_(architect)

http://www.unb.br/fau/pos_graduacao/paranoa/edicao2005/kalunga.pdfhttp

www.unb.br/fau/pos_graduacao/paranoa/edicao2005/adobe.pdf

Geração de Resíduos e a Febre de Presentes-Embalagens

Em sua mensagem natalina, o papa Bento XVI deu um recado meia-boca para os católicos e criticou “o uso abusivo dos recursos naturais, sua exploração egoísta e sem precaução alguma”.  Parou por aí.  Nenhuma referência a responsabilidades por esse uso abusivo.

No mesmo dia 24, representantes governamentais da Inglaterra divulgaram estimativas de geração de 3 milhões de toneladas adicionais de lixo no país em decorrência do fato de 3/4 dos brinquedos infantis serem nada mais do que embalagens de plástico e papelão.  No pior caso avaliado, o peso da embalagem foi cinco vezes maior do que o do brinquedo.    A iniciativa foi dos conselhos de várias cidades (correspondentes às nossas câmaras municipais) que pediram providências às autoridades encarregadas de estabelecer padrões para o comércio de produtos.  Um representante da agência de padrões comerciais do Condado de Lancashire declarou-se chocado com o resultado da avaliação.  Representantes dessas agências regulatórias estão notificando os fabricantes de brinquedos de que os excessos de embalagem sobrecarregam os aterros sanitários e contribuem para as mudanças climáticas.  A avaliação de um Peter Pan da Disney mostrou a presença de 270 gramos de embalagem para 109 gramos de brinquedo.  Onde é mesmo que está a tal da responsabilidade social e ambiental da Disney?

As autoridades inglesas estimam que as festas natalinas geram, também, como resíduos, 750 milhões de garrafas e 500 milhões de latas adicionais.

A seis horas de vôo de Londres pode-se pousar em Serra Leoa, o país que ocupa a pior posição mundial entre 177 países no que se refere ao Índice de Desenvolvimento Humano – IDH .  Aí, a taxa de mortalidade materna é de 1 para 6 nascimentos, contra 1 para 3.800 na Inglaterra.  A lista de misérias seria demasiadamente longa, da mesma forma que a lista de soluções simples, como vacinação.  No Brasil, 60% das crianças que escreveram para Papai Noel e colocaram as cartas nos Correios de Pernambuco ainda pediram comida.

O recado de Bento XVI poderia ter sido mais claro.  Não deve ser genérica a crítica a exploração sem precauções e egoísta de recursos ambientais.  Mas há que se reconhecer que é bem difícil mandar uma mensagem natalina diante desse contraste, da mesma forma que se torna questionável até mesmo o uso da palavra humanidade.  Parabéns às autoridades dos condados inglêses que não hesitaram em fazer e em divulgar a pesquisa sobre os abusos da indústria de embalagens sob a alegação de que desejavam perturbar o espírito natalino!

Uma política pública para embalagens já é mais do que devida.  As embalagens para “enfeitar o pavão” têm um custo para os consumidores, um custo social – representado pelos gastos com a coleta, o transporte e a disposição final de lixo – e um custo ambiental.  Onde a tal responsabilidade social e ambiental das empresas que vendem esses produtos?

A simples obrigatoriedade de que o peso da embalagem conste da mesma ao lado do peso do produto pode ser um primeiro passo.  Ao mesmo tempo, uma avaliação dos custos da embalagem e do produto embalado seria no mínimo divertida, já que a febre de consumo no Natal é frequentemente vista como um sinal positivo de abundância e riqueza.  Esse seria um belo presente de Natal das autoridades ambientais para o modelo de produção que deveria ser orientado pelo tão badalado desenvolvimento sustentável.