Archive for the 'Saneamento Básico' Category

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CEDAE – A Maior Poluidora do Estado do Rio de Janeiro Segue Impune

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No Rio, o jogo de cena da CEDAE consiste em chamar a imprensa uma vez por semana para apontar o dedo na direção de algum bode expiatório para esconder as infindáveis mazelas do abastecimento público de água e da coleta e tratamento (quase inexistente) de esgoto nas áreas em que a empresa é concessionária dos serviços.

Com um marketing de 5ª categoria, quando se refere a ligações clandestinas de água, a CEDAE fala de um programa denominado “gato gordo”, ou seja, o gato feito por qualquer um que não esteja numa favela ou região mais pobre da cidade. O alarde é grande, os impactos financeiros positivos nas contas da empresa são quase nulos e nunca apresentados. As imensas perdas “técnicas”, na rede – da ordem de 25% – nunca são sequer mencionadas. Técnicas entre aspas mesmo, porque se devem à má gestão.

Agora, dentro da mesma linha – a linha de quem nunca teve linha (e nem compostura), a linha do improviso e da tentativa de se manter no noticiário com notícias sobre ações irrelevantes, a Delegacia de Crimes Ambientais foi convidada a participar de vistorias em estações compactas de tratamento de esgotos em hotéis na Barra da Tijuca.

A notícia é acompanhada da informação de que cerca de 80% dos condomínios já estão conectados à rede de coleta, sem que sejam apresentados dados concretos, mensuráveis na vazão de esgoto que chega à “estação de tratamento” que, abandonada, e não trata nada. Mas nela é possível e em outros pontos é possível medir a vazão de esgotos encaminhada sem tratamento ao emissário submarino da Barra.

Já existem – e há muito tempo – medidores de vazão com sensores que transmitem os dados em tempo real para uma base de dados. E com as informações sobre a vazão é possível estimar o número de habitantes cujo esgoto está sendo coletado. Bingo! Mas isso a CEDAE não faz, não quer fazer porque não lhe agrada a transparência. A CEDAE continua sendo a maior poluidora do estado do Rio de Janeiro.

Além disso, e apenas para citar alguns exemplos de comunidades sem nenhuma rede de coleta e cujos esgotos são lançados nas ruas, em pequenos canais, ou nas galerias de águas pluviais que os conduz às lagoas, aqui vão algumas áreas que merecem a atenção da imprensa e da própria Delegacia de Crimes Ambientais: Cidade de Deus, Jacarepaguá, Taquara, Rio das Pedras, Muzema, Freguesia, Gardênia, Itanhangá e Vila da Paz.

Para fazer uma operação “rato gordo”, o Ministério Público pode abrir um inquérito contra a CEDAE, solicitar a licença ambiental do sistema de coleta que abrange a bacia drenante que deságua no sistema lagunar da região, e quem sabe até chegar ao indiciamento criminal dos responsáveis por essa grande cagada, entre outras, em outras áreas da cidade e em outros municípios.

De fato, “é possível mentir para alguns durante muito tempo; é possível mentir para muitos durante algum tempo; mas não é possível mentir para todos durante todo o tempo”.

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É difícil saber se Eduardo Paes é candidato de Sergio Cabral, de Cesar Maia ou de ambos. Afinal, ele foi durante bons anos um péssimo vice-prefeito exatamente de Cesar Maia em seus piores momentos.

Amazônia – Imagens que Dizem Tudo

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O infindável blá-blá-blá sobre a preservação das florestas amazônicas não leva em conta inúmeros aspectos relevantes – entre os quais o fato de que 70% das áreas são de propriedade do próprio governo. E, em particular, apela à imagem do paraíso perdido sem considerar que nelas vivem pessoas que já entraram na era da sociedade de consumo e querem mais – as tais classes D e E que passaram a C. Casas de caboclo com mais de um aparelho de televisão ligado o dia todo seria uma surpresa para um alemão?

Algumas imagens falam mais do que palavras. Em todas as cidades, pequenas, médias e mesmo grandes, há favelas e mercados sobre palafitas. As fotos foram tiradas em Manacaparu, às margens do Rio Solimões.

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Saneamento? Coleta de lixo? Um mínimo de qualidade de vida para a população local? Esses não parecem ser temas relevantes para os protetores incondicionais da floresta, brasileiros ou estrangeiros, Marinas Silvas e Greenpeaces, entre outros.  Será que o ministro do meio ambiente da Alemanha que recentemente andou por lá discutindo a preservação da floresta viu isso?

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Afinal, por que será que essas pessoas insistem em viver assim, se é tão fácil praticar o “extrativismo”?  Extrativismo, uma parte da luta de Chico Mendes para defender os “povos da floresta” sempre ameaçados por grileiros por não terem a propriedade das áreas em que trabalhavam, onde ganhavam o seu “pão”, deixou de ser um símbolo e passou a ser uma “realidade” tola.  Nos dias de hoje, ninguém vive apenas de “extrativismo” – isto é, de extrair produtos da floresta.  Nem os esquimós vivem mais sóde caça e pesca!  As pessoas precisam de assistência médica, de educação, e querem ter acesso aos tais modernos meios de comunicação…. que induzem a outros anseios.

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Na região, os cidadãos mais pobres falam em hepatite B como de uma gripe. O catador de açaí comenta que já está na fila do transplante de fígado, como se a fila pudesse andar, ainda que, na maior parte do tempo, ele não disponha de qualquer sistema de comunicação confiável. As condições sanitárias não são mostradas à comunidade internacional, que tanto fala na proteção da Amazônia.  E essas informações também não são mostradas aos brasileiros. Afinal, para esses “ambientalistas” ou “verdes” do tapetão, a limpeza do peixe com a água do rio no próprio local onde são lançados os esgotos talvez seja vista como uma parte da “tradição cultural”, algo bucólico.

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Favela, é o nome do que se vê na imagem abaixo. Favela em “área de preservação permanente”, já que no Brasil, ao menos legalmente, isto é, em tese, as margens dos rios devem ser totalmente preservadas.  Dessa regra da preservação total excluem-se as atividades de mineração e todas aquelas que “de interesse social”, à critério do Conselho Nacional de Meio Ambiente – CONAMA.  De acordo com esses critérios, favela pode.

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Alguém já foi informado sobre como ficou a licitação para a concessão de florestas nacionais ocorrida ao final de 2007, quando as luzes da mídia estavam nas festas de fim de ano? Afinal, essa licitação foi durante muito tempo o grande badalo da monotemática Marina Silva e seus fanzines.  Dizia-se que era o início do que se afirmava ser o mais sensacional programa de proteção das florestas amazônicas com as concessões das florestas nacionais à iniciativa privada.  Se além disso o poder público conseguisse administrar as unidades de conservação, seria sensacional.  Desapropriá-las, delimitá-las, e no lugar dos pífios planos de manejo, desenvolver planos de gestão, com metas claras, além de fontes de receitas e participação da iniciativa privada, que tanto fala mas não faz.

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Perdoem os leitores pelo descaso com o estilo Holywoodiano ou Global, onde sempre se tem um final feliz ou, pelo menos, compensam-se más notícias com outras, sobre casamentos de gente rica e famosa (para eles próprios).

Dom Luiz Flávio Cappio – Água Para Quem Trabalha a Terra

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A persistência de Dom Luiz Flávio Cappio pegou o governo com as calças nas mãos.  Lula respondeu com truculência balofa.  Nos bastidores, o governo terminou aceitando ampliar o programa de construção de cisternas coordenado pela Articulação do Semi-Árido – ASA (www.asabrasil.org.br), criada em 1999.  Foi o mínimo, considerado o alheamento do poder público a essa demanda básica, elementar.

Alguns tentam apresentar Dom Luiz como um radical, mas pouco ou nada se divulga sobre as suas razões, mesmo quando as notícias recentes sobre a falta d’água na região sejam no mínimo preocupantes.

De fato, o que obrigou o governo a acionar as termelétricas no nordeste foi a acentuada queda nos niveis de água no reservatório de Sobradinho, que fez com que grande parte das cidades nas proximidades do lago tivessem que passar a ser abastecidas por carros-pipa.  Nas últimas semanas, a imprensa estimou que cerca de 176.000 ficaram sem abastecimento de água.  Mas esse número é muito maior, já que algumas dessas cidades nunca tiveram abastecimento de água, como descrito em artigo publicado neste blog em 2006, artigo que já incluiu a foto abaixo, tirada num período em que Sobradinho estava com a sua capacidade máxima de armazenamento de água.

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Não de uma imagem de um “povoado”, mas de uma pequena cidade no oeste da Bahia – Campo Alegre de Lourdes, com cerca de 30.000 habitantes.  Não se trata, tampouco,de um imagem de tempos passados, mas de 2006, em pleno século XXI.  Lá, a água era recolhida em “barreiros” – locais onde a água de chuva se acumula (inclusive num “barreiro” formado em decorrência da construção de uma estrada de terra para atender a uma mineradora).  Depois, essa água barrenta era transportada em bombonas, em carroças e lombos de burro, e vendida para o abastecimento público.

Na mesma época, a EMBRAPA havia divulgado um relatório que avaliava em 1 milhão de hectares agriculturáveis excedentes ao longo dos rios São Francisco e Parnaíba, que cortam algumas das regiões mais pobres do país.  Como o clima é do semi-árido, com chuvas escassas e concentradas em curtos períodos de tempo.  Em várias dessas micro-regiões, a agricultura é feita com o uso de bombas que utilizam diesel, transportado em pequenas embarcações e canoas.  Sem qualquer serviço de extensão rural, os pequenos agricultores utilizam a irrigação por sulcos escavados com enxadas.  A irrigação por sulcos acentua a erosão dos solos, o que é visível em qualquer passeio de barco ao longo do São Francisco ou do Parnaíba.  Frequentemente, os pequenos agricultores perdem toda a colheita em decorrência da impossibilidade de controlar a quantidade de água que desce pelos sulcos, nos barrancos.  Há, também, consumo desnecessário de diesel.  E, como se não bastasse, quando os motores  quebram, há que transportá-los em canoas até a cidade mais próxima, e lá pode ser necessário aguardar algum tempo por peças de reposição.

Os grandes projetos de irrigação financiados a fundo perdido pelo governo e que fizeram de Petrolina, por exemplo, um pólo de exportação de frutas para o exterior, usualmente beneficiaram apenas as grandes empresas.  À época, muitos desses projetos se encontravam abandonados depois de implantadas parcelas significativas das obras.

Com a expulsão do pequeno produtor para a periferia das grandes cidades, numa reforma agrária às avessas, cresce a demanda de água nas áreas urbanas, o que é o principal argumento do governo para a transposição.  Mas sugere-se à Pastoral da Terra e ao Tribunal de Contas da União que acompanhem as transações de compra e venda de terras e posses ao longo dos canais previtos no projeto de transposição, já que esses pequenos produtores dificilmente ou nunca são informados de seus potenciais benefícios, ou simplesmente não resistem às propostas de aquisição de suas terras.  Assim, será possível saber, no futuro próximo, quem foram os grandes beneficiários do projeto.  Ou que parcela das terras que tiveram acesso à água pertence a grandes latifundiários e multinacionais exportadoras de frutas, de um lado, e pequenos ou mesmo médios produtores brasileiros, do outro.

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Para quem não sabe, Dom Luiz Flávio Cappio, profundo conhecedor da realidade da pobreza ao longo do rio São Francisco, é economista.

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A idéia de utilizar o São Francisco para abastecer o semi-árido é antiga.  O projeto é da administração FHC.  Assim, pode-se dizer que no Brasil há continuidade administrativa.  E, também, da monocultura de idéias e do estilo imperial intolerante em relação a outros pontos de vista.

Rio de Janeiro – Cidade Lagoa e "Planejamento Urbano"

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Cidade lagoa
(Sebastião Fonseca e Cícero Nunes)

Essa cidade que ainda é maravilhosa
Tão cantada em verso e prosa
Deste o tempo da vovó

Tem um problema vitalício e renitente
Qualquer chuva causa enchente
Não precisa ser toró

Basta que chova mais ou menos meia hora
É batata, não demora
Enche tudo por aí

Toda cidade é uma enorme cachoeira
Que da praça da Bandeira
Vou de lancha a Catumbi

Que maravilha nossa linda Guanabara
Tudo enguiça, tudo para
Todo trânsito engarrafa

Quem tiver pressa seja velho ou seja moço
Entre n’água até o pescoço
E peça a Deus pra ser girafa

Por isso agora já comprei minha canoa
Pra remar nessa lagoa
Cada vez que a chuva cai

E se uma boa me pedir uma carona
Com prazer eu levo a dona
Na canoa do papai

A canção foi gravada, entre outros, pelo grande Moreira da Silva e, mais recentemente, por Monica Salmaso, em seu belíssimo álbum Iaiá.  Cidade Lagoa foi provavelmente composta na década de 50 ou início da década de 60.  Sebastião Fonseca, nascido em 1912, já fazia sucesso na década de 30, com  Carmen Miranda e Dircinha Batista; o seu apogeu veio na década de 40, quando suas composições foram gravadas por Nelson Gonçalves e por Francisco Alves.  Sebastião Fonseca também já fazia versos na década de 30.  Assim, fica evidente que as enchentes em nossa bela Cidade Lagoa são crônicas e resultam da total indiferença em relação às boas práticas de engenharia na área da infra-estrutura de drenagem de águas pluviais, como em tantas outras.

O bom humor expresso em Cidade Lagoa, patrimônio cultural intangível que notabilizou os cariocas, anda bastante esmaecido, não se mostrando capaz de superar os problemas vitalícios e renitentes, agora bem mais graves. 

Quando terminou a segunda guerra mundial, os americanos queriam simplesmente abandonar Colônia, totalmente devastada por bombardeios aéreos.  Diziam que o custo de sua reconstrução seria tão alto que sairia mais barato construir uma cidade nova, em outro lugar.  Konrad Adenauer, que não era otário e sabia o tamanho da fatura que os gringos mandariam após a guerra, simplesmente descartou a proposta com base no argumento de que os maiores investimentos haviam permanecido intactos simplesmente por estarem sob a terra: a infra-estrutura de abastecimento de água, coleta de esgotos e drenagem de águas pluviais.  Colônia é uma das mais antigas cidades européias, tendo sido fundada em 30 a.C pelos romanos.  Com a negativa de Helmut Kohl (Kohl em alemão significa Colônia), a cidade reconstruiu a sua catedral e o seu pequeno centro histórico, tonando-se uma das mais belas, modernas e dinâmicas cidades européias da atualidade.  E às margens de um rio Reno totalmente limpo, com marrecos e tudo.

No Brasil, os políticos não gostam nada de obras enterradas e têm apego à cafetinagem de obras suntuosas, visíveis, ainda quando inúteis, tais como mudar o “visual” dos quiosques da orla de Copacabana para o benefício de um único “grupo investidor”.

Redes de distribuição de água são parte da infra-estrutura indispensável à vida cotidiana, mas tardaram a ser implantadas nas favelas, onde até pouco tempo prevaleciam as bicas, os pontos de distribuição onde as pessoas iam buscar a água com suas latas.  Já essa história de redes de coleta de esgoto e de águas pluviais quase nunca estiveram entre as prioridades eleitorais.  E quando estiveram foi para construir estações de tratamento sem redes de coleta de esgotos.  Ou seja, construir a parte visível para os eleitores.  Em São Paulo, com Orestes Quércia, não foi diferente do Rio de Janeiro da última década.

No campo da drenagem, a pergunta é simples: existem planos diretores de macrodrenagem ao qual tenham se seguido planos de microdrenagem nos municípios da Região Mtropolitana do Rio de Janeiro?  Não.  As leis federais exigiram que municípios acima de certo porte tenham planos diretores urbanos e esses quase sempre se limitaram à ocupação das superfícies, o chamado zoneamento urbano, sem sequer considerar aspectos elementares do planejamento urbano como dimensionamento de sistemas viários que são função da densidade populacional em cada área das cidades.  Mesmo os novos planos diretores urbanos, feitos às pressas por determinação legal, não incluíram aspectos relacionados ao planejamento adequado da infra-estrutura de esgotamento sanitário e drenagem de águas pluviais.

Quando há um trecho de rua que alaga após alguns minutos de chuva e a população estrila, colocam-se manilhas de um diâmetro qualquer.  Se o caimento das manilhas converge para os mesmos pontos é outro assunto.  De remendo em remendo, chega-se ao remendão, à grande gambiarra da infra-estrutura urbana, igual àquela que berra aos olhos quando se olha para a fiação aérea.

E, como se não bastasse, os ”planos diretores” (só mesmo usando aspas) são periodicamente revistos para atender aos interesses dos poderosos da construção imobiliária.  O objetivo é sempre a mesmice simplória: aumentar o gabarito das edificações.  Isso ocorreu recentemente em Vargem Grande, no Rio de Janeiro, e ocorrerá em breve na cidade de São Paulo, poucos anos depois da última revisão do plano diretor com a qual muita gente relaxou e gozou.

O que ocorre, no entanto, é que, quando se aumenta a densidade populacional, é necessário ampliar a infra-estrutura de abastecimento de água e de esgotamento sanitário, e esses custos não são sequer estimados durante cômicas audiências públicas em que os políticos se revezam num falatório sem fim.  No final, aprova-se o que foi proposto, sem considerar os custos sociais da ampliação dessa infra-estrutura.  Mas, além disso, refazer a infra-estrutura depois que as ruas estão pavimentadas resulta num custo muito mais elevado, já que se faz necessário quebrar as ruas novamente, escavar, retirar o que lá estava.  Com esse custo adicional, faltam recursos para as obras nas áreas mais pobres, que deixam de se beneficiar dos investimentos públicos.  A mais-valia resultante desses investimentos é apropriada pelas grandes incorporadoras.

Ou seja, temos, aqui, oposto de Colônia: a infra-estrutura não existe ou é insuficiente e já se quer empilhar mais gente.  Helmut Kohl e os alemães certamente ficariam perplexos com o fato de serem utilizadas expressões como plano diretor ou planejamento urbano para denominar essa anarquia.

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O saco de maldades desse tipo de “planejamento urbano” é de tal natureza que as empresas de água e esgoto não são sequer consultadas.  Elas que se danem.  Qualquer construtora pode ir lá e conseguir, no balcão, um certificado da “possibilidade de abastecimento”.  Torná-lo realidade é outro problema, para ser resolvido por outra administração.  Mas vale dizer que as prefeituras são cúmplices desse tipo de comportamento predatório quando delegam os serviços públicos de água e esgoto sem sequer se propor a exercer qualquer fiscalização.  E assim as ruas são quebradas periodicamente, gerando um custo social adicional sob a forma de grandes engarrafamentos de trânsito.

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Mesmo nas cidades mais recentes dos países sérios, como Miami, não se constrói um prédio sequer sem audiência pública e a certeza de que existam vagas suficientes no distrito escolar da rede pública de ensino primário.  Ou seja, no bairro.  Distrito escolar é palavra desconhecida nos “planos diretores” das cidades brasileiras.  Em meio a gigantescos engarrafamentos, o tempo perdido entre as residências e as escolas contribui para que estas últimas sejam pouco atrativas para as crianças. 

CEDAE – Estiagem e Espaço Fugaz na Mídia

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Empresas sérias de serviços públicos de água e esgotos têm planos de contingência para situações inesperadas.  Assim, em países sérios, elas podem reportar às autoridades que há uma período de estiagem e é dado início à interrupção de várias atividades cujo consumo de água não é essencial, como a rega de jardins ou a lavagem de veículos.  Essas empresas interagem com órgãos públicos sérios, que têm planejamento de longo prazo, com balanços hídricos para cada microrregião indicando o crescimento da demanda e as disponiblidades de água em perídos de cheia e de seca.

O Brasil passa por um período de estiagem que levou um grande número de municípios do Nordeste e do Centro-Oeste a decretarem estado de emergência.  Também no Sudeste, no litoral de São Paulo, a falta d’água induziu os turistas a reduzirem a estada durante o feriadão.

Mas, no Rio de Janeiro, prevaleceu a manipulação política da estiagem e tentou-se atribuir a falta d’água em diversas cidades ao “roubo de água”.   O caminho entre a leviandade e o mais reles cinismo pode não ser tão longo nessas manifestações oportunistas de busca de um bode expiatório que dê aos eleitores incautos a sensação fugaz de que está em curso  importante mudança de atitude na gestão pública.  Apenas a usual politicagem.  Mas que a grande imprensa caia nessa arapuca deixa no ar a sensação de conivência com a farsa.

Qual é exatamente o percentual de “furto de água” sobre a vazão normal dos rios?  Seria essa a causa da falta ou escassez de água em cidades como Magé, onde residências de alguns bairros não recebem uma gota d’água há semanas e as pessoas começam a buscar a alternativa de poços que – segundo uma moradora – não fornecem uma água de boa qualidade, mas permite lavar roupa e louças?  O percentual do tal “furto de água” sobre a adução regular e a demanda não foi informado, já que a notícia foi resultado de um sobrevôo de helicóptero.  Quais os números das séries históricas de vazão nesses mananciais?  Os sistemas de medição de vazão dos rios do estado não estão operacionais?  Qual o balanço hídrico para esses sistemas de adução – isto é, a relação entre as vazões históricas mínimas e o crescimento da demanda?

Na verdade, o grande furto praticado no Brasil no campo da gestão dos recursos hídricos é a cobrança de uma taxa dos usuários que não reverte para o seu benefício ou para melhorias no trecho no rio ou na bacia hidrográfica, mas cai na vala comum do “Tesouro”. 

Uma empresa que perde algo em torno de 45% da água captada e produzida não merece qualquer credibilidade quando se trata de tentar acusar qualquer um por “furto de água”. 

Agora que a moda da “ligação clandestina de esgotos” passou e já não tem mais qualquer apelo para o jornalismo de baixa qualidade, tenta-se introduzir a moda do furto de água como forma de assegurar a exposição na mídia, ainda que fugaz. 

Conflitos entre diversos tipos de uso de águas existem no mundo há muito e, em países sérios, as instituições para resolvê-los foram criadas no início do século XX.  Lá, no entanto, as empresas de água e esgoto são prestadoras de serviços, não há as tais “perdas técnicas” (que deveriam ser chamadas por “perdas por falta de técnica”), os projetos de aumento da capacidade dos reservatórios são concebidos com antecedência e os programas de reuso e reutilização de água são uma constante.

Como se sabe, esses conflitos entre os vários usos de água tendem a aumentar.  Mas aqui, o populismo barato continua prevalecendo sobre o trabalho sério, com as bençãos da imprensa.   Aliás, qual é mesmo o planejamento para o abastecimento de água e esgotamento sanitário para os próximos 10 anos, nas áreas de concessão da empresa?

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O diretor-executivo da Águas de Niterói, empresa privada, foi mais sensato ao declararar que “é preciso fiscalizar, dar educação ambiental e reflorestar”.   Mas educação ambiental é inútil se não houver, também, punição.  Como não há planos de contingência – já que o poder público é omisso -, mesmo em tempos de estiagem é comum ver pessoas lavando calçadas e carros, ou regando jardins mesmo nessas situações de emergência.

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A FEEMA descobriu o óbvio: a entrada em operação de um emissário submarino no qual é lançada uma fração desprezível do esgoto de um conjunto de bairros sem tratamento prévio não melhorou em absolutamente NADA as condições dos corpos d’água.  Se a CEDAE quisesse dar informações minimamente consistentes à população e à imprensa, já teria dado a todos o acesso a um medidor de vazão instalado na entrada do emissário.  Medidores desse tipo, com registro contínuo e automático de vazão são simples e baratos.  Quando se quer falar algum tipo de verdade, é claro.

Cianobactérias e Microcistinas – Visibilidade na Imprensa ou Trabalho Sério?

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Uma paranóia sobre a contaminação das águas do complexo lagunar de Jacarepaguá por microcistinas está sendo deliberadamente transmitida à imprensa para justificar uma nova interdição de pequeno trecho da praia da Barra da Tijuca.  Não há justificativa para tal iniciativa, exceto o deslocamento da atenção da população e da imprensa - da continuidade do despejo de esgotos nas lagoas para uma questionável sensação de que existe vontade política, com evidentes componentes exibicionistas, de transmitir a sensação de que algo de muito importante, corajoso, inovador está sendo feito na área ambiental.  Aos fatos!

Microcistinas são substâncias químicas produzidas por cianobactérias e que podem ser altamente tóxicas para plantas, animais e humanos.  Os efeitos das variantes de microcistinas sobre a saúde são variados em função do tipo e da toxidade, existindo muitas variantes.  Como as preocupações com o assunto aumentam no mundo inteiro, a Organização Mundial de Saúde – OMS, da ONU, vem produzindo diretrizes que, inicialmente, se concentraram sobre a presença de cianobactérias na água potável.  Tais diretrizes foram seguidas por outras, sobre a presença das cianobactérias na água utilizada para irrigação e nas fezes, em decorrência de muitos países utilizarem águas residuais para irrigação ou aquacultura.  Finalmente, vieram os estudos sobre os danos potenciais e das cianobactérias nas águas utilizadas para recreação por contato primário, isto é, basicamente o banho, em particular em lagos e lagoas de água doce.  O número de ocorrências de problemas de saúde decorrentes do contato primário em meio salino – água do mar – é relativamente desprezível.

De fato, a ocorrência de blooms de algas (reprodução excessiva) que incluem cianobactérias é muito mais comum em lagos, lagoas e reservatórios de água doce, em decorrência da contaminação e da eutroficação (excesso de nutrientes).

Os efeitos das variantes de microcistinas no meio ambiente ainda são pouco conhecidos, da mesma forma que o tempo de degradação em diferentes condições de pressão e temperatura, o tipo e a persistência da toxicidade após a sua decomposição etc. 

Dentre os casos reportados de danos à saúde pública pela presença de microcistinas, a contaminação da água de abastecimento público são os mais freqüentes.  O primeiro caso bem documentado ocorreu na Austrália em 1878. 

Microcistinas foram detectadas em virtualmente todas as amostras tomadas durante a ocorrência de blooms de algas nos EUA, na Europa, na Austrália, no Japão, na Suíça, na Suécia, na Dinamarca.  Mais recentemente, amostragens foram feitas na América do Sul, na África e na Ásia, indicando que a ocorrência de blooms de cianobactérias são comuns, podendo ocorrer com maior ou menor freqüência, e diferentes níveis de riscos para a saúde pública.  Um bloom de algas pode incluir a presença de cianobactérias tóxicas e não-tóxicas.

Microcistinas são bioacumulativas, isto é, acumulam-se na cadeia alimentar.  Devem ser evitados mexilhões provenientes de áreas com ocorrências de blooms de algas, mas nos países sérios a recomendação das autoridades em relação aos peixes é para que sejam removidas apenas as vísceras antes do consumo.

Novamente, os estudos epidemiológicos dos danos causados pela presença de cianotoxinas em seres humanos indicam que a maior freqüência ocorre quando a contaminação se dá na água potável.  Uma exceção se tornou no  caso mais importante - e mais escandaloso - de saúde pública e mortalidade causada por cianotoxinas: a contaminação da água utilizada na hemodiálise de pacientes em Caruaru, em Pernambuco.  No Brasil, também foram reportados 2.000 casos de gastroenterite decorrente do consumo de água do reservatório de Itaparica, na Bahia, em 1988, resultando em 88 mortes.

Há relatos de problemas de pele e indícios de efeitos gastrointestinais ou bronco-respiratórios (alérgicos) causados pelo banho na água do mar em áreas onde ocorriam blooms de algas.  Reações dérmicas mais fortes ocorreram em decorrência do contato com um tipo específico de cianobactérias – Lyngbya majuscula -, como resultado da acumulação dessas bactérias sob os trajes de banho.  No entanto, vale repetir, a maior parte ou a quase totalidade dos casos reportados se deram na recreação de contato primário durante a ocorrência de blooms de algas em lagos e lagoas e não em meio salino.

Assim, uma resposta séria ao problema das intoxicações ou reações alérgicas causadas pela presença de microcistinas teria que começar pelo monitoramento da água nos locais de captação e na água distribuída pela Nova CEDAE e outras empresas ou serviços municipais que atuam no setor, e não no interesse pela visibilidade para a mídia de pequenos trechos da praia interditados ao banho.  Essas medições são feitas com periodicidade variável em alguns reservatórios da SABESP – a estatal de águas e esgotos de São Paulo.  E os resultados são divulgados.

No Rio de Janeiro, quem é mesmo que monitora a qualidade da água distribuída pela CEDAE e a eficiência das estações de tratamento de esgostos, e segundo que critérios?

Fora isso, para falar na avaliação dos probemas potenciais de saúde pública nas lagoas da Barra e no trecho em que, durante a maré vazante, essa água flui para o mar, é melhor falar, também, no mesmo tipo de ocorrência na Lagoa Rodrigo de Freitas.  E com estudos feitos por gente da área de saúde pública, como a Fundação Instituto Osvaldo Cruz.

Proibição da Distribuição de Sacolas de Plástico e Experiência Internacional na Gestão Integrada de Resíduos Urbanos

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Em 1991, diversas cadeias de supermercados norte-americanas iniciaram programas voluntários de reciclagem e substituição de sacolas de plástico através da oferta simultânea de sacolas de papel. No mesmo ano, algumas redes começaram a oferecer um “rebate” (desconto sob a forma de reembolso) para clientes que trouxessem de volta as sacolas de papel das últimas compras, iniciativa que foi bem-sucedida não apenas do ponto de vista ambiental, mas também publicitário, incluindo a “fidelização” da clientela.

Em 1993, já se multiplicavam os estudos objetivando a identificação de alternativas e oportunidades para a geração de resíduos em geral de supermercados, em muitos casos com o patrocínio dos maiores fabricantes de plásticos e de embalagens, com a participação da Agência de Proteção Ambiental (EPA). Também nesse ano, nos EUA, lançou-se o Programa de Premiação da Redução de Resíduos conhecido pela sigla WRAP – Waste Reduction Awards Program, com uma sigla que significa embalagem). Esse programa possibilitou avanços consideráveis na redução da geração de resíduos, com benefícios signficativos para os custos dos produtos, bem como da coleta e disposição final do lixo. Esse é o tamanho do nosso atraso cultural e da pobreza de nossas políticas públicas. Lá, em 1991, a cadeia Safeway já tinha um programa de reciclagem e reuso de embalagens plásticas. Apenas mais uma comprovação de que no mundo globalizado as empresas estrangeiras não atuam com o mesmo grau de responsabilidade social e ambiental nos países de economia periférica.

Na Califórnia, até hoje, o programa WRAP é administrado com sucesso por um Conselho de Gestão Integrada de Resíduos (http://www.ciwmb.ca.gov/WRAP/). A experiência internacional, nesse caso, demonstra que os incentivos funcionam melhor do que a mera probição do uso de sacolas de plástico convencional nas redes de supermercados, já que todas as demais lojas continuariam a usar embalagens de plástico, usados também na quase totalidade das outras embalagens, incluindo o setor de bebidas gasosas (que certamente contribui de forma muito mais decisiva para o descarte desse tipo de material no meio ambiente). O programa WARD não se limita a um tipo de embalagem fornecido por um único tipo de cadeias de lojas, mas estende-se a todos os tipos de embalagem e de processos que geram resíduos.

Na mesma época, a Alemanha já havia adotado uma outra política ao obrigar as lojas a disponibilizarem sistemas de coleta de embalagens para todos os clientes que não as quisessem levar consigo. Era comum, por exemplo, ver clientes deixando nas próprias lojas as enormes e desnecessárias embalagens de plástico que envolviam os CDs, com o correspondente aumento de preços e da geração de resíduos. Essa atitude era facilitada pelo sistema de cobrança dos serviços de coleta de lixo urbano, que requeria sacos padronizados no preço dos quais já se encontrava incluída a taxa do serviço. Com o seu usual pioneirismo no campo da gestão ambiental, a Alemanha adotou, também, uma política que obrigava as montadoras de automóveis a se encarregarem do recolhimento dos mesmos após o término de suas vidas úteis, com o objetivo de evitar a multiplicação dos famosos “cemitérios de automóveis”. Depois de alguns protestos, as montadoras passaram a ficar mais atentas à redução do numero de materiais utilizados na fabricação dos veículos bem como ao desenho que permitisse a mais rápida desmontagem, o que resultou na redução dos custos de substituição dos componentes em casos de acidentes, com resultados beneficos para os proprietários e para a eficiência do conjunto da economia.

Plásticos biodegradáveis?

Em 2001, nos países sérios, o debate sobre os “plásticos biodegradáveis” já avançava a passos rápidos em decorrência de preocupações ambientais. Pouco depois, a Associação Americana para Testes de Materias (ASTM, fundada em 1898) produziu padrões para a mensuração da biodegradabilidade dos novos plásticos e Comissão Federal do Comércio, órgão do governo norte-americano conhecido pela sigla FTC, de Federal Trade Commission (www.ftc.gov) regulamentou uso do termo “biodegradável”, já que estavam sendo colocados no mercado plásticos que se “degradavam” apenas em pedaços menores, sem uma efetiva decomposição no meio ambiente. Consolidou-se, assim, uma clara linha divisória entre aqueles materiais que podiam ou não usar o termo “biodegradável”. Uma boa fonte de informação para as autoridades brasileiras que quiserem ter uma atuação realmente séria nesse campo pode ser o Instituto Internacional de Plásticos Biodegradáveis, que recentemente disponibilizou um pequeno guia (2 páginas) sobre os casos em que a proibição do uso de sacolas de plástico e a adoção de plásticos biodegradáveis fazem ou não sentido em cada cidade, dependendo da sofisticação dos sistemas de coleta (http://www.bpiworld.org/BPI-Public). Nesse documento, fica evidente a necessidade da coleta seletiva e da disponibilidade de sistemas de compostagem. Como é notório, a mera coleta e a disposição adequada de lixo em aterros sanitários ainda é um é um grave problema no Brasil.

A formulação de políticas ambientais consistentes demanda mais do que arroubos regulatórios que resultam em captura da atenção do jornalismo desatento, superficial ou ansioso por uma novidade qualquer mas sem resultados efetivos ou, ao contrário, sendo seguidos de liminares judiciais e longos períodos de litígio judicial.

De fato, como divulgado, o projeto de proibição de distribuição gratuita de sacos plásticos em super-mercados a ser encaminhado à Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro pode esbarrar com obstáculos jurídicos simples. É possível proibir alguém de distribuir gratuitamente algo que não é ilegal? Ou como proibir essa distribuição nos super-mercados e não nas lojas de roupas de luxo? E, o que certamente é mais importante, a proposta pode gerar um sentimento negativo em relação à proteção ao meio ambiente, já que os supermercados terão a possibilidade de cobrar (valores simbólicos ou não) pelos sacos plásticos que a população mais pobre usa justamente para… ensacar o seu lixo. Ou talvez os super-mercados apoiem a medida, já que assim podem transferir mais um custo para os consumidores sem o ônus moral da cobrança. Por outro lado, os fabricantes de embalagens de papel e de sacos de plástico específicos para o lixo certamente aprovam a iniciativa.

***

Recentemente, em Curitiba, o Ministério Público notificou a Prefeitura da necessidade de cessar o transporte dos resíduos da poda de árvores para o aterro da Cachimba, cuja vida útil já se esgotou e foi prorrogada algumas vezes sem que se defina uma alternativa para o seu encerramento. Esses resíduos passaram a ser encaminhados para instalações privadas que os transformam em cavacos para uso na geração de energia por indústrias. Essa é uma inovação verdadeira, que merece ser divulgada, disseminada, tornar-se obrigatória para reduzir os custos sociais da disposição final de lixo urbano e gerar energia renovável. As empresas privadas que têm contratos para operar aterros sanitários e recebem do poder público por tonelada recebida – mesmo quando não há balança, o que é o mais comum – desaprovarão a idéia, mas a regulamentação da proibição é possível, além de imediatamente proveitosa para os cidadãos e para o meio ambiente.

O Tietê e a "Avançada" Legislação Ambiental Brasileira

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Até recentemente, o ufanismo permitia que alguns enchessem o peito para afirmar que o Brasil tem uma das legislações ambientais mais avançadas do mundo. Agora, vão ter que colocar tanto a viola no saco quanto o rabo entre as pernas em decorrência da recente notícia de que ocorreu uma mágica: a qualidade da água do Tietê piorou! Onde a mágica? Afinal, ninguém sequer imaginava que o “rio de merda” que atravessa a capital do estado mais rico do Brasil pudesse piorar! “Um rio de merda atravessando a cidade” foi a resposta dada por Rita Lee numa entrevista em que lhe pediram para dizer alguma coisa que só São Paulo tinha quando comparada com outras grandes metrópoles do mundo.

A notícia, publicada apenas nos jornais de São Paulo, informa que num dos pontos de medição o oxigênio dissolvido passou de 0,4 mg/l para 0 mg/l. São necessários pelo menos 4 mg/l para que exista vida no rio. É até maldade lembrar que nas últimas décadas recuperaram-se a qualidade das águas do Ruhr, do Reno, do Tâmisa, do Potomac (que atravessa a capital dos EUA e, há alguns anos, voltou a ser considerado próprio para “recreação de contato primário”, isto é, o banho), e por aí afora.

Mas aqui a qualidade da água do rio piora, mesmo depois de investidos US$ 1,1 bilhão na tal “primeira etapa” do Projeto Tietê. Projetos semelhantes naufragaram ou estagnaram em outras regiões metropolitanas, entre as quais Rio de Janeiro e Vitória. Todos esses projetos tiveram o “apoio” (leia-se empréstimo, para evitar o excesso de cinismo) do Banco Mundial, do BID e de outros mentirosos, que depois voltam para os seus conselhos diretores e informam que o sucesso dos projetos foi total. E esses projetos sempre contar com a conivência ou a omissão do poder público, incluindo os órgãos governamentais de meio ambiente, que não licenciam ou não analisam de forma adequada, e certamente não monitoram e não punem as concessionárias estatais dos serviços públicos de água e esgoto, como ocorre em qualquer país sério. Nestes, a lei foi o estabelecimento de metas e prazos, e não as generalidades que caracterizam a legislação brasileira de meio ambiente.

Afinal, no Brasil, a própria lei e seus regulamentos parecem feitos para serem descumpridos, pela inexistência de uma redação apropriada e, também – no dizer do jurista Álvaro Pessôa – de pensamento, de reflexão, na elaboração e na aplicação. Ana Claudia Bento Graf, jovem e brilhante professora de direito ambiental e procuradora do estado do Paraná, costumava franzir a testa antes de afirmar “é, tem a lei e tem aplicabilidade da lei”. Ou seja , as leis são mal redigidas, não refletem a realidade, e não têm sequer traços de uma estratégia ou de uma política pública consistente na gestão ambiental.

E todos temos que suportar Marina Silva e sua monótona insistência em introduzir os “direitos dos quilombolas” em quaisquer novos regulamentos.

Vejamos um pouco da história. A outra ANA – a Agência Nacional de Águas, não é mais do que uma sucessora do Conselho Nacional de Águas criado em 1939 para ser o órgão gestor do Código de Águas, de 1935, e que nunca foi aplicado, nem mesmo pelos órgãos de meio ambiente, criados muito depois. Assim, por exemplo, o Código de Águas ja previa que todos os aproveitamentos de energia hidráulica deveriam incluir exigências de interesse geral: (a) alimentação e necessidade des das populações ribeirinhas, (b) salubridade pública, (d) navegação, (c) navegação, (d) irrigação, (e) proteção contra inundações, (f) conservação e livre circulação de peixes, e (g) escoamento e rejeição de águas. Mas, qual nada. Já no projeto de Paulo Afonso I, no rio São Francisco, inaugurada em 1954, esses aspectos de “interesse geral” foram esquecidos.

Essas são as boas leis que não são aplicadas em decorrência do descaso pelo “interesse geral”.

Mas existe a situação oposta, de igual gravidade: a lei, elaborada à distância, desde a época da Colônia até Brasília, passando pelo Rio de Janeiro, quando é teórica, fantasiosa, sem qualquer relação com a realidade. A primeira versão do Código Florestal, promulgada em 1934, incentivava o plantio de florestas homogêneas, com a introdução do eucalipto! Mas já previa a proteção das matas ciliares, sem no entanto cometer a besteira de definir um valor numérico para a faixa marginal de proteção.

É a nova onda de centralização do poder do regime militar que impõe, em 1965, esse tipo de delimitação genérica e absurda. Desde Brasília, regula-se o Brasil, do Oiapoque ao Chui. A largura mínima da faixa marginal de proteção passa a ser especificada e detalhada, “desde o nível mais alto dos rios“, indo de 50 metros para aqueles cuja largura seja inferior a 10 metros, até 100 metros para os rios cuja largura for superior a 200 metros. Depois, numa sequência de surtos de onipotência bastante comuns em Brasília, essa faixa marginal de proteção é sucessivamente ampliada pela lei em 1986 e em 1989, atingindo 500 metros nos casos de rios com largura superior a 600 metros. Chega-se à tolice de considerar de preservação permanente todo o território acima de 1.800 metros, “qualquer que seja a vegetação”. E como a lei refere-se ao “nível mais alto dos rios”, abre espaço para novas crises de epilepsia regulatória. O IBAMA ou alguma “câmara técnica” propõe e o Conselho Nacional de Meio Ambiente – CONAMA decide, em 2002, que nível mais alto é o “nível alcançado por ocasião da cheia sazonal”.

E o regulamento passa a valer tanto para a Amazonia, onde no período das cheias o nível dos rios chega a subir 10 metros, com amplas planícies de alagamento, como para os rios que descem das montanhas nas serras gaúchas. E quem se importa com o “detalhe” chamado aplicabilidade da lei?

Tirando números da cartola, o CONAMA decide, também, que as áreas de preservação permanente “ao redor de lagos e lagoas naturais” tem “metragem mínima de (a) trinta metros, para as que estejam em áreas urbanas consolidadas e (b) cem metros, para as que estejam em áreas rurais, exceto os corpos d’água com até 20 hectares de superfície, cuja faixa marginal será de cinquenta metros”.

E que se virem os que não souberem onde estão esses limites!

O furor regulatório faz com que o cumprimento das normas seja impossível, e daí surge o total descaso no que se refere ao respeito a elas. O que fazer com a população ribeirinha em toda a Amazonia? Enviar para um presídio de segurança máxima ou para o pelourinho todos os “bugres” que desmatem um trecho de barranco para construir uma casa de sapê a menos de 600 metros da planície de alagamento… considerado o nível máximo do rio durante a época de cheia?

Além disso, as cidades sempre nasceram e cresceram à s margens dos cursos d’água. O que vão fazer, desde Brasília? Deter a expansão de Porto Alegre ou de São Paulo? Ordená-la? E se os estados ou os municípios fizessem os seus regulamentos? Qual nada! Brasília segue “ordenando o Brasil” à distância, como a Coroa portuguesa! E, depois, os parlamentares e membros do CONAMA vão para as mansões, restaurantes e bares do lago Sul, ciosos do papel cumprido em suas ilhas de fantasias. Generalidades baseadas em palpites são mais fáceis de redigir e lhes permite a auto-satisfação do “dever cumprido”.

Num brilhante texto sobre a constituição e os códigos, abordando o constitucionalismo na era Vargas, Roberto Amaral afirma, referindo-se ao Estado autoritário e à sociedade brasileira, “conservadora e autoritária”.

“Daí, a preeminência do autoritarismo como projeção das relações pessoais e sociais sobre a política. (…) O pacto é firmado pelas elites para consagrar os seus interesses e, mesmo no sistema reorsentativo contemporâneo, o representado não se sente representado pelo seu representante. (…) … o império da nova ordem jurídica se exerce com igual plenitude em todas as hipóteses, pois a legalidade se antepõe à legitimidade.”

Ao final, os ambientalistas de ocasião esquecem que o que a lei protege é a vegetação nativa nessas áreas, e preferem entender que o que está protegido é a faixa marginal de proteção ou o topo do morro. E pedem ao Ministério Público que faça cumprir o que entendem como sendo “a lei”, mesmo sem definir se a “vegetação nativa” é apenas um “pé de pau” ou algo mais significativo, dentro do “espírito da lei”.

Não é de se estranhar que os cidadãos e mesmo as autoridades pouco se importem com a greve do IBAMA. Os órgãos ambientais, que têm a simpatia da população nos países sérios, aqui entram em greve e o Presidente da República, muito justamente, limita-se a declarar que eles se auto-proclamaram “em férias”.

***

Nesta semana, num encontro internacional de prefeitos para discutir as mudanças climáticas e as iniciativas das cidades, Cesar Maia, do Rio, e Beto Richa de Curitiba, não tiveram nada a declarar. Nenhum dos dois consegue resolver nem mesmo simples problemas de captação e uso do metano gerado nos aterros sanitários. Aliás, não conseguem resolver nem os impasses nos aterros sanitários de suas cidades. Os prefeitos dos países sérios descreveram importantes inovações. Nova York tem tantas na área energética que a lista seria longa. Nos EUA, prevalece o princípio federativo, e não o estilo colonial do poder central. Aqui, o poder central engessa as iniciativas locais, reduzindo o dinamismo de toda a economia e da sociedade em geral.

Aliás, vale lembrar que no capítulo sobre a Ordem Econômica da Constituição brasileira afirma-se que:

“A propriedade urbana cumpre a sua função social quando atende à s exigências fundamentais de ordenação da cidade expressas no plano diretor.

***

“É na mutação que as coisas encontram repouso” (Heráclito)

O Tietê e a “Avançada” Legislação Ambiental Brasileira

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Até recentemente, o ufanismo permitia que alguns enchessem o peito para afirmar que o Brasil tem uma das legislações ambientais mais avançadas do mundo. Agora, vão ter que colocar tanto a viola no saco quanto o rabo entre as pernas em decorrência da recente notícia de que ocorreu uma mágica: a qualidade da água do Tietê piorou! Onde a mágica? Afinal, ninguém sequer imaginava que o “rio de merda” que atravessa a capital do estado mais rico do Brasil pudesse piorar! “Um rio de merda atravessando a cidade” foi a resposta dada por Rita Lee numa entrevista em que lhe pediram para dizer alguma coisa que só São Paulo tinha quando comparada com outras grandes metrópoles do mundo.

A notícia, publicada apenas nos jornais de São Paulo, informa que num dos pontos de medição o oxigênio dissolvido passou de 0,4 mg/l para 0 mg/l. São necessários pelo menos 4 mg/l para que exista vida no rio. É até maldade lembrar que nas últimas décadas recuperaram-se a qualidade das águas do Ruhr, do Reno, do Tâmisa, do Potomac (que atravessa a capital dos EUA e, há alguns anos, voltou a ser considerado próprio para “recreação de contato primário”, isto é, o banho), e por aí afora.

Mas aqui a qualidade da água do rio piora, mesmo depois de investidos US$ 1,1 bilhão na tal “primeira etapa” do Projeto Tietê. Projetos semelhantes naufragaram ou estagnaram em outras regiões metropolitanas, entre as quais Rio de Janeiro e Vitória. Todos esses projetos tiveram o “apoio” (leia-se empréstimo, para evitar o excesso de cinismo) do Banco Mundial, do BID e de outros mentirosos, que depois voltam para os seus conselhos diretores e informam que o sucesso dos projetos foi total. E esses projetos sempre contar com a conivência ou a omissão do poder público, incluindo os órgãos governamentais de meio ambiente, que não licenciam ou não analisam de forma adequada, e certamente não monitoram e não punem as concessionárias estatais dos serviços públicos de água e esgoto, como ocorre em qualquer país sério. Nestes, a lei foi o estabelecimento de metas e prazos, e não as generalidades que caracterizam a legislação brasileira de meio ambiente.

Afinal, no Brasil, a própria lei e seus regulamentos parecem feitos para serem descumpridos, pela inexistência de uma redação apropriada e, também – no dizer do jurista Álvaro Pessôa – de pensamento, de reflexão, na elaboração e na aplicação. Ana Claudia Bento Graf, jovem e brilhante professora de direito ambiental e procuradora do estado do Paraná, costumava franzir a testa antes de afirmar “é, tem a lei e tem aplicabilidade da lei”. Ou seja , as leis são mal redigidas, não refletem a realidade, e não têm sequer traços de uma estratégia ou de uma política pública consistente na gestão ambiental.

E todos temos que suportar Marina Silva e sua monótona insistência em introduzir os “direitos dos quilombolas” em quaisquer novos regulamentos.

Vejamos um pouco da história. A outra ANA – a Agência Nacional de Águas, não é mais do que uma sucessora do Conselho Nacional de Águas criado em 1939 para ser o órgão gestor do Código de Águas, de 1935, e que nunca foi aplicado, nem mesmo pelos órgãos de meio ambiente, criados muito depois. Assim, por exemplo, o Código de Águas ja previa que todos os aproveitamentos de energia hidráulica deveriam incluir exigências de interesse geral: (a) alimentação e necessidade des das populações ribeirinhas, (b) salubridade pública, (d) navegação, (c) navegação, (d) irrigação, (e) proteção contra inundações, (f) conservação e livre circulação de peixes, e (g) escoamento e rejeição de águas. Mas, qual nada. Já no projeto de Paulo Afonso I, no rio São Francisco, inaugurada em 1954, esses aspectos de “interesse geral” foram esquecidos.

Essas são as boas leis que não são aplicadas em decorrência do descaso pelo “interesse geral”.

Mas existe a situação oposta, de igual gravidade: a lei, elaborada à distância, desde a época da Colônia até Brasília, passando pelo Rio de Janeiro, quando é teórica, fantasiosa, sem qualquer relação com a realidade. A primeira versão do Código Florestal, promulgada em 1934, incentivava o plantio de florestas homogêneas, com a introdução do eucalipto! Mas já previa a proteção das matas ciliares, sem no entanto cometer a besteira de definir um valor numérico para a faixa marginal de proteção.

É a nova onda de centralização do poder do regime militar que impõe, em 1965, esse tipo de delimitação genérica e absurda. Desde Brasília, regula-se o Brasil, do Oiapoque ao Chui. A largura mínima da faixa marginal de proteção passa a ser especificada e detalhada, “desde o nível mais alto dos rios“, indo de 50 metros para aqueles cuja largura seja inferior a 10 metros, até 100 metros para os rios cuja largura for superior a 200 metros. Depois, numa sequência de surtos de onipotência bastante comuns em Brasília, essa faixa marginal de proteção é sucessivamente ampliada pela lei em 1986 e em 1989, atingindo 500 metros nos casos de rios com largura superior a 600 metros. Chega-se à tolice de considerar de preservação permanente todo o território acima de 1.800 metros, “qualquer que seja a vegetação”. E como a lei refere-se ao “nível mais alto dos rios”, abre espaço para novas crises de epilepsia regulatória. O IBAMA ou alguma “câmara técnica” propõe e o Conselho Nacional de Meio Ambiente – CONAMA decide, em 2002, que nível mais alto é o “nível alcançado por ocasião da cheia sazonal”.

E o regulamento passa a valer tanto para a Amazonia, onde no período das cheias o nível dos rios chega a subir 10 metros, com amplas planícies de alagamento, como para os rios que descem das montanhas nas serras gaúchas. E quem se importa com o “detalhe” chamado aplicabilidade da lei?

Tirando números da cartola, o CONAMA decide, também, que as áreas de preservação permanente “ao redor de lagos e lagoas naturais” tem “metragem mínima de (a) trinta metros, para as que estejam em áreas urbanas consolidadas e (b) cem metros, para as que estejam em áreas rurais, exceto os corpos d’água com até 20 hectares de superfície, cuja faixa marginal será de cinquenta metros”.

E que se virem os que não souberem onde estão esses limites!

O furor regulatório faz com que o cumprimento das normas seja impossível, e daí surge o total descaso no que se refere ao respeito a elas. O que fazer com a população ribeirinha em toda a Amazonia? Enviar para um presídio de segurança máxima ou para o pelourinho todos os “bugres” que desmatem um trecho de barranco para construir uma casa de sapê a menos de 600 metros da planície de alagamento… considerado o nível máximo do rio durante a época de cheia?

Além disso, as cidades sempre nasceram e cresceram à s margens dos cursos d’água. O que vão fazer, desde Brasília? Deter a expansão de Porto Alegre ou de São Paulo? Ordená-la? E se os estados ou os municípios fizessem os seus regulamentos? Qual nada! Brasília segue “ordenando o Brasil” à distância, como a Coroa portuguesa! E, depois, os parlamentares e membros do CONAMA vão para as mansões, restaurantes e bares do lago Sul, ciosos do papel cumprido em suas ilhas de fantasias. Generalidades baseadas em palpites são mais fáceis de redigir e lhes permite a auto-satisfação do “dever cumprido”.

Num brilhante texto sobre a constituição e os códigos, abordando o constitucionalismo na era Vargas, Roberto Amaral afirma, referindo-se ao Estado autoritário e à sociedade brasileira, “conservadora e autoritária”.

“Daí, a preeminência do autoritarismo como projeção das relações pessoais e sociais sobre a política. (…) O pacto é firmado pelas elites para consagrar os seus interesses e, mesmo no sistema reorsentativo contemporâneo, o representado não se sente representado pelo seu representante. (…) … o império da nova ordem jurídica se exerce com igual plenitude em todas as hipóteses, pois a legalidade se antepõe à legitimidade.”

Ao final, os ambientalistas de ocasião esquecem que o que a lei protege é a vegetação nativa nessas áreas, e preferem entender que o que está protegido é a faixa marginal de proteção ou o topo do morro. E pedem ao Ministério Público que faça cumprir o que entendem como sendo “a lei”, mesmo sem definir se a “vegetação nativa” é apenas um “pé de pau” ou algo mais significativo, dentro do “espírito da lei”.

Não é de se estranhar que os cidadãos e mesmo as autoridades pouco se importem com a greve do IBAMA. Os órgãos ambientais, que têm a simpatia da população nos países sérios, aqui entram em greve e o Presidente da República, muito justamente, limita-se a declarar que eles se auto-proclamaram “em férias”.

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Nesta semana, num encontro internacional de prefeitos para discutir as mudanças climáticas e as iniciativas das cidades, Cesar Maia, do Rio, e Beto Richa de Curitiba, não tiveram nada a declarar. Nenhum dos dois consegue resolver nem mesmo simples problemas de captação e uso do metano gerado nos aterros sanitários. Aliás, não conseguem resolver nem os impasses nos aterros sanitários de suas cidades. Os prefeitos dos países sérios descreveram importantes inovações. Nova York tem tantas na área energética que a lista seria longa. Nos EUA, prevalece o princípio federativo, e não o estilo colonial do poder central. Aqui, o poder central engessa as iniciativas locais, reduzindo o dinamismo de toda a economia e da sociedade em geral.

Aliás, vale lembrar que no capítulo sobre a Ordem Econômica da Constituição brasileira afirma-se que:

“A propriedade urbana cumpre a sua função social quando atende à s exigências fundamentais de ordenação da cidade expressas no plano diretor.

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“É na mutação que as coisas encontram repouso” (Heráclito)

A "Baía do Rio" Já Foi….

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“A baía do Rio, como suas belas irmãs, desde a Cornualha até a baía de Nápoles, deve ser vista em trajes de gala. É mais encantadora quando se estende sob seu rico dossel etéreo, enquanto um verniz de atmosfera diáfana imprime à s distâncias uma sublime e maravilhosa beleza; quando o manto azul é de um azul perfeito, brilhante; quando as tonalidades castanhas são riscadas de cor-de-rosa e vermelho, e quando as próprias cores nacionais se fazem lembrar: verde, vivo como o da esmeralda, e amarelo, reluzente como ouro brunido. Então, os ribeiros são prata, com as margens pintadas de alaranjado e cobre, ao se erguerem sobre as brancas areias ou encrustadas na floresta; então, as nuvens que passam formam ilhotas flutuantes, enquanto suas sombras viajam pelas águas do mar interior, de um verde tão puro. Então, a cabana caiada do camponês, tão pequena e tão frágil, erguendo-se junto à brancura da areia, torna-se opala e granada, sob as ondas de luz que só fazem lembrar uma eterna primavera. E cada hora tem seu próprio encanto. Há sublimidade no nevoeiro matinal que flutua distante sobre um rochedo em terra ou o mar agitado; há grandeza, beleza e esplendor no brilho das ondas sob o sol do meio dia, quando a brisa se impregna do perfume de mil flores; e há uma graça, um descanso inexprimível, nos matizes de púrpura – vinho que a tarde espalha sobre o mar.

“Combine-se com essa delicada e feérica, essa singular beleza feminina de colorido, um poder e majestade nascidos do tamanho e da abrupta grandeza das montanhas e picos, de precipícios e rochedos, que afetariam o espírito de Staffa* e que proibem qualquer suspeita de efeminação. Tais efeitos da Natureza, ao mesmo tempo masculinos e femininos, alternadamente suaves e enérgicos, não podem deixar de afetar o caráter nacional.”

O autor dessa descrição da baía de Guanabara, Sir Richard Francis Burton, diplomata britânico e membro da Royal Geographical Society, designado cônsul, “depois de dezoito meses tediosos gastos em Santos, São Paulo”, finalmente visitou o Rio de Janeiro em 1867.

No capítulo sobre a cidade, cita Saint-Hilaire: “Talvez nada no mundo seja tão belo quanto os arredores do Rio de Janeiro”.

Essa ode à baía, aliada ao que aconteceu no último século em outras baías, fornece parâmetros para um planejamento objetivando impedir a sua continuada degradação, e não apenas no que diz respeito à enorme poluição mas, também, aos usos, à ocupação tanto do espelho d’água quanto de sua orla.

Pode-se iniciar com uma constação simples: em qualquer plano de gerenciamento costeiro feito nos países sérios – isto é, países que fazem planos de longo prazo e os transformam em projetos que são, depois, implementados -, a zona costeira só pode ser utilizada por atividades que necessariamente só podem nela se localizar, tais como estaleiros, portos, terminais de pesca, turismo e lazer.

Assim, é possível planejar e executar um plano de recuperação da antiga zona portuária da baía de Guanabara, o que até agora não passou de conversa fiada. Projetos de recuperação de antigas áreas portuárias já foram feitos, com sucesso total, nas mais diversas cidades, desde Barecelona – onde a antiga área portuária voltou a ser praia – até Puerto Madero, em Buenos Aires, com notáveis resultados paisagísticos e econômico-financeiros.

Também seria possível fazer um planejamento com metas concretas, mensuráveis, como a remoção progressiva de sistemas de tancagem de óleo que facilmente poderiam ser relocalizados.

Mas, é melhor parar por aqui, para que a decepção com a inação não aumente e tampouco se perca a beleza da descrição de Sir Richard Burton.

* – Staffa são ilhas escocesas admiradas por suas lindíssimas formações rochosas, certamente conhecidas por Sir Richard Francis Burton, criado na Irlanda.