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O “Código” Florestal e a Omissão Política Geral

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Não existem Áreas de Preservação Permanente – APPs ou Faixas Marginais de Proteção – FMPs em países sérios, que tiveram políticas de gestão ambiental bem sucedidas.  As questões dos processos erosivos dos solos é tratada em função das características dos solos, e os reservatórios de hidrelétricas ou outros têm usos múltimplos, incluindo o lazer.

Aqui é que o poder público – com minúsculas mesmo – finge que age seriamente quando discute uma revisão de um Código Florestal mais do que antiquado, na verdade demente, quando está mesmo é em busca do melhor proveito eleitoral!  O governo não ouve os seus melhores profissionais – a EMBRAPA, por exemplo -, mas ONGs gringas e interesses gringos que dão mais espaço na imprensa urbana.  O judiciário frequentemente não se interessa pelo espírito das leis, restringindo-se à métrica e ao papel de bedel de textos.  O MP que atua na área parece preferir o salto alto.

Por falar em reservatórios, vale assistir a duas reportagens curtas do Canal Rural sobre a mão de ferro do MP e da lei contra os mais fracos e outra sobre a total omissão das empresas de eletricidade, inclusive estatais.

Enquanto a coisa rola assim para os mais fracos, os muito ricos se divertem, como noticiado hoje pelo Estadão, em excelente reportagem que é comum nas mais diversas regiões do país: a ocupação das margens dos reservatórios pelos mais ricos.

Diante dos absurdos e do circo sobre a revisão do Código Florestal – que, na verdade, não “revê” nada e invade qualquer noção de pacto federativo, só mesmo citando o belíssimo poeta Bruno Tolentino – e fica aqui a minha homenagem ao amigo – que, por sua vez, abre o poema citando Alberto Torres.

 “Este estado não é uma nacionalidade. Este país não é uma sociedade; esta gente não é um povo.  Nossos homens não são cidadãos.”  (Alberto Torres)

 Um Interlúdio – Torres e Deuses (Bruno Toletino)

 
AlbertoTorres

há muitos anos

disse de nós

que não formamos

uma união

ainda não;

que, como os símios

que trocam os ramos

pelos cipós,

nos enredamos

com o ilusório

e confundimos

o bem e o mal;

que porque temos

um território

nos persuadimos

de que há um país

neste local.

 

Que nesses termos

nunca faremos

uma nação

de um matagal,

pois se não dermos

comida, teto, 

lugar, raiz

e dignidade 

ao cidadão,

ao branco e ao negro,

nosso projeto,

nossa retórica

nacional,

não passarão

de uma inverdade,

de uma ilusão

escrita a giz

no quadro-negro.

O circo em andamento ajuda um bocado a ocultar a imundície dos rios, a abundância de lixões, a inexistência de sistemas de coleta de águas pluviais nas cidades, e muito mais que serve como comprovação tácita do fracasso de nossas políticas ambientais.  Como disse minha filha, ontem, eles têm o máximo controle sobre o imposto de renda e sobre a coleta de impostos em geral, mas fazer algo parecido, por exemplo, para controlar o cronograma físico-financeiro de obras públicas, ou o agendamento de consultas em hospitais….

A “Bagulheira” Que Vem da China e Outros “Detalhes” da Segurança Alimentar e das Políticas de Mudanças Climáticas

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Há dias,  a presidente Dilma declarou que “o Brasil é exportador de commodities para a China, mas importa muita bagulheira (sic).  Noves fora o palavreado chulo, não muito adequado ao cargo – ao menos em declarações públicas – e ainda menos às relações exteriores, a dúvida é se ela não sabia o que estava dizendo ou se estava jogando para a arquibancada.

Essa frase foi dita poucos dias antes do anúncio de que a China desbancou os EUA como maior potência industrial do mundo.  A produção de manufaturas da China representou 19,8% dos produtos industriais do mundo, contra 19,4% dos EUA.  Nada mal.

No caso das relações comerciais entre o Brssil e a China, alguns fatos e números são melhores para colocar as coisas em perspectiva adequada.

Em maio de 2010, a estatal chinesa State Grid anunciou a compra de sete concessionárias de transmissão de energia elétrica por R$ 3,1 bilhões: Ribeirão Preto, Paracatu, Poços de Caldas, Itumbiara e Serra da Mesa, além de 75% da Expansión Transmissão de Energia Elétrica, que opera no Distrito Federal, Goiás e Minas Gerais, e da Expansión Tansmissão Itumbiara Marimbondo.  Nada mal para uma primeira entrada no setor elétrico brasileiro.  No caso, a bagulheira é capital e tecnologia que permite a redução significativa das perdas na transmissão de eletricidade em longas distâncias.

No Brasil, essas linhas de transmissão operam no máximo em corrente contínua de 600 KV, enquanto a China é o único país a deter tecnologia que permite alcançar um padrão de 1.000 KV, muito mais eficientes nas transmissões a distâncias de até 2.000 km.

Em outubro, o diretor-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica – ANEEL, Nelson Hubner, viajou para Pequim e constatou que uma linha de transmissão chinesa consegue substituir quatro linhas similares convencionais com a tecnologia utilizada no Brasil. Nelson Hubner reconheceu que a adoção dessas novas tecnologias possibilitá aos chineses um mais rápido retorno sobre o capital investido.

Para evitar o usual lero-lero sobre a transferência de tecnologia – como se fosse possível transplantar cérebros -, os chineses preferiram liquidar a dívida quea as concessionárias que compraram tinham com o BNDES.

A State Grid cobre 88% do território chinês e é a maior empresa de transmissão e distribuição de energia do mundo, com faturamento de US$ 164 bilhões em 2008. Com 1,5 milhão de empregados, a estatal é a 15º maior companhia do planeta de acordo com o ranking da revista Fortune.

Na área de energia, o Brasil também anda buscando tecnologia chinesa para os chamados smart-grids (linhas de transmissão inteligentes), iluminação de alta eficiência energética – LED, energia eólica e outras.

Até então, os chineses haviam concentrado os seus investimentos no Brasil nas áreas de petróleo, mineração e de siderurgia.   De fato, em 2009 o Banco de Desenvolvimento da China fez um empréstimo de US$ 10 bilhões à Petrobras tendo como garantia a entrega de petróleo por um período de 10 anos.

Poucos meses depois da aquisição das empresas de transmissão de eletricidade, entraram na produção de soja em Goiás e na Bahia.

Em novembro de 2010, o governo de Goiás assinou com o governo chinês um termo de cooperação prevendo investimentos de até US$ 7,5 bilhões para expandir a produção de soja do estado em pelo menos 6 milhões de toneladas.  Em fevereiro de 2011, a estatal chinesa Chongging Grain Group anunciou investimentos de US$ 900 milhões para a produção e a industrialização de soja na Bahia.  Em entrevista ao canal de televisão estatal da China, o prefeito de Chongging – isso mesmo, o prefeito de um município com 32 milhões de habitantes, situado a 2.000 km de Pequim – declarou:  “assim teremos disponíveis 200 mil hectares de terra” (ainda não comprando a terra, ao controlar o beneficiamento e a comercialização da soja, controla-se a produção e os preços).   Eles definem, com iniciativas desse tipo, uma política de segurança alimentar.

Já aqui, se toda a região do noroeste da Bahia for transformada numa grande “plantation” de soja, sem qualquer cuidado com a segurança alimentar da população local, essa população terá a opção de mudar-se para a periferia das grandes cidades ou de comprar comida mais cara vinda de locais distantes.

Esses são alguns exemplos da bagulheira que a China anda exportando para o Brasil: capital e tecnologia.  Há outros, como a aquisição de composições de trens feitas há cerca de dois anos pelo governador Sergio Cabral há cerca de 2 anos para a Supervia – que deverão chegar em breve, para a alegria da Odebrecht, que comprou a concessão e assim poderá receber créditos pela melhoria da operação desse sistema de transporte de massa.  Vale dizer, os trens chineses adquiridos pelo governo do Rio de Janeiro consomem apenas uma fração da eletricidade dos que ainda se encontram em operação.   O Rio de Janeiro já teve uma pujanta fábrica de vagões ferroviários.

***

Aqui, falando na soja e outras commodities agrícolas que o Brasil exporta sob o controle de grandes grupos de comercialização estrangeiros, vale dizer que a “política de segurança alimentar” do Brasil se restringe à bolsa-família.  Vale dar uma espiada no que está acontecendo com a pegada carbônica – e o preço – dos alimentos de consumo dos brasileiros em decorrência desse modelo… ou falta de modelo.  Basta olhar para a imagem publicada no ano passado numa reportagem de um jornal de São Paulo, na qual são mostrados apenas aqueles alimentos de consumo diário da maior parte da população (o famoso PF, sigla popular para o prato-feito).

Código Florestal – A Falácia da Dualidade Ruralista X Meio Ambiente

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Os preços dos produtos agrícolas sobem no mercado internacional, a FAO alerta que ainda há uma boa parcela da humanidade passando fome e que a população continua crescendo, e o governo brasileiro não ouve os mais importantes dentre os seus próprios órgãos – a EMBRAPA!

Similar, só o emburrecido governo Bush que mandou a NASA tirar do ar informações sobre mudanças climáticas.  Afinal, quem é a NASA para querer falar desse assunto?

Talvez por razões eleitorais (os votos encontram-se no meio urbano),o governo acaba ouvindo ONGs gringas e ambientalóides urbanos que preferem dizer que o substitutivo elaborado por uma Comissão do Congresso Nacional é de autoria do deputado Aldo Rebelo porque para o público leigo – tanto em meio ambiente quanto em produção agro-florestal – é mais fácil demonizar uma pessoa do que a própria instituição.  Não vão, é claro, dizer que ao longo do processo de elaboração da proposta de revisão do Código que nunca foi votado ocorreram cerca de 60 audiências públicas nas mais diversas regiões do país e foram ouvidos representantes de todos os segmentos da sociedade.

Como sonegar essas informações e preparar um projeto no tapetão é uma atitude com ares de democracia feudal – com mais impressão do que realidade democrática, e grupos partidários e outros exercendo o papel de senhores feudais -, vale rever, calmamente, uma excelente apresentação feita perante o Congresso Nacional pela equipe da EMBRAPA – Monitoramento por Satélite onde ficou demonstrado, entre outras coisas, que somadas as áreas indígenas às unidades de conservação mais de 46% da área total da Amazônia já se encontra legalmente protegida.

Abaixo a apresentação intitulada Alcance Territorial da Legislação Ambiental e Indigenista.  Ela é importante para quem gosta de conhecer FATOS, e não apenas de bater tambores.  Essa apresentação é especialmente importante para estudantes, mas é igualmente útil para todos os cidadãos que vivem em áreas urbanas.

(A apresentação acima pode ser baixada em três partes: parte1 | parte2 | parte3)

Os estudos elaborados pela EMBRAPA – Monitoramento por Satelite evidenciaram que com os requisitos do Código Florestal generalista sobram apenas 29% do território brasileiro para a produção rural.  E desses devem ser deduzidas as áreas urbanas, as áreas militares, e as áreas utilizadas para a infra-estrutura (com rodovias, ferrovias, portos, e os imensos reservatórios das hidrelétricas)!   Para não falar, é claro, da produção mineral e das vastas e crescentes partes do território utilizadas para a produção de celulose por grupos nacionais (do tipo Klabin) e estrangeiros, ou da competitividade brasileira na produção de etanol e, talvez, biodiesel.

Amazônia e a Farsa da Responsabilidade Sócio-Ambiental Gringa

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Qual a face mal escondida da “responsabilidade sócio-ambiental” quando fabricantes de refrigerantes e de água mineral em garrafas PET com marcas de fantasia começam a falar no assunto e a fingir que “vestiram a camisa” da chamada responsabilide sócio-ambiental? Alguém que tenha dois neurônios pode acreditar nessa farsa?  Do CUSTO – ou seja, do preço do produto entregue ao revendedor final, antes do consumidor – que porcentagem é água, que porcentagem é embalagem plástica (derivada de petróleo), que porcentagem é transporte?  A manutenção e a expansão do business deles são inerentes à sua própria natureza e eles – produtores de soda e de água mineral em garrafas cada vez menores – não vão abrir mão do que lhes é essencial para produzir algo útil!

E quando essa mesmo corja faz suco “de laranja caseira” ou “néctar de frutas”, qual a estrutura de formação de preços e quanto coube ao produtor da fruta que é transportada até uma fábrica, desidratada, congelada, depois reidratada, misturada com uma porção de substância químicas para dar cor, sabor e espessura, depois embalada, depois transportada novamente – até os pontos de venda, que incluem as proximidades dos produtores originais das frutas que foram utilizadas?

A Coca-Cola é sempre um ótimo exemplo, e mais ainda quando paga à EMBRAPA para desenvolver uma variedade de açaí para fazer uma bebida do tipo soda, com um percentual de açaí desprezível.  De mais de uma centena de variedades de açaí existentes na Amazônia, escolhem UMA, cuja produtividade é maior.

E aí partem para a monocultura, diretamente ou através do estímulo aos produtores locais para que plantem aquela única variedade.  E badalam as propriedades antioxidantes do açaí, totalmente perdidas no processo de pasteurização e congelamento.

Aliás, qual é mesmo o percentual de “guaraná da Amazônia” nas sodas vendidas com o esse rótulo, além da cafeína, do tanino e de uma vago sabor formulado provavelmente na Suíça?

O cinismo não tem fim, mas pode ser comprovado com a leitura de uma reportagem de um jornal da região que não foi divulgada pela grande mídia e que poderia ser comparada a uma associação do mal – EMBRAPA + Coca-Cola.

Afinal, a EMBRAPA deveria fazer pesquisas de interesse do Brasil, e não apenas da Coca-Cola.  Os termos desse acordo espúrio deveriam estar na página da EMBRAPA na internet.

Em matéria de canalhice, a única coisa pior que o autor deste blog pôde observar no cenário internacional foi a publicação de um relatório elaborado por uma ONG apoiada pelo mercado financeiro em Londres – uma tal de Forest Footprint Disclosure.  O título do relatório poderia ser a grande farsa.

Alguém acha, sinceramente, que essa canalha que apoia esse business sob a máscara de uma ONG para despejar dinheiro dedutível do que é devido ao fisco esteja realmente interessada em “sustentabilidade” na Amazônia?  E ainda mais num país cujo governo vem anunciando a privatização de todas as florestsa públicas ainda neste ano, para qualquer finalidade, inclusive o simples corte.  O Greenpeace, esse tal de Forest Footprint alguma coisa e outras ONGs do gênero silenciam! 

O mais incrível é que entre os autores do tal relatório estejam listados um diretor da EMBRAPA (Geral) da EMBRAPA no Acre e um promotor de justiça do Ministério Público Federal no Pará.  Só podemos torcer para que as informações sobre a lista de autores do relatório sejam imprecisas e que o papel desses representantes do poder público nacional brasileiro na elaboração do relatório gringo tenha sido superestimado.

Agora, que tal grandes empresas brasileiras e a Bolsa de Valores de São Paulo apoiarem o monitoramento constante das emissões de carbono pelo Inglaterra, convidando especialistas britânicos e europeus para falarem do imenso fiasco que e o cumprimento das metas estabelecidas pelo próprio órgão de meio ambiente do governo inglês?  Será que a corja colonialista City acharia isso uma ingerência indevida em seus assuntos nacionais?

Essa tuma de moleques gringos certamente não vale o caviar que come!  Mas eles têm o DNA daqueles que, na Inglaterra, se bateram contra a independência da Índia.

Eventos Climáticos Extremos e Oportunismo Ambientalóide

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No estilo dos piores tablóides sensacionalistas, a Folha de São Paulo, uma das referências do jornalismo brasileiro, publicou no domingo – 16 de janeiro -, com direito à manchete da primeira página, uma reportagem prá lá de medíocre com o título “Novo Código Florestal amplia risco de desastre”.  A bobagem destaca o nome dos repórteres e tem toda a pinta de notícia plantada e de um escorregão – ou melhor, de um tombo – da chefia da redação na lama dos telefonemas dos amigos.

No artigo anterior deste blog, já havia a previsão do uso oportunista de um evento climático extremo por parte de ambientalóides urbanóides.  Eles fingem não ver que dezenas de municípios de Minas Gerais se encontram em estado de emergência, que chuvas torrenciais acabem de destruir boa parte da Austrália, e que nos últimos dias 1/3 dos municípios das Filipinas foram também devastados por verdadeiros dilúvios.

Nessa linha de pensamento – ou de falta de pensamento e dogmatismo – são capazes de atribuir devastações causadas por furacões e terremotos à falta de leis ambientais ou de seu cumprimento.  Apegando-se a bandeiras em estado pré-falimentar, incapazes, por exemplo, de assegurar a despoluição do rio Tietê ou da Baía de Guanabara, batem no peito e falam da lei ambiental mais avançada do planeta.  Seriam capazes de recomendar a remoção da cidade de San Francisco, na Califórnia, por situar-se na área de maior risco de terremotos do planeta.

A “reportagem” – se é que se pode chamar assim um texto medíocre que não busca fundamentos e nem ouve outros pontos de vista – se concentra na ocupação das encostas.

Tolice arrematada!  Qualquer um que tenha viajado por países europeus que já resolveram os seus problemas ambientais e estão décadas à frente do Brasil – como é o caso da Alemanha – pode ver o grande número de encostas ocupadas há séculos.  Também na costa do Mediterrâneo, há grande quantidade de vilarejos e pequenas cidades na borda de falésias, e plantio em encostas íngremes, como se pode ver nas fotos abaixo.

Nesta última foto, pode-se ver o plantio de oliveiras nas encostas mais íngremes.  Segurança alimentar, geração de emprego, tradição – tudo isso sem “código florestal”, sem intromissão do governo central na vida das cidades, e sem que o que a cudade receba a denominação genericamente leviana de “área de risco”

No mesmo jornal e no mesmo dia, um marco do jornalismo brasileiro, Elio Gaspari , abre sua coluna dominical com um texto irônico e esclarecedor, sob o título “Cabral e Dilma culparam os outros e o povo”.

“Na filosofia dos doutores, o centro de Friburgo estava em área de risco.” – destaca.

Depois de relembrar acontecimentos similares em Angra dos Reis durante as chuvas de 2010, mestre Elio Gaspari sintetiza:

“Desta vez, Sérgio Cabral não estava em Mangaratiba (onde tem casa), mas no exterior.  Quando desembarcou no Rio, já haviam sido contados mais de 300 corpos por conta de temporais que começaram dois dias antes. Ao chegar, Cabral contrariou sua lição de 2010 e visitou as áreas afetadas. Foi acompanhado pela doutora Dilma Rousseff, que ensinou: “A moradia em área de risco no Brasil é a regra, não é a exceção”.

Falta explicar por qual critério Dilma e Cabral definem “áreas de risco”. O centro de Friburgo? A cidade de Areal? Bairros urbanizados onde viviam pessoas que pagam IPTU? Em 2010, a explicação demofóbica para a morte de mais de 30 pessoas no morro do Bumba, em Niterói, sustentou que a patuleia estava em cima do que fora um lixão. Estava, com a permissão da prefeitura, e ninguém foi responsabilizado. (o grifo é nosso)

“A essa explicação, somou-se a do catastrofismo ambiental. Para quem gosta de falar em calamidades climáticas, vale lembrar que, na Austrália, onde choveu mais do que no Rio, os mortos foram 25 e há dezenas de desaparecidos.”

Num outro trecho de sua coluna, Elio Gaspari brinca com as palavras, com a precisão de um bisturi, sob o título “Área de risco”.

“Na quarta-feira, reunido com sua equipe em Brasília, o secretário nacional de Defesa Civil, doutor Humberto Viana, informou que uma das prioridades de seu mandarinato será a construção da sede própria para a repartição. Àquela hora havia mais de dez mil pessoas desabrigadas no Rio. Na linha da doutora Dilma, pode-se dizer que Secretaria de Defesa Civil é uma área de risco na administração federal.”

A imprensa não pode embarcar nesse lero-lero oportunista de relacionar eventos climáticos extremos para fazer política de ocasião.  O Código Florestal brasileiro é tão antiquado que considera área de preservação permanente qualquer coisa acima de 1.800 metros.  Se aplicado à Bolívia, teríamos que começar por remover a cidade de El Alto, onde se encontra o aeroporto internacional que dá acesso a La Paz.  Para não falar em Cuzco, no Peru, que está a 3.500 metros de altitude e é região de grande visitação turística.

Aliás, quem quiser ver imagens de algumas das mais altas cidades do mundo, a começar por La Rinconada, no Peru, a mais de 5.000 metros de altitude, vale ver as fotos do The Huffington Post clicando em www.huffingtonpost.com/2010/11/18/highest-cities-in-the-world_n_785478.html#s185590&title=undefined.

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Manila e muitas outras províncias das Filipinas foram inundadas em menos de 12 horas depois de iniciadas as fortes chuvas nas serras do Rio de Janeiro.  Para os ecomaníacos e jornalistas de improviso da Folha de São Paulo, as causas das muitas mortes e desaparecidos deve ter sido o descumprimento do Código Florestal brasileiro.  Vale dar uma espiada em

www.youtube.com/watch?v=_Y9OZrlaATY

As imagens do verão de 2008 em Wisconsin, nos EUA, também foram associadas ao fato de que os EUA não tem absolutamente nada similar ao Código Florestal brasileiro – mas tem parques nacionais que funcionam -, as pessoas constroem em “áreas de risco” (ainda que nada similar jamais houvesse acontecido na região), e toda essa baboseira provinciana que aqui parece “praga de madrinha”.

www.youtube.com/watch?v=RuezygBWlyM&feature=channel

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O Brasil continua sem uma política de transição e adaptação às mudanças climáticas, já amplamente definida por regiões em muitos países que têm políticas ambientais sérias, como a Alemanha e boa parte dos EUA, entre outros.

Índia: Monsanto, Suicídios em Massa e Desestruturação do Setor Rural

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Naryanaswamy Naik foi até um pequeno armário e pegou uma lata de pesticida.  Então, ele ficou parado diante de sua esposa e de suas crianças e bebeu o líquido.  ‘Eu não sei o quanto ele havia pedido emprestado.  Eu perguntei, mas ele não respondeu.”  Sugali Nagamma disse, enquanto o seu pequeno neto brincava aos seus pés. “Eu diria a ele:  não se preocupe, nós podemos vender o sal de nossas mesas. (…) Ele morreu na frente de sua esposa e de suas crianças – você pode imaginar?”

Aqui, uma tradução livre do artigo de Alex Renton publicado no jornal inglês The Independent de domingo, dia 2 de janeiro de 2010.  Ao contrário do usual, os comentários do autor do blog serão destacados em sob a forma de maior distanciamento em relação à margem esquerda do texto.

 A morte de Naik, um pequeno produtor rural no estado de Andhra Pradesh, em julho de 2009, é apenas uma nova marca de uma atordoante lista: cerca de 200.000 proprietários rurais indianos se suicidaram na última década.  Como Naik, um terço deles escolheu a ingestão de pesticida para fazer isso.  Uma forma agonizante de morrer, marcada por vômitos e convulsões.

O jornalista indiano Palagummi Sainath assegura que esses números são muito mais elevados, baseado em suas viagens de trabalho para Andhra Pradesh e para Maharashtra.  “Um produtor rural a cada 30 minutos, atualmente, e muitas vezes 3 da mesma família.”  Os critérios de registro dessas mortes mudam de estado para estado, e assim muitos suicídios não são considerados, como ocorre com o significante número de mulheres que se suicidaram mas que não foram consideradas como “produtores rurais” ainda que o seu ganha-pão fosse a sua atividade agrícola.

A maioria das famílias nas quais ocorreram suicídios relata que a perda de colheitas e a perda de terras são os seus maiores problemas.  Metade dos suicídios ocorre em quatro estados produtores de algodão.  Em termos reais, o preço do algodão corresponde, hoje, a 1/12 do valor do mesmo produto há 30 anos.  A cientista Vanana Shiva associa os suicídios à queda dos preços do algodão, ocorrida a partir do momento em que o governo retirou os subsídios às colheitas e as sementes geneticamente modificadas foram introduzidas, em 1997.

“Cada suicídio pode ser atribuído à Monsanto”, afirma Shiva, ressaltando que a introdução da semente geneticamente modificada Bt Algodão causou a falência das colheitas e a disseminação da pobreza porque o seu uso requer o uso de pesticidas e de fertilizantes.  O príncipe do País de Gales fez as mesmas acusações.  A Monsanto nega dizendo que a pobreza tem muitas causas.

Uma negativa capenga, como todos os desmentidos da Monsanto sobre as suas atividades predatórias desde a fabricação do “agente azul”, fabricado para destuir as plantações de alimento durante a invasão do Vietnam pelos EUA, e do agente laranja, também usado logo a seguir e que deixou décadas de sequelas com dezenas de milhares de deformações genéticas nunca sujeitas a indenizações ou sequer de pedidos de desculpas.  (cf. http://en.wikipedia.org/wiki/Agent_Orange).*

No Brasil, a Monsanto faz o que bem entende sem que o governo dê indícios de acordar para os riscos da disseminação de suas sementes geneticamente modificadas que são estéreis e tornam os produtores dependentes delas.  Ao contrário, o governo permite que a Monsanto inspecione os carregamentos de alimentos para o exterior em busca de indícios de sementes “de sua propriedade”, ali impondo o pagamento dos royalties.  Não existe qualquer transparência em relação aos acordos e parcerias entre fabricantes de sementes geneticamente modificadas e a EMBRAPA.  Quais os benefícios para os produtores rurais brasileiros e para a nação brasileira em geral.

Entre os muitos argumentos encontra-se um com menos carga política: o clima, historicamente complexo pelo papel dos Himalaias de um lado e de oceanos turbulentos de outro, e particularmente imprevisível nos últimos anos.  No Rajastão, ao noroeste, uma seca de 10 anos terminou apenas no último verão, enquanto historicamente, na Índia, as monções anuais ocorreram apenas três vezes na última década.

Na Índia, os 600 milhões de pobres e os produtores rurais são mais frequentemente as mesmas pessoas.  Uma única colheita fracassada acaba com as suas reservas financeiras e os leva a perder a terra.  Depois disso, são poucas as chances de retorno à produção rural.

Essas tragédias e até mesmo a venda de crianças para o casamento e o trabalho escravo – algo comum na Índia – são os resultados mais dramáticos desses episódios.  Mas são mais comuns as histórias de dezenas de milhões de pessoas migrando dos campos para as cidades, aumentando o contingente de pobres nas áreas urbanas e deixando vazios na estrutura de produção de alimentos do país.

“Há vinte anos nós podíamos colher o suficiente para nos alimentar e para vender.  Agora, nós não podemos plantar trigo, feijão, cenouras – porque não há suficientes chuvas.  Então, vamos para as cidades em busca de dinheiro.”

Depois de descrever situações em que crianças e até mesmo bebês dormem no chão de obras nas cidades enquanto mães carregam sacos de cimento e tijolos por R$ 2,50 ao dia, o autor do artigo descreve a “nova pobreza, surgida do caos no clima” como a incapacidade de manter as crianças nas escolas.

Shankar Lal, um dos imigrantes de Surah na Kheda, estava tomando chá debaixo de um viaduto com uma dúzia de jovens de seu vilarejo, esperando para serem recrutados por algum empreiteiro. “Se a chuva voltar, nós poderemos ser produtores rurais novamente.  Mas tudo indica que em 10 anos não existirão mais vilarejos, todos estarão nas cidades ou mortos.”

De acordo com o Programa Mundial de Alimentos, metade de todas as crianças da Índia tem peso menor do que o desejável.  Com tantos produtores rurais desistindo de seu trabalho, o problema não é apenas como a Índia alimentará os seus pobres, mas como alimentará o país inteiro.

O governo brasileiro ainda parece acreditar que a segurança alimentar pode ser alcançada através de bolsa-família.  Ainda que louvável, esse programa originalmente concebido pelo Banco Mundial e implantado em diversos países latino-americanos (sempre condicionado à frequência à escola e a melhorias no sistema educacional aqui até agora desconsideradas), não é suficiente para lidar com a segurança alimentar à nível regional e local.

Há consenso de que radicais mudanças meteorológicas ocorreram na Índia nas duas últimas décadas.  O que é menos certo são as causas.  Essas mudanças no regime de chuvas são “mudanças climáticas”?

Se o colapso na produção rural da Índia continuar, uma catástrofe afetará povos muito distantes de suas fronteiras.  Atualmente, meros rumores de monções (chuvas) insuficientes ou de más colheitas na Índia são suficientes para fazer os preços das commodities subirem rapidamente.

No Instituto Rajastan de Estudos do Desenvolvimento, Surjt Singh acredita que as mudanças nos padrões climáticos são tão importantes quanto as mudanças nos padrões de produção rural, ou o crescimento da população e o fracasso das políticas governamentais.  A economia está crescendo a uma taxa de 9%, mas o preço dos alimentos cresce a taxas entre 16% e 18%.

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O artigo publicado no The Independent de Londres nos dá uma boa idéia do crescente subdesenvolvimento da imprensa brasileira! Com as raras e honrosas exceções de hábito, atualmente os meios de comunicação no Brasil mais parecem sucursais do Diário Oficial, limitando-se a disseminar releases sobre o que disseram os governantes fulano e sicrano, com zero de análise da importância ou do conteúdo.

* – Atualmente, a página da Monsanto na internet tem informações sobre a política da empresa para direitos humanos e nela pode ser encontrada a informação de que ela fez doações para a proteção do… jaguar no Brasil, mais especificamente na região do Araguaia.  Quem rece beu a grana deve saber onde é que ela foi parar.

Sobre a Importância dos Produtores Rurais – E Uma Homenagem a Ciro Siqueira

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Neste Natal, impossível não recomendar o blog de Ciro Siqueira a quem se interessa seriamente por meio ambiente e pelos assuntos relacionados ás imprescindíveis e inevitáveis mudanças no Código Florestal.  Vale subscrever no link abaixo:

www.codigoflorestal.com

Engenheiro agrônomo, amazônida, conhecedor da realidade da região, além de excelente profissional Ciro é pessoa tranquila mas aguerrida, de grande inteligência – muito peculiar, rápida – e excelente humor – afiado.  Casado com a também agrônoma e igualmente notável Rita Tofoli, especialista em solos, o casal espera para breve o nascimento de Mariana.

Pelas mãos de Ciro Siqueira aproximei-me de João do Rio, que ainda sendo do Rio eu só conhecia por citações.  Numa visita do casal à cidade em que voltei a morar – para dar continuidade às suas pesquisas sobre as obscuras origens do Código Florestal -, Ciro cometeu uma das infindáveis gentilezas que caracterizam a sua personalidade e trouxe-me um exemplar de A Alma das Ruas, com a recomendação de que não deixássemos que nossas cabeças se transformassem em Cabeças de Papelão, título de um dos contos de João do Rio no qual ironiza a conveniência de acreditar nas “verdades” convencionais.

Se um décimo dos agrônomos brasileiros da área de pesquisa ou extensão ousasse dizer o que pensam do ambientalismo urbanóide de algibeira e do Código Florestal, estaríamos mais do que muito bem.  Ou pelo menos se dissessem que o conflito entre “desenvolvimentismo” e “preservacionismo”, como apresentado, é uma farsa impostora e mal intencionada, o país não estaria perdendo tempo com falsos conflitos.  Afinal, se os produtores rurais forem sempre apresentados como a velha oligarquia alagoana e nunca como a ultra-moderna abordagem do plantio direto que colocou o Brasil entre os líderes mundiais nessa prática, os dados são viciados.

A visita de Rita e Ciro foi um dos pontos altos de meu ano de 2010, e lhes sou grato por existirem.

Ciro sempre descobre e divulga algumas pérolas simples mas notáveis – além de seus corajosos pontos de vista.  Em seu blog de hoje, Ciro indica um vídeo informativo da BASF, que merece ser visto para que os cidadãos urbanos não caiam no conto dos vigaristas que tentam apresentar os produtores rurais como bandidos (enquanto a poluição industrial e das cidades cresce, em vez de diminuir como ocorreu nos países sérios).  Vale ver, clicando no link abaixo.

http://www.youtube.com/watch?v=aoiP-WK3V8o&feature=player_embedded

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O estado do Rio de Janeiro continua sem Zoneamento Econômico-Ecológico porque a Secretaria de Estado de Agricultura não se esforça o suficiente (ou não tem prestígio com o governador Sergio Cabral), porque a Secretaria do Ambiente faz birra e prefere tentar impor pontos de vista, porque as organizações de classe – tanto de agricultores quanto de produtores agrícolas – não se organizam.  Enquanto isso, sem pensar em segurança alimentar ou sequer nos custos de transporte de alimentos, ninguém vai lá perguntar ao CEASA de onde vem o melão que chega às nossas mesas.

O semi-falido extensionismo rural do Rio de Janeiro recomenda ao produtor esse ou aquele cultivar sem se perguntar se há demanda.