Energias renováveis – O Uruguai atinge o recorde de 95% de sua eletricidade dessas fontes

O Uruguai lidera na adoção de energias limpas na América Latina, com 95% de sua eletricidade oriundos dessas fontes.  Isso aconteceu em menos de 10 anos, sem subsídios do governo ou aumento de preços para os consumidores – afirma Ramón Méndez, diretor de políticas de mudanças climáticas.

“De fato, agora que as energias renováveis são responsáveis por 94,5% do abastecimento de eletricidade, os preços para os consumidores são menores do que no passado – se considerada a inflação – e há menos cortes de energia em decorrência da diversificação das fontes.

“Não há milagres tecnológicos.  A energia nuclear está totalmente fora desse mix de fontes de energia, nenhuma fonte hidrelétrica foi adicionada nos últimos 20 anos.  A chave para o sucesso é bastante simples e facilmente replicável: um processo decisório claro, um ambiente regulatório favorável e uma forte parceria entre os setores público e privado.”

Com isso, os custos da eletricidade caíram mais de 30% nos últimos 3 anos. e a vulnerabilidade às secas foi reduzida em 70% – afirma Méndez.

“Nos últimos 3 anos, não importamos um único kW/h.  Nós costumávamos importar eletricidade da Argentina, mas agora nós exportamos para ela.  No último verão, nós vendemos para ela 1/3 de nossa geração com energias renováveis”.

Enquanto isso, os investimentos globais em carvão e gás natural caíram à metade dos investimentos em energias limpas, com a China liderando: US$ 103 bilhões em 2015, um aumento de 17% em relação a 2014.  De acordo com especialistas, em grande parte esses avanços se devem à redução dos custos dos painéis fotovoltaicos, cujos preços caíram cerca de 60% desde 2009.

Enquanto isso, cresce o número de fundos de investimento – incluindo os grandes fundos de pensão – que decidiram retirar o seu dinheiro da área do petróleo. Agora foi a vez de mais um fundo da família Rockefeller, que sabe que nessa área tende a perder dinheiro e, mais, considera imorais esses investimentos.

E o Brasil, onde fica nessa história?  Entre as política públicas, incluindo os avanços na regulamentação da ANEEL, a distância continua imensa, os preços são altos, as linhas de crédito de longo prazo são de difícil acesso – em particular para a micro-geração distribuída (isto é, o uso de painéis solares em residências e edificações comerciais – continua sendo largamente boicotado pelas concessionárias.

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Até os países árabes dispararam na direção da energia solar.  Muitos exemplos já foram dados aqui.  Agora é a vez de Oman, que anuncia a implantação de 1 GW (1.000 MW) com a tecnologia que eles estão preferindo para grandes centrais: espelhos que seguem o sol e concentram energia numa torre na qual é aquecido sal e que pode gerar eletricidade por várias horas após o pôr do sol.  A nova planta, que estará operacional em 2017, chama-se Miraah (espelho, em árabe), é uma parceria entre o governo e as petroleiras Shell e Total.

A Miraah foi construída após a conclusão e operação bem sucedida de uma planta piloto d 7 MW em Amal, com apenas 7 MW.  Esta, foi implantada dentro do cronograma e do orçamento (isto é, sem aditivos contratuais, como é a regra das empreiteiras brasileiras).  Cerca de 40% dos materiais foram fornecidos por empresas de Oman!

As empreiteiras brasileiras não gostam nada de energia solar ou fotovoltaica porque nesses casos não podem ficar colocando concreto e faturando por volume medido.

Brasil – Ministério faz teste com painéis fotovoltaicos em hidrelétricas (e se vangloria de ser “o primeiro do mundo”)

O ministério de Minas e Energia anunciou a colocação de 16 placas solares fotovoltaicas flutuantes no reservatório de Balbina como um projeto “pioneiro no mundo”.  Logo fará o mesmo reservatório de Sobradinho.  Excelente iniciativa, ainda que nesta etapa tenha caráter piloto.

Projetos desse tipo – em escala muito maior – já se encontram operacionais no Japão e outros encontram-se em diferentes fases de implantação nos mais diversos países.  Atualmente, o sendo segundo maior está na Califórnia, com capacidade instalada de 12,5 MW;  deverá entrar em operação ainda em 2016.

No Japão, já está implantado a sua quarta planta solar fotovoltaica flutuante, e não com 16 mas com 51.000 painéis e capacidade total instalada de 13.7 MW.

Nas vizinhanças de Londres, no Reservatório Rainha Elizabeth II, já se encontra em fase final de implantação um sistema idêntico com 23.000 painéis fotovoltaicos, primeira etapa do plano da concessionária de águas Thames Water para gerar 1/3 de sua demanda energética a partir de fontes renováveis até 2020.

Não importa se numa hidrelétrica ou num reservatório usado para irrigação!  O  governo brasileiro não precisa afirmar que é “o primeiro no mundo”, contando com a desinformação ou a falta de vocação para a pesquisa na internet do jornalista que viajou à convite das autoridades.

A iniciativa é boa e certamente não requer tantos estudos de “impactos sobre o meio ambiente” se as parcerias corretas forem feitas.

De fato, o ideal seria acelerar a implantação desses projetos e adotar modelos semelhantes para os grandes reservatórios que abastecem as áreas urbanas e mesmo para os canais de irrigação do São Francisco – e até para a tal da “transposição” – de maneira a reduzir as perdas por evaporação, benefício adicional que já vem sendo testado na Índia e na Austrália.

Basta ceder esses espaços todos para a iniciativa privada que se chegará muito mais rapidamente a soluções em escala comercial.  De fato, a proximidade/disponibilidade de estações reduz muito os custos e os reservatórios das hidrelétricas podem ter um percentual razoável aproveitado para essa (e outras finalidades) sem demasiadas firulas mascaradas de estudos ambientais.

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Difícil compreender por que as placas fotovoltaicas serão importadas da China quando já existe pelo menos um fabricante no Brasil.  Os órgãos de financiamento público não costumam insistir com um percentual mínimo de “conteúdo nacional”?

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Já há centrais fotovoltaicas flutuantes em operação pelo menos desde abril de 2015, no Japão.

Ou na Coréia, até mesmo com sistemas rotativos que acompanham o movimento do sol, aumentando a eficiência do sistema em cerca de 36%.

E na Índia, em 2012, já entrava em operação a primeira planta solar sobre canais de irrigação, para evitar o uso de terras agrícolas e reduzir as taxas de evaporação.

A lerdeza mental nos processos decisórios tem pernas tão curtas quanto a mentira ou…sejamos condescendentes, os excessos de auto-elogios.

Acorda, Brasil!  É preciso avançar rapidamente!  Por que não a concessão não onerosa de áreas de reservatórios de hidrelétricas e outros onde já exista a infraestrutura para a conexão da energia fotovoltaica à rede?

Mudanças Climáticas e Mal Uso da Água Atingem a Bolívia

Um mini-satélite da Agência Espacial Europeia (link em português) – o Proba – V – mostra em imagens como o segundo maior lago da Bolívia – o Poopó – secou quase completamente nos três últimos anos (as áreas em azul estão secas).

Bolívia - Lake Poopo - webpequena

A Agência atribui o fenômeno ao mau uso / uso excessivo da água para mineração e agricultura em associação com as mudanças climáticas e o El Niño que neste ano avança de maneira mais grave pelo oceano Pacífico.  A sua evaporação total foi declarada em dezembro de 2015.

Esta não é a primeira vez que o Lago Poopó seca completamente – a última vez foi em 1994 -, mas teme-se que sejam necessários anos para que ele volte a encher – “se isso acontecer”.

“Até lá, os pescadores locais ficarão sem a sua forma de renda (e alimentos).  O ecossistema do lago é extremamente vulnerável.  Ele é reconhecido como zona úmida de conservação inscrita na Convenção Ramsar (específica para essas áreas).

Na última década, a NASA tem alertado os governos de países latino-americanos que dependem de geleiras para o seu abastecimento de água sobre os acentuados riscos de que o recuo de muitas delas coloquem as suas populações em risco.

O Peru, que abriga 70% das geleiras tropicas do mundo, já reconhece que perdeu 40% delas em 4 décadas.

Já mais do que passado o momento do poder público brasileiro – nos diversos níveis – formular planos estratégicos para uma sociedade de transição no que se refere às disponibilidades de água.  Como decorrências das mudanças climáticas, água em demasia em algumas regiões – como se tem visto no sul do país – e secas mais prolongadas em outras, como no nordeste.

Não há por que esperar pelo governo federal num país de dimensões continentais e contratar, com recursos do Banco Mundial, um estudo voltado para estabelecer uma “Política Nacional de Reuso de Água” – como ocorreu em 2015 – é muito pouco, se de alguma forma for útil.  Não se tem conhecimento de qualquer país sério que tenha esse tipo de abordagem.  Os EUA, onde a EPA já publicou, em 2012, a sua quarta versão das Diretrizes para o Reuso da Água, não têm essa “política” – mas apenas diretrizes, o interesse pelo desenvolvimento científico e tecnológico, procedimentos para a validação dos sistemas e equipamentos, e muita vontade política de planejar para o longo prazo e fazer acontecer.

De fato, as tecnologias avançaram tanto que seus preços se tornaram compatíveis com o reuso direto de esgotos para o abastecimento público, que já se consolidou no Texas e avança na Califórnia.

 

Painéis Solares – Reação das Concessionárias e Dinamização dos Mercados – A Flexibilização ou o Fim das “Áreas de Concessão” e dos “Clientes Cativos”

A estrutura de gestão de energias renováveis e, em particular, da microgeração distribuída no Brasil, centralizada na Aneel, é contraproducente e não permite às cidades e estados tomarem iniciativas que dinamizem esses mercados.

Aos fatos.

Neste momento, ocorre na Califórnia uma verdadeira batalha entre as concessionárias de serviços de eletricidade e os fabricantes/grupos interessados no uso de painéis solares fotovoltaicos em telhados ou de alguma forma descentralizada.

Já há muito tempo a Califórnia adotou o que ficou conhecido como “net metering”, que consiste não apenas nos medidores de eletricidade que giram nos dois sentidos mas, também, que as concessionárias deduzam integralmente da conta dos fornecedores de energia fotovoltaica descentralizada – basicamente, painéis solares nos telhados – a quantidade de energia a ela fornecida e, o que é mais, que paguem pelo excedente ou movam os créditos para meses subsequentes.

Esse esquema assegura a maior viabilidade econômica dos “tetos solares”.

O que as concessionárias de energia elétrica da Califórnia propõem é a cobrança de uma taxa fixa ou proporcional à quantidade de energia gerada de maneira descentralizada para remunerar o uso do sistema de distribuição local.

E lá a Califórnia – como todos os outros estados – têm a sua própria agência regulatória para resolver problemas de interesse exclusivamente local ou estadual (já que essa decisão em nada impacta a segurança do abastecimento energético nacional).

Espera-se que a Comissão de Serviços Públicos (Public Utilities Commission) tome uma decisão de equilibrada até o final do ano, depois de ouvir todas as partes envolvidas, buscando assegurar a continuidade da expansão da energia fotovoltaica distribuída.

Já na Flórida, a batalha foi parar na Suprema Corte estadual (correspondente aos nossos tribunais de justiça) que terá, talvez, a última palavra sobre um assunto de imensa importância para o desenvolvimento do mercado de geração fotovoltaica: uma proposta de ruptura com o sistema de concessão por áreas dos serviços de fornecimento de eletricidade.

Trata-se de uma iniciativa popular de mudança da constituição estadual e, de fato, o que a Suprema Corte está discutindo não é o mérito da proposta mas se ela está redigida de maneira suficientemente clara.  O voto popular para mudar leis é amplamente utilizado nos EUA.

De fato, a Flórida é um dos poucos estados norte-americanos nos quais um gerador independente não pode vender a eletricidade gerada diretamente para outros consumidores.

Além disso, vale notar, em 42 das 50 maiores cidades norte-americanas, o preço da eletricidade fotovoltaica já é inferior ao da fornecida pela concessionária.  Então, é tempo de começar a transição em direção ao fim do conceito de “clientes cativos”, da mesma forma que ocorreu com a telefonia.

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Aí estão dois belos exemplos de criação e dinamização de mercados que podem ser utilizadas por Joaquim Levy e sua equipe que insiste no aumento dos impostos em lugar de promover a maior eficiência da economia.

Quebrar o monopólio da Aneel sobre tais questões pode ser um belo item para a tal da “reforma política”, que até agora se limitou aos financiamentos de campanha e à dança das cadeiras no loteamento de ministérios, cargos e orçamentos.  O país precisa sair da inércia – entre as quais, da inércia das concessões por áreas, quando as tecnologias comprovadas já permitem que isso seja feito.

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No Brasil, os medidores bidirecionais apenas começam a ser instalados e as regras de pagamento/compensação aos fornecedores desse tipo de energia ainda capengam.  A reação das concessionárias é compreensível mas inaceitável, e para isso falta a ação mais decisiva do poder público.

 

O Ano Mais Quente Desde 1880 e a Necessidade de Políticas de Segurança Hídrica e Energética

Julho de 2015 foi o mês mais quente da história desde os inícios das medições, em 1880.

A informação consta da página da Administração Nacional dos Oceanos e da Atmosfera (NOAA, na sigla em inglês), o mais importante centro de monitoramento e previsão do clima dos EUA. Continuar lendo O Ano Mais Quente Desde 1880 e a Necessidade de Políticas de Segurança Hídrica e Energética