Guerras por Recursos Naturais: Os EUA Não Estão se Retirando do Iraque!

O artigo abaixo, de autoria de um brilhante jornalista, foi publicado no The Independent.  O autor deste blog achou importante traduzí-lo, para que não se espalhe a versão de que a invasão do Iraque foi algo mais do que uma guerra por petróleo, ou de que os soldados norte-americanso venceram, ou que estão realmente se retirando.

O número de mercenários contratados pelo Departamento de Estado dos EUA através de uma empresa chamada Blackwater atualmente presentes no Iraque é estimado em 100.000.  Estão lá para proteger os interesses comerciais das empresas norte-americanas e usam equipamentos muito superiores aos dos militares que lutam sob a bandeira norte-nacional dos EUA.

Há alguns anos, a Blackwater mudou o seu nome para Blackwater Mundial.  Muitas outras empresas que usam mercenários já fecharam contratos bilionários com o gtoverno nort-americano.  Os leitores podem facilmente tirar as suas próprias conclusões sobre as potenciais e prováveis consequências futuras dessa abordagem que mantem vivo e reforça o complexo industrial militar dos EUA, quando o uso desses cowboys altamente trinados se frizer necessário para a conquista de outros recursos naturais no planeta.

Robert Fisk: Tropas norte-americanas dão adeus ao Iraque

Tortura, corrupção, guerra civil.  Os americanos certamente deixaram a sua marca

20/08/2010

Numa invasão de outro país, há um primeiro soldado – da mesma forma que um último.

O primeiro homem na frente da primeira unidade da primeira coluna do exército invasor norte-americano a chegar à praça Fardous no centro de Bagdá em 2003 foi o cabo David Breeze, do 3º. Batalhão, do Quarto Regimento dos Marines.  Por essa razão, é claro, ele quis me dizer que ele não era um soldado.  Marines não são soldados.  Eles são Marines.  Mas ele não havia falado com a sua mãe por dois meses e entãqo eu ofereci a ele o meu telefone via satélite para que ele ligasse para Michigan.  Qualquer jornalista sabe que terá uma boa história se emprestar um telefone para um soldado na guerra.

“Olá, pessoal”. o cabo Breeze saudou.  “Eu estou em Bagdá. Estou telefonando para dizer que amo vocês e que estou bem. A guerra terminará em poucos dias.  Eu os verei em breve.”  Todos eles disseram que a guerra terminaria em breve.  Mas não consultaram o Iraque sobre essa percepção agradável.  Os primeiros “homens bomba” – um policial num carro e, depois, duas mulheres em outro – já tinham atingido os americanos na longa estrada até Bagdá.  Outras centenas de soldados americanos seriam atingidos. E outras centenas serão atingidos no futuro.

Nós não devemos nos deixar enganar pela saída de soldados americanos através da fronteira do Kuwait nas últimas horas, a partida da “última tropa de combate” do Iraque com duas semanas de antecedência.  Nem pelos gritos infantis do tipo “nós vencemos” de soldados adolescentes, alguns doa quais talvez com 12 anos de idade, quando George W. Bush enviou as suas tropas para uma aventura catastrófica no Iraque.  Eles estão deixando 50.000 soldados no Iraque – um terço do total da força militar americana de ocupação – que será atacada e que terá que lugar contra a insurgência.

Sim, oficialmente eles ficam para treinar soldados e policiais, os cidadãos mais pobres entre todos os pobres que se alistaram no novo exército iraqueano, cujo próprio comandante não acredita que eles estejam em condições de proteger o seu país até 2020.  Mas eles continuaram ocupados – certamente um dos “interesses americanos” que eles deverão defender será a sua própria presença – juntamente com milhares de mercenários indisciplinados armados que atiram à primeira vista em nome da segurança dos preciosos diplomatas e homens de negócios ocidentais.  Então, digam bem alto: nós não estamos nos retirando do Iraque.

Ao contrário, os milhões de soldados americanos que passaram pelo Iraque trouxeram consigo uma praga.  Do Afeganistão – pelo qual eles sentiram tanto interesse em 2001 quanto eles demonstrarão quando estiverem “deixando” o país no próximo ano – eles trouxeram a infecção da Al Qaida.  Eles trouxeram a doença da guerra civil.  Eles injetaram no Iraque a corrupção em grande escala.  Eles marcaram com seu selo de tortura a prisão de Abu Ghraib – uma sucessão à altura das mesmas práticas na mesma prisão nos tempos do domínio vil de Saddam – depois de carimbarem com as marcas da tortura em Bagram e nas prisões clandestinas do Afeganistão.  Eles tornaram sectário um país que, a despeito de toda a brutalidade de Saddam, tinha até então conseguido manter Sunitas e Shias unidos.

E como os Shias vão invariavelmente dominar essa nova “democracia”, os americanos deram ao Irã a vitória que o Irã havia buscado nos terríveis anos 1980-1988, período de guerras contra Saddam.  De fato, os homens que atacaram a embaixada americana no Kuwait nos maus tempos – homens que eram aliados dos suicidas que explodiram bombas que fizeram voar pelos ares os Marines em Beirute em 1983 – são os mesmos que agora ajudam a governar o Iraque.  Os Dawa eram terroristas naquele período.  Agora, eles são “democratas”.  É divertido ver como esquecemos os 241 soldados à sérico dos EUA que morreram na aventura do Líbano.  O cabo Breeze tinha então, provavelmente, não mais do que 2 ou 3 anos de idade.

Mas a atitude doentia continuou.  O desastre americano no Iraque infectou a Jordânia com a Al-Qaida – o bombardeio do hotel em Amman – e depois o Líbano novamente.  A chegada de homens armados do Fatah AL-Islam no campo palestino de Nahr AL-Bared no norte do Líbano – e sua guerra de 34 dias com o exército libanês – e o grande número de civis mortos – foi tudo conseqüência direta do fortalecimento Suni no Iraque.  Então, o Iraque foi  reinfectado pelos homens-bmbas do Afeganistão, que fizeram com que a auto-imolação fizesse com que os soldados americanos que lutavam homens contra homens passassem a se esconder de homens que se escondem.

De toda forma, eles estão agora ocupados reescrevendo a narrativa.  Um milhão de iraquianos foram mortos.  Tony Blair não se importa com eles – eles não são beneficiários de sua generosidade com os royalties (do petróleo).  Como tampouco os soldados norte-americanos são beneficiaries.  Eles vieram.  Eles viram.  E agora eles dizem que venceram.  Como os árabes que sobreviveram com apenas seis horas de eletricidade por dia, devem estar ansiosos por mais vitórias como essa!  Afinal, agora eles têm 15,5 horas de eletricidade por dia.  Mais do que no início da invasão mas bem menos do que no período antes da invasão.

As Belezas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro e as Tolices do Código Florestal

Visitar o Jardim Botânico do Rio de Janeiro é sempre uma imensa felicidade.  Tanto por sua beleza, quanto pelos cuidados que continua recebendo – e apesar dos patrocinadores exigirem que seus nomes fiquem sempre bem visíveis.  Nele, é possível ver, também, o quanto é inútil, pela generalidade excessiva, o próprio conceito de faixa marginal de proteção dos rios e lagoas, bem como os esforços ignorantes de conectar essa farsa à proteção ambiental.

Abaixo, imagens de riachos que atravessam o Jardim Botânico, mostrando claramente (a) que o curso foi definido pela conveniência do planejamento, (b) que existem muretas de contenção laterais, cuidadosamente recobertas com plantas, ao longo do tempo, e (c) que riachos menores correm por canaletas subterrâneas – para permitir a existência de caminhos – ou superficiais até desaguarem nos córregos principais.

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Também as quedas d’água naturais foram cuidadosamente arquitetadas, com projetos executados para atender tanto a padrões estéticos quanto a um plano de visitação sem, com isso, perder nada de sua naturalidade ou provocar qualquer vestígio de agressão ambiental.

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Até onde se saiva, nunca um emepéio ou emepéia acordou e resolveu notificar a direção do maravilhoso Jardim Botânico do Rio de Janeiro de que ele deveria respeitar o Código Florestal e remover muretas de contenção artificiais de maneira a permitir que os riachos e quedas d’água voltassem ao seu curso natural, ou que retirassem os caminhos que permitem aos visitantes se aproximarem de tais belezas e e apressentasse um projeto de recuperação das faixas marginais de proteção com espécies nativas.

Mas ai do município ou do proprietário privado que se proponha a fazer algo semelhante em nome da disseminação do amor pela natureza!  Receberá uma notificação ameaçadora ambientalóide do MP e os proponentes do projeto serão ameaçados de danação eterna.

Dizia Schiller, filosófo alemão, que contra a burrice até os deuses lutam em vão.

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Alguns juristas mais afoitos vêem na criação do Jardim Botânico do Rio de Janeiro logo após a chegada da Corte portuguesa uma preocupação ambiental – como concebida hoje.  Mais tolices.  De fato, criado menos de 3 meses após a chegada da família real, o Jardim da Aclimação teve por objetivo o estudo das plantas e especiarias oriundas das Índias Ocidentais.  O objetivo era o cultivo de plantas exóticas – incluindo a Palma mater, da qual descendem todas as palmeiras imperiais do Brasil – e outras, da flora brasileira, que pudessem ter valor econômico.

A noção de “recursos botânicos” era outra e para que a bobagem e a confusão não persistam vale consultar o link abaixo.

http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/iah/P/verbetes/jbotrj.htm

Copenhaguem, Mudanças Climáticas e a Mitologia do Valor Econômico das Florestas Amazônicas

Entre os mitos amazônicos, o mais atual refere-se ao imenso potencial de atrair recursos dos países altamente industrializados para a proteção das florestas de maneira a conter as emissões de dióxido de carbono.  Toda a luta da jogatina política, bem como as esperanças dos ambientalistas fascinados pela Amazônia que não conhecem está no reconhecimento do valor da preservação das florestas pré-existentes ao encontro de Copenhaguem – já que essas florestas não foram incluídas como potenciais receptores de créditos de carbono no Protocolo de Kyoto.

Essa farsa não sustenta diante da mais superficial avaliação da distribuição de florestas no mundo e da posição relativa do Brasil entre os países.  Caso os “ricos” forem pagar por florestas e a densidade per capita de florestas na totalidade dos países ou mesmo entre os países pobres – e até muito mais pobres do que o Brasil, já que se pretende aliar desenvolvimento às metas de redução de gases causadores de mudanças climáticas -, as vantagens comparativas do Brasil podem não ser tão grandes quanto observadas sob a ótica planetária – em lugar do próprio umbigo.

Abaixo, as 31 primeiras posições de 194 países.  A lista completa pode ser encontrada em www.nationmaster.com/graph/env_for_are_sq_km_percap-area0sq-km-per-capita.

Área de Florestas Per Capita – Em Quilômetros Quadrados (2005)
Ranking País Área
1 Suriname 325.913
2 Guiana 201.060
3 Gabão 157.351
4 Canadá   96.020
5 Austrália   80.515
6 Botswana   67.669
7 Bolívia   63.973
9 Rússia   56.514
11 República do Congo   56.193
12 Butão   50.186
13 Papua Nova Guiné   50.002
14 Ilhas Salomão   45.464
15 Finlândia   42.889
16 Mongólia   40.141
17 Namíbia   37.716
18 Angola   37.076
19 Zâmbia   36.383
20 Guiné Equatorial   32.412
21 Paraguai   31.321
22 Nova Caledônia   30.578
23 Suécia   30.505
24 Laos   27.248
25 Brasil   25.627
26 Peru   24.579
27 Rep. Dem. do Congo   23.217
28 Vanuatu   20.817
29 Noruega   20.304
30 Nova Zelândia   20.217
31 Palau   19.901

Como se vê, as vantagens comparativas do Brasil não são tão grandes apenas em decorrência de seu território coberto por florestas nativas.  Quando a questão das florestas é vista sob uma perspectiva global, as florestas do Suriname, da Guiana ou do Gabão podem exercer uma atratividade muito maior para os países que querem preservar florestas nativa, tanto em função das menores pressões demográficas quanto com os objetivos de associar desenvolvimento e proteção da biodiversidade.

O divertido é que em nenhum desses países há vestígios dos debates enfáticos e manipulativos que podem ser observados no Brasil.  Até porque florestas maduras não absorvem carbono, e florestas bem manejadas preservam o ciclo do carbono quando uma árvore abatida é substituída por outra, recém plantada.  Assim fazem países como a Suécia e a Finlândia, originalmente para manter os seus estoques de madeira destinada ao uso econômico.

Esta, aliás, é a origem da reserva legal no Brasil, que depois foi indevidamente apropriada pelos “zambientalistas” que ainda não explicaram qual seria a sua ‘função ecológica”.

O Blefe do Biodiesel da Mamona e o "Golpe na Praça"

No início de 2004, o governo federal anunciava a redenção do semi-árido nordestino – no velho e bom estilo do Padinha Cícero – através do uso da mamona para a fabricação de bioidiesel.  Na mesma época, o governador do Piauí batia no peito e anunciava, com o orgulho de quem tivesse inventado a roda ou a pólvora, sobre “reforma agrária privada”.  Essa reforma se ddaria  com a cessão de terras com grande disponibilidade de água no aqüífero subterrâneo para o assentamento de centenas de famílias de pequenos agricultores que se comprometiam a plantar e a fornecer mamona para uma empresa chamada Brasil Eco-Diesel por 10 anos.  Condições no mínimo suspeitas para uma reforma agrária e para a comercialização de produtos da pequena agricultura familiar.   Ao final desse período, eles receberiam o título de propriedade da terra.

A Brasil Ecodiesel transitava com facilidade nos corredores do poder e esse era apenas um de vários projetos similares, e seria replicado em diversas outras localidades do Piauí e do Ceará.  Até mesmo O Estado de São Paulo, conhecido por suas posições conservadoras, caiu no conto do vigário e publicou matéria com o título “O petróleo verde jorra no interior do Piauí”.

Poucos anos depois, esses pequenos agricultores abandonavam as terras prometidas, sem que a imprensa concedesse ao fato a devida cobertura.  Afinal, a Brasil Eco-Diesel já havia conseguido os financiamentos que desejava com o Banco do Nordeste do Brasil – BNB para a construção de unidades esmagadoras, que chegaram a operar com soja, e não com a mamona produzida no assentamento Canto do Buriti, no Piauí.  O projeto foi aprovado com a previsão de níveis de produtividade de mamona muito superiores aos alcançados no Brasil.

Recentemente, a Agência Nacional do Petróleo aprovou regulamento que inviabiliza o uso da mamona na produção de biodiesel em função da viscosidade do óleo dela extraído.  O governo silenciou, como se o assunto nunca tivesse existido.

De fato, qualquer profissional com um mínimo de informação sobre o óleo de mamona sabia que isso tudo era uma balela.  Mesmo sem considerar a questão da viscosidade, a verdade é que o óleo de mamona tem, historicamente, no mercado internacional, preço muito superior ao diesel, em vista de características físico-químicas que permite o seu uso em centenas de aplicações, incluindo ccomo componente de aditivos de aviação, insubstituível até mesmo nas aeronaves da NASA.  Quem consegue produzir óleo de mamona não vai perder dinheiro vendendo-o para fazer biodiesel!

Por trás da Brasil Ecodiesel, um empresário brasileiro mas, também, um fundo de investimentos administrado pelo Deutsch Bank, sem que nunca viesse a público os nomes dos investidores por trás do tal fundo.

Em novembro de 2006, com o aval da Comissão de Valores Mobiliários – CVM, foi feita uma Oferta Pública de ações da Brasil Ecodiesel na Bolsa de Valores de São Paulo – BOVESPA.  O preço atribuído à empresa foi de R$ 1.553 milhões e as ações foram vendidas a R$ 12,00.  Na semana passada, como a divulgação de um relatório da Crédit Suisse avaliando a empresa pelo chamado “valor de liquidação”, as ações caíram para R$ 1,79.  No final de março, a Brasil Ecodiesel tinha R$ 5,8 milhões disponíveis para o pagamento de uma dívida de R$ 235 milhões.

O Banco do Nordeste do Brasil – BNB, que recebe fundos constitucionais não divulgou qualquer nota sobre a possibilidade de recuperação dos empréstimos feitos à Brasil Ecodiesel.

Terá sido esse apenas um blefe bem programado para dar um golpe na praça, à exemplo do que fizeram empresas norte-americanas como a Enron?

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Dias depois do anúncio do Crédit Suisse de que o valor da empresa era o de liquidação, a Brasil Ecodiesel anunciou a renegociação de sua dívida financeira – superior a R$ 200 milhões – com um pool de bancos.  Evidentemente, nenhum banco, individualmente, assumirá um mico desse tamanho, nem mesmo tendo como garanria 5 unidades industriais, 18 fazendas e os parques de máguinas de usinas localizadas no Rio Grande do Sul e no Maranhão.

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A Brasil Ecodiesel foi com frequência acusada pelos competidores de oferecer preços muito baixos para vencer os mega-leilões de biodiesel estranhamente realizados pela Agência Nacional do Petróleo – ANP (afinal, o que é mesmo que a ANP tem a ver com isso?).  Não consta que qualquer empresa que tenha vendido e não cumprido o compromisso de entrega do produto tenha sido multada ou de qualquer forma punida.

Colapso Ambiental – Colapso da Civilização – II

Em 2007, a Sociedade Norte-Americana de Física lançou um alerta sobre a escassez do gás hélio, se tornará um problema crítico para a humanidade em pouco tempo. 

O hélio é essencial em usos tão cotidianos quanto a ressonância magnética, fibras óticas, produção de chips e lançamento de espaçonaves que colocam satélites de comunicação em órbita.  Embora seja um dos elementos mais abundantes do planeta, os cientistas consideram que o gás hélio não é renovável, e afirmam que ele é insubstituível: “as suas propriedades são únicas e, ao contrário dos combustíveis fósseis, não há formas de assegurar a produção de substitutivos”.  

O hélio é hoje considerado tão essencial quanto o silício.  O gás é extraído de algumas reservas de gás natural  em formações geológicas específicas.  Transformar tudo em tudo – o velho sonho da alquimia – não é uma possibilidade ao alcance da ciência.

O grupo de cientistas do MIT que elaborou o modelo matemático que resultou na percepção de que existem limites para o crescimento não contava com esse tipo de escassez, tão crítica quanto a de muitas matérias-primas e insumos.  Mas o modelo trabalhou com 16 minerais, além do carvão, petróleo e gás natural.  Alumínio, cromo, cobalto, chumbo, cobre, mercúrio, prata e outros.  Na vida cotidiana as pessoas sequer percebem que todos os produtos que usam ou consomem – exceto alguns alimentos  – resultam da transformação dessas matérias-primas, cujas reservas são finitas.

O modelo desenvolvido pelo MIT em 1972 incluiu as reservas então conhecidas desses recursos naturais e diferentes taxas de crescimento do consumo.   Em todo s os cenários, é claro, as projeções de crescimento do consumo dessas matérias-primas e insumos têm um caráter exponencial.

A matemática do crescimento exponencial já é conhecida da humanidade pelo menos desde a Pérsia antiga. Conta a lenda que um súdito pediu ao rei, em retribuição a um serviço prestado, que lhe fosse dada a quantidade de grãos de um cereal calculada da seguinte forma: seria colocado um grão de cereal no primeiro quadrado de um tabuleiro de xadrez, dois no segundo, quatro no terceiro e assim progressivamente.  O rei sorriu, condescendente, achando o pedido singelo e simples, mas logo percebeu que nem mesmo as imensas riquezas de seu reino seriam suficientes para atender ao pedido. De fato, nessa progressão geométrica o décimo quadrado do tabuleiro de xadrez já requer 512 grãos de arroz, número que sobe para 16.384 no décimo-quinto quadrado, e para mais de um milhão no vigésimo-primeiro.  Todo o estoque de grãos do reino estaria exaurido muito antes de que o sexagésimo-quarto quadrado do tabuleiro fosse atingido.

O programa que resultou do modelo matemático desenvolvido pela equipe do MIT recebeu o nome World 3.  Em todas as simulações o crescimento exponencial da demanda fez com que a disponibilidade de diversas matérias-primas e insumos resultou numa expansão bem pequena do período de tempo ao longo do qual ela se encontraria disponível.  Assim, por exemplo, se as reservas então conhecidas fossem multiplicadas por cinco, o crescimento exponencial da demanda faria com que a disponibilidade da matéria-prima ou insumo passasse de 21 para apenas 45 anos.

O modelo incluiu simulações relacionadas às variações de preços e às possibildidades de substituição de uma matéria-prima por outra, e até mesmo possibilidades de reciclagem. 

O World 3 foi revisto e aperfeiçoado em 1992 – por ocasião da Rio-92 – resultando na publicação de um livro que recebeu o título de Além dos Limites.  O título ja dizia bastante.  Mas, então, todos já estavam muito mais interessados na visibilidade política e na badalação do que em números ou na viabilidade das propostas. 

Muito mais tarde, o norte-americano Dennis Meadows e o norueguês Jorgen Randers, dois dos líderes desses estudos realizados pelo MIT, escreveram:

“Em 1972, os modelos matemáticos situavam o fim do crescimento quase 50 anos depois.  Naquela época pareceu-nos que havia tempo suficiente para deliberação, escolha e ação corretiva – mesmo em nível global.”

Hoje em dia as mudanças climáticas inspiram um tal temor, drenam tanto capital e esforços orientados para a inovação tecnológica unicamente na área energética que todas essas outras variáveis foram varridas para baixo do tapete. 

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À época da primeira publicação de “Limites para o Crescimento” – em 1972 –  os percentuais de consumo dos EUA em relação à produção total de alguns mineirais já eram elevadíssimos: 42% do alumínio, 32% do cobalto, 40% do molibidênio, 33% da platina, 38% do níquel, e assim por diante, além de 50% do petróleo.

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As projeções do World 3 erraram em relação à China, cujas taxas de crescimento econômico eram, então, muito inferiores ou pouco conhecidas.  Em 2006, a taxa de crescimento econômico da China chegou a 10,7%.  O país tem, hoje, quase 20% da população mundial.  Agora já se sabe que os chineses chegaram para ficar.  E assumiram os mesmos padrões de consumo do ocidente.  Além de comprar reservas de matérias-primas que consideram estratégicas, inclusive no Brasil.  O caráter exponencial do crescimento econômico se acentuou, o futuro chegou, e o longo prazo passou a ser o horizonte de uma crise na bolsa.  Ou seja, a um palmo do nariz.