Amplia-se o “desinvestimento” na indústria de combustíveis fósseis

Encontra-se em curso uma campanha mundial para que os fundos de pensão e muitos outros retirem os seus investimentos do petróleo e dos combustíveis fósseis em geral.  A campanha se apoia nos já mais do que comprovados efeitos e riscos das mudanças climáticas, que a cada dia preocupam mais o próprio mundo dos negócios.  O sucesso desse tipo de iniciativa deve parecer improvável ou mesmo irracional para aqueles que acreditam que o “capitalismo” é o responsável por todos os problemas do mundo, mas torna-se bastante mais provável diante dos números que indicam que os preços do petróleo não voltarão a subir e que o endividamento ou a redução das margens da atividade petroleira tendem a aumentar.

A última grande pancada na cara da indústria petroleira foi anunciada agora, com a decisão da Fundação Bill e Melinda Gates de vender US$ 187 milhões em ações da British Petroleum (o cursor nos trechos sublinhados leva às fontes das informações).  A decisão foi tomada exatamente no quadro dessa campanha, por razões éticas.  Bill Gates afirmou que a venda de ações nas empresas de carvão, petróleo e gás é uma “falsa solução” para as mudanças climáticas, mas os investimentos da Fundação nesses setores caiu 85% desde 2014.  Anteriormente, a Fundação já havia vendido US$ 824 milhões em ações na Exxon Mobil (que se encontra sob investigação nos EUA por ter “mentido aos investidores” sobre as potenciais consequências das mudanças climáticas).

Gates tem razão quando afirma que apenas o desinvestimento em petróleo não é uma solução para as mudanças climáticas.  Há necessidade de que o capital se mova rapidamente na direção da eficiência energética e das energias renováveis. E e isso já vem acontecendo nos países sérios – leia-se, aqueles que pensam no médio e longo prazo, com estratégias e políticas públicas consistentes.  Em 2015, o crescimento das fontes renováveis nos EUA superou o crescimento das fontes fósseis.

Na mesma semana em que o último movimento da Fundação Gates foi anunciado, duas grandes universidade inglesas fizeram anúncios semelhantes: as universidades de Newcastle e de Southampton anunciaram planos de mudar o rumo de seus investimentos, passando a fazê-los através de fundos que, entre outras coisas, respeitem Princípios para Investimentos Responsáveis da ONU.

Para melhor compreender o peso dessas iniciativas, vale lembrar que as grandes universidades inglesas e norte-americanas são basicamente financiadas através de endowements, isto é, doações feitas ao longo de suas histórias por instituições e pessoas.  Essas doações são intocáveis e as universidade são sustentadas pelos rendimentos de suas aplicações, feitas através de empresas de gestão de recursos financeiros.

Um dos aspectos curiosos desse tipo de movimento – o desinvestimento no setor do petróleo – é o fato de ter sido originalmente lançado pelo jornal diário com a melhor cobertura de temas ambientais do mundo, o The Guardian, que há já bastante tempo iniciou uma campanha denominada “Mantenha-o no solo” (ou no subsolo), referindo-se ao petróleo.  A página da campanha sempre é muito interessante, com notícias sobre os avanços na área de energias renováveis e das iniciativas de desinvestimento em atividades que exploram combustíveis fósseis.

Desde então, grandes fundos de pensão vêm retirando os seus investimentos da área de combustíveis fósseis em muitos países altamente desenvolvidos, culminando com a aprovação de uma lei, na Califórnia, impondo esse tipo de decisão ao maior fundo de pensão do mundo.  Os congressistas do estado concluíram que seria muito arriscado para os aposentados se os seus fundos de pensão mantivessem recursos financeiros nessa área.

Movimentos defendendo o desinvestimento têm se espalhado por vários estados norte-americanos, assim como universidades inglesas e outros países.

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Em meio a essas variadas iniciativas e avanços, vale um questionamento sobre o que está fazendo o Brasil?  Considerados os diferentes custos de extração do petróleo, é difícil compreender que alguém ainda aposte no pré-sal, exceto às expensas do bolso dos brasileiros, dos imensos prejuízos à economia do país, e de um nacionalismo de algibeira.

De fato, os investimentos de capital para extração de petróleo em terra e no mar variam imensamente, indo de US$ 3 até US$ 40 milhões para o primeiro caso (em terra) e valores 15 a 20 vezes maior para o petróleo off-shore.  As plataformas mais baratas para extração de petróleo em alto mar custam em torno de US$ 200 milhões, enquanto a decisão da Petrobras de parar de alugar plataformas e fabricar as suas próprias elevou o preço das suas, em 2015, para US$ 900 milhões.

Não é hora de uma mudança de rumos, arquivando ideologias auto-denominadas “de esquerda”?

 

O Brasil perdeu a oportunidade de tornar-se uma “sociedade de conhecimento”

“Foi o conhecimento que nos tirou das cavernas, e só o conhecimento nos tirará da atual confusão em que nos encontramos” – se não foram exatamente essas, foram próximas as palavras do presidente da Agência Espacial Européia ao final do bem sucedido pouso num asteroide, em 2014.

Evidentemente, nem todo conhecimento ocorre no quadro da ciência e da tecnologia no senso estrito dessas palavras.  Instituições de Direito, a evolução e a disseminação das noções de Ética, da Estética, o senso de comunidade.

A geração de riqueza material, no entanto, depende bastante umbilicalmente do conhecimento científico e tecnológico, e da capacidade de um grupo, etnia ou, mais modernamente, de uma nação, de organizar, de sistematizar e de utilizar esse tipo de conhecimento.

Construções como a Grande Muralha da China, Machu Pichu, toda a civilização hidráulica cujo centro se encontra em Angkor e por aí afora são exemplos de desenvolvimento científico e tecnológico, bem como de sua organização, disseminação e utilização.

Contemporaneamente, outras nações – e até com tradições muito mais conservadoras – compreenderam a importância da geração de conhecimento e de sua transformação em produtos de interesse do mercado para assegurar a geração de valor econômico e financeiro.  Entre elas, por exemplo, a Coréia do Sul, que há algumas décadas não tinha a mais vaga chance de ser vista como “o país do futuro”, como se dizia do Brasil.

Um dos exemplos mais surpreendentes encontra-se no pequeno país árabe o Qatar – que durante tanto tempo viveu apenas da receita do petróleo e há algum tempo resolveu investir em educação, pesquisa, ciência e tecnologia.  E assim foi criada a Cidade da Educação, em parcerias com dezenas de universidades estrangeiras, algumas dentre mais avançadas do mundo. de forma a criar exatamente uma “sociedade de conhecimento”.

As universidades norte-americanas convidadas para participar da iniciativa não apenas receberam grandes doações como, também, comprometeram-se a disponibilizar de professores – com melhores remunerações – até as estruturas organizacionais e administrativas necessárias para uma educação à altura daquela que essas instituições oferecem nos EUA.

Como se não bastasse, já há algum tempo que os os Emirados Árabes fecharam um acordo com o MIT para implantar o Instituto Masdar de Ciência e Tecnologia, focado em energias renováveis/novas energias e em eficiência energética.

Assim se constrói um futuro e se adiciona valor – numa época em que o petróleo perde valor.  Com uma boa noção de futuro, de estratégias, das parcerias necessárias, e investimento pesado em educação de excelente qualidade, com tudo o que ela requer no que se refere à gestão dos conhecimentos.

 

Concessionária é proibida de cobrar pela coleta de esgotos sem uma destinação adequada

Por unanimidade, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro proibiu a concessionária do governo do estado – a “Nova” Cedae – de cobrar pelos serviços de coleta de esgotos quando não houver tratamento ou destinação adequada.

Trata-se de uma grande reviravolta no entendimento dos desembargadores – para melhor, para muito melhor.  Resta saber, agora, se não mudarão de opinião – como já ocorreu anteriormente – e, na sequência, o que entenderão por “destinação adequada”.

De fato, as concessionárias dos serviços de água e esgotos encontram-se, em todo o Brasil, entre os maiores agentes poluidores dos recursos hídricos.  Por descaso, sobretudo, e não por mera escassez de recursos, já que as estações de tratamento de esgotos representam apenas uma pequena fração do valor total de um sistema de coleta e tratamento.

Todos sabem que são concessionárias pessimamente administradas sob todos os aspectos e que os órgãos de meio ambiente não têm sequer vestígios de poder sobre elas, que têm linha direta com o poder político em função das muitas e generosas oportunidades de negócios escusos que ainda representam (há exceções, é claro, sobretudo num ou noutro serviço autônomo municipal, mas isso é tudo).  Mas a obsessão dessas concessionárias pelo atraso tecnológico, pela falta de transparência, pelo descaso com o meio ambiente e com a coisa pública é não apenas injustificável como, também, inaceitável.

Haverá desdobramentos dessa decisão?  O lançamento de esgotos sem qualquer tratamento no mar, por emissário submarino, será considerado uma “destinação adequada” (ao contrário do que acontece nos países avançados e sérios)?  Manter as aparências de que uma estação de tratamento está em operação – como é o caso da estação da Barra da Tijuca – será possível ou serão exigidas auditorias externas e transparência sobre a qualidade dos esgotos “tratados”?

A decisão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro é válida para o caso específico ou se estenderá a todas as empresas – públicas e privadas – e serviços municipais que prestam esse tipo de serviço?

A decisão unânime dos desembargadores do TJRJ pode se transformar num importante passo inicial de uma grande transformação ou em letra morta.

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Sugere-se à imprensa que faça “inspeções” com drones na Estação de Tratamento da Barra da Tijuca para verificar se algum equipamento eletro-mecânico relevante – isto é, excetuadas as grades de contenção de sólidos grosseiros – encontra-se em operação!

A falta absoluta de transparência das concessionárias brasileiras do setor quanto a índices de perdas, vazão e eficiência das estações de tratamento,  vazões e características físico-químicas dos efluentes finais – inclusive daqueles lançados no mar sem qualquer tratamento, idade/depreciação/obsolescência das redes de abastecimento e coleta de esgotos, planos de investimento e por aí afora, é incompatível com um mínimo de seriedade na gestão de uma empresa pública e contribuiu de maneira decisiva para que ela não alcançasse a meta de ser listada em bolsa, o grande marketing papo furado da administração passada.

 

 

Expande-se Rapidamente a Geração Elétrica Termo-Solar, com Estocagem de Energia

A primeira “torre solar” do mundo – com 19,9 MW de capacidade instalada – entrou em operação em maio de 2011, na Espanha.  “E o futuro é tão impressionante que o brilho do coração dessa torre de 140 metros de altura pode ser visto da cidade de Córdoba, a 80 km de distância” – afirma um artigo da revista RenewEconomy intitulado “É tempo de brilhar para a geração solar 24 horas por dia” (http://reneweconomy.com.au/2016/70398, um link que não permite a transferência sem que seja incluído o artigo inteiro, em inglês, neste post).

Imagens e um curto vídeo podem ser vistos na página da empresa Torresol Energy, que aperfeiçoou a tecnologia em parceria com o Instituto Masdar, resultado de gigantescos investimentos dos Emirados Árabes Unidos em educação superior, ciência e tecnologia.

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A central solar espanhola, que recebeu o nome de Gemasolar, é constituída de 2.650 espelhos – helióstatos -, distribuídos numa área de 185 hectares.  Esses refletores dirigem a solar para a parte mais alta da torre elevando a temperatura de tanques de sal liquefeito a mais de 500° C e o acúmulo do excedente de energia para abastecer a rede de eletricidade por até 15 horas sem nenhum sol.

Germasol foi a primeira central solar do mundo a fornecer energia a partir dessa fonte 24 horas por dia, ininterruptamente, com um recorde de 36 dias seguidos.

“Mesmo a conservadora Agência Nacional de Energia, por exemplo, afirma que a geração térmica solar (que inclui o sistema da torre solar e estocagem de energia sob a forma de calor) pode chegar a ser responsável pela geração de 12% de toda a energia do mundo até 2040” – afirma o mesmo artigo da revista australiana RenewEconomy.

Mais de 60 centrais termo-solares já se encontram em operação no mundo – ainda que algumas poucas sob a forma de protótipos, para assegurar o domínio da tecnologia -. com uma capacidade instalada total de 4.486 MW.  Vinte oito outras encontram-se em fase de implantação, sendo a maior delas a de Miraah, em Oman, que deverá entrar em operação em 2017, com capacidade instalada superior a 1.000 MW.

Essa tecnologia vem sendo desenvolvida ao longo dos últimos 25 anos, pelo menos.  Hoje, o preço dessa fonte de energia já é menor do que o da energia nuclear e aproxima-se do preço de fontes como gás e carvão.

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E o Brasil não consegue parar e abandonar Angra III, que já consumiu mais de R$ 9 bilhões, com obras paralisadas durante longos períodos – desde 1986 até 2010 -, e agora com previsão de início de operações adiadas novamente.  Já começará a opera obsoleta!  Como dizia Nelson Rodrigues, “amo a burrice porque ela é eterna”.

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Belas imagens e uma boa descrição da planta solar Gemasolar podem ser vistas no vídeo abaixo.