Hidrelétricas – Energia Renovável ou "Eterna"?

O Brasil se orgulha – muito justamente – por ter o seu abastecimento de energia elétrica quase totalmente assegurado por hidrelétricas – que geram cerca de 95% de toda a eletricidade produzida no país. Mas as pessoas tendem a confundir “renovável” com “eterno” ou algo similar – como se não existissem riscos de desaparecimento desses recursos em decorrência da atuação humana e da incompetência associada ao descaso na gestão da chamada “coisa pública”.

Nas últimas décadas, lagoas secaram (mesmo no sertão da Bahia, onde eram mais valiosas), centenas de nascentes desapareceram (em especial com o avanço da soja no Cerrado), e terras agrícolas deixaram de ser férteis. As hidrelétricas correm o mesmo risco, em virtude do assoreamento de seus reservatórios, decorrência da remoção das matas ciliares – isto é, das matas situadas à s margens dos rios e lagoas – e do consequente avanço dos processos erosivos.

Pode-se percorrer o rio São Francisco ou o Paraíba do Sul e observar esses processos de “desbarrancamento das margens” ao longo de todo o rio. Para isso, não é necessária nenhuma “formação técnica. Basta o olhar e o bom senso! Da mesma forma, pode-se visitar Sobradinho, um dos reservatórios ao longo do rio São Francisco, ou Funil, no rio Paraíba do Sul. Ambos encontram-se em estado lastimável, e é escassa ou mesmo inexistente a mata ciliar no seu entorno.

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Estudos realizados por pesquisadores num trecho do reservatório de Funil com base em imagens de satélite e modelos matemáticos demonstraram uma perda de 22,4% em sua capacidade de armazenamento de água no período entre 1962 e 1995. Desde então, essa taxa só pode ter aumentado.

“São críticos os problemas de assoreamento dos reservatórios de Funil e do sistema Light, que captam água para o abastecimento de 70% da região metropolitana do Rio de Janeiro, afetando diretamente cerca de 8 milhões de pessoas. A estimativa é que sejam descarregadas 588 toneladas por quilômetro quadrado, anualmente, nesse trecho da bacia hidrográfica, um volume entre 10 e 20 vezes maior do que a média do restante da bacia” (CEIVAAP, 2002).

As faixas margnais de proteção ao longo dos rios não está demarcada fisicamente (se é que já foi demarcada em plantas), a ocupação das margens dos rios é mais do que evidente – é gritante, caótica – e cresce, a indiferença dos órgãos públicos federais, estaduais e municipais é escandalosa. Aliás, a mera inexistência de demarcação física, clara, em campo, já é uma obscenidade em termos de administração dos recursos ambientais.

A medição das taxas de sedimentação dos reservatórios pode ser simples e de baixo custo: réguas fixadas ao fundo por meros blocos de concreto e monitoramento periódico dos sólidos em suspensão, com ênfase na comparação entre os períodos de chuvas máximas e os de seca. Outras técnicas, com base em imagens de satélite, permitem a identificação de destamatamentos em áreas muito pequenas – para não falar das muito grandes – em tempo real.

Então, porque as operadoras de hidrelétricas e de outros reservatórios (aqueles para abastecimento público) não realizam esse monitoramento e não asseguram o acesso público à s informações; Por descaso, apenas! Inclusive o descaso das próprias operadoras das hidrelétricas, que nesses tempos de “tudo no curto prazo” não protegem os seus investimentos no longo prazo. Para não falar no descaso dos órgãos públicos de meio ambiente – em todos os niveis e esferas de poder – e das “agências” (brasileiro adora copiar coisa de gringo!) tipo ANEEL e ANA.

O Rio Feio – A Esculhambação na Sinalização de Trânsito

Sempre caminho pela cidade. Mesmo tendo que driblar os infindáveis buracos e desníveis nas calçadas que nos obrigam a olhar para o chão – o que não ocorre nas cidades dos países sérios -, observo atônito as feiúras arquitetônicas e os numerosos absurdos oriundos da má gestão da cidade. Assim, veio-me à idéia da série “o Rio feio”. Nasci e fui criado no Rio e adoro a cidade, o estilo carioca, a espantosa beleza natural, o fenomenal encontro entre a montanha e o mar, que se estende até à s ilhas. Mas há que se falar sobre o caos urbano que prejudica muito a qualidade de vida.

Andei fazendo algumas fotos com uma câmara digital comum, dessas que vendem que nem banana e de onde saem fotos sem nenhuma qualidade, simplesmente porque não têm lentes. Então, procurei Zeca Linhares e sugeri o tema. Falamos, entre outras coisas, da sinalização de trânsito e das paisagens que o Rio de Janeiro vem perdendo! Saímos juntos para fotografar uma única vez. E logo vimos uma fenomenal quantidade de verdadeira “ofensas ao pudor”, resultantes de uma administração pública indecente.

Zeca Linhares, mestre do olhar e da fotografia, que inicialmente resistiu a fotografar o feio, mas acabou me dando a alegria da sua companhia. Estamos apenas iniciando a série. Às vezes, cada um faz as suas próprias fotos, em outras ocasiões, observamos a cidade juntos. E uma das coisas que imediatamente chamou a nossa atenção é a bagunça na sinalização de trânsito.

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A foto é divertida. E o pior é que a gente se acostuma com essas coisas. E aí, quem viaja para o exterior volta sem entender muito bem por que razão achou tudo tão bonito.

A boa sinalização de trânsito facilita o fluxo de trânsito, diminuindo os engarrafamentos e reduzindo o número de acidentes. Aqui, sempre fiquei impressionado com a insuficiência da sinalização e, o que é pior, com as informações sobre a direção a ser tomada colocada DEPOIS da bifurcação.

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E esses caras que se dizem “administradores públicos” ainda têm a coragem de multar os motoristas. Não seria mais o caso de serem processados pelos cidadãos, por descaso e mesmo por acidentes de trânsito. Suponho que a (ir)responsabilidade seja da Companhia de Engenharia de Trânsito da Prefeitura do Rio, que sabe multar e espalhar cobradores para que se possa estacionar nas ruas, ou colocar guardas na esquina olhando os sinais abrirem e fecharem. Um dia desses os japoneses inventam o sinal (semáforo) com apito e eles ficam sem emprego. Só rindo.

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O Rio Feio – A Grande Gambiarra Urbana

O Rio de Janeiro tem o céu mais bonito do mundo! Esse foi o resultado de uma pesquisa feita ao longo de anos, em cidades de muitos países, com base na percepção que os residentes e visitantes têm de várias características do céu – cor, luminosidade, transparência.

Agora, fica uma pergunta: quem enfeia mais a vista que o carioca pode ter do céu da cidade? A Light ou a Rio Luz?

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A foto acima foi tirada na Avenida das Américas, na Barra da Tijuca, um bairro considerado “nobre” e certamente um dos mais modernos da cidade! Ela não representa uma exceção, mais uma regra! Mesmo no canteiro central, onde a fiação dos postes de iluminação é subterrânea, há um sem número de postes abandonados, com ou sem transformadores, em muitos casos com a fiação dependurada que evidencia ser tudo uma grande gambiarra.

Para não falar no fato de que o canteiro central e mesmo os terrenos privados onde não há construções se enchem de gigantescos luminosos que fazem os motoristas se sentirem “abduzidos” pela publicidade que os distrai e talvez aumente o número de acidentes. Há, certamente, mais luminosos de publicidade do que sinalização de trânsito.

A sujeira da Light e/ou da Rio Luz – a Companhia Municipal de Energia e Iluminação – não termina aí! Vai até as calçadas, como se pode ver na foto abaixo. Gambiarra total!

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De uma “instalação elétrica” desse tipo certamente decorrem muitas perdas, seja como conseguência dos famosos gatos – mas aí seriam gatos de ricos – ou dos fios mal conectados, desencapados, ou simplesmente abandonados, por onde a eletricidade se vai numa sangria desatada.

Eles enfeiam a cidade, desperdiçam eletricidade, e depois colocam toda a “culpa” nos gatos das favelas para conseguir melhores reajustes de tarifas na ANEEL. Quem sabe há gatos nas grandes obras de prédios e condomínios ricos, gatos para as imensas e horrorosas publidades luminosas, gatos, gatilhos, e uma infinidade de gambiarras. Pode?

Ah – vale dizer que boa parte dessa “esculhambação” foi feita pela EDF – Elétricite de France, uma estatal francesa que comprou a Light com dinheiro do BNDES durante as privatizações ocorridas na dinastia FHC. Na França, é claro, a EDF não emporcalha a paisagem!

Deputados Retrógrados e a Deterioração da Qualidade de Vida

Noel de Carvalho, deputado estadual no Rio de Janeiro, foi autor da mais danosa lei CONTRA a proteção ambiental já aprovada no Brasil. Atendendo aos interesses do Palácio Guanabara e da CEDAE, Noel apresentou projeto de lei que aniquilou um preceito introduzido na Constituição do Estado de 1989: a proibição de lançamento de esgotos sem tratamento prévio.

Esse artigo do capítulo de meio ambiente da Constituição remeteu a definição do nível de tratamento à lei ordinária, que foi aprovada alguns anos depois, exigindo o que a engenharia sanitária convencionou denominar “tratamento secundário”. O tratamento secundário usualmente atinge a remoção de 95-98% da matéria orgânica presente nos esgotos municipais (cocô), além da quase totalidade de material flutuante do tipo óleos (inclusive de fritura) e graxas.

Numa única penada, Noel de Carvalho – ainda hoje deputado – conseguiu redefinir tudo o que já foi usado como jargão técnico nos livros de engenharia sanitária e reduziu o tratamento à mera remoção de sólidos grosseiros, feita normalmente através de uma simples grade que retem objetos maiores como OBs e similares. O projeto-canalha foi aprovado por uma Assembléia emudecida, burra, incompetente, venal, submissa ao Executivo, sob o olhar indiferente e contando com o “apoio do silêncio” até mesmo dos deputados “verdes”. Não recebeu quase nenhum destaque na imprensa.

O “projeto-canalha” têve origem no desejo do Palácio Guanabara e/ou da CEDAE de inaugurar o sistema de esgotamento sanitário da Barra da Tijuca e Jacarepaguá ainda durante a campanha eleitoral. Como foram feitas apenas as obras civis da estação de tratamento de esgotos – ETE da região, sem previsão de compra ou de instalação dos equipamentos eletro-mecânicos, o que fazer: muda-se a lei de interesse público para adaptá-la ao calendário eleitoral. E assim poderia ser iniciado o lançamento de esgotos sem tratamento no mar da Barra!

Inicialmente, porque a implantação da parte de construção civil sem a posterior operação da estação de tratamento pode comprometer boa parte dessas obras. E isso já aconteceu em São Paulo, onde estruturas de concreto expostas ao sol quando haviam sido projetadas para estarem submersas terminaram rachando.

A incompetência já crônica e notória da CEDAE não se limitou a essa impostura. Já havia sido demonstrada quando durante a implantação do emissário submarino a empreiteira defrontou-se com uma “laje de pedra” que não havia sido detectada na fase de projeto. Ora, que engenharia é essa que não faz uma sondagem geológica na área onde pretende implantar um emissário submarino? Ou teria a laje de pedra sido identificada e a informação suprimida? O fato é que tornou-se necessário contratar uma firme para “limpar a área”, e esse é um tipo de obra usualmente contratado sem concorrência, sob a falsa justificativa da “emergência”, quando na verdade deveria mesmo é resultar em processo administrativo por incompetência no exercício da profissão da engenharia. Mas, de que serve o CREA?

Diz-se que erro semelhante foi feito na colocação dos troncos coletores de esgoto ao longo da avenida Ayrton Senna. Sem as sondagens geológicas, os troncos foram assentados sobre solo “mole”, incapaz de manter a sua estabilidade, e depois “recolocados”. Ninguém foi investigado ou punido. E o preço final das obras se eleva inutilmente.

Esses assuntos deveriam ser investigados pela abúlica Câmara Comunitária da Barra da Tijuca, pelo apático Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura – CREA, pelo Tribunal de Contas do Estado – TCE e pela área encarregada da fiscalizara a gestão pública do Ministério Público.

Há, nisso tudo, muita podridão e mau cheiro. Mas um bom passo a ser dado, nessa época eleitoral, seria mandar Noel de Carvalho de volta para Rezende. São tipos de corrupção diferentes, mas esse tipo de corrupção moral e “intelectual” certamente é uma das piores e das que mais oneram os cofres públicos.

Ah – Vale lembrar que a leviandade técnica da CEDAE sempre achou que o mar era uma “estação de tratamento de esgotos natural”. É claro que assim nunca teremos aqui um mar limpo. Só através do emissário submarino de Ipanema são lançadas diariamente cerca de 30 toneladas de gorduras e detergentes. Fora o cocô.

A Lagoa Rodrigo de Freitas – Soluções Insuficientes

A questão do lançamento de esgotos na lagoa Rodrigo de Freitas se arrasta há pelos menos 20 anos, quando a FEEMA multou a CEDAE pela primeira – e única? – vez como decorrência da poluição causada pelos esgotos, que era visível (sem necessidades laboratorieis)! Não se discutia as tais ligações “clandestinas” de esgotos na rede de águas pluviais, mas a mera falta de manutenção preventiva das estações de bombeamento instaladas no sistema coletor que circunda a lagoa. Paralisadas, essas estações faziam que o esgoto bruto fosse lançado por dias ou mesmo semanas nas águas da lagoa.

Ligações “clandestinas” são de fácil detecção, até mesmo com o uso de simples corantes ou “traçadores” nas saídas de esgotos das edificações em dias sem chuva. Em tempo seco, até mesmo a observação visual das saídas das redes de águas pluviais que desembocam na lagoa permite ver se há lançamento de esgotos.

Mas em tempo seco é possível observar, também, o lançamento de águas residuais na lagoa, muitas vezes proveniente da mera lavagem de calçadas ou de veículos, quando a água escorre para as “bocas de lôbo” situadas nas ruas e nas garagens das edificações situaas em toda a bacia drenante. Nessa caso, a água também contem coliformes fecais, óleos, graxas e outros poluentes, frequentemente em cargas tão elevadas quanto os esgotos domésticos.

Isso para não falar dos dias de chuva, quando a água que escorre superficialmente lava as ruas e é lançada na lagoa – ou melhor, nas lagoas -, com altíssimas cargas poluentes. Esse tipo de carga poluente já foi exaustivamente estudada nos países sérios, que em muitos casos adotaram sistemas de reservação ao longo da rede ou das galerias de água pluvial. Como a água de escorrimento superficial carrega a quase totalidade da carga poluente depositada nas ruas ao longo dos primeiros 20 minutos de chuvas máximas (dependendento do grau de urbanização), esses “tanques-pulmão” retêm esse volume de água, enquanto o excedente é então lançado nos corpos d’água. A água assim retida infiltra-se no solo ao longo dos dias subsequentes – procedendo-se, periodicamente, à limpeza dos tanques de retenção – ou é enviada para estações de tratamento de esgotos.

Durante um curto período, um secretário de estado de meio ambiente falou na construção de um “cinturão” em torno da lagoa para realizar a coleta das águas pluviais e seu lançamento no emissário submarino de Ipanema (onde é lançado, sem qualquer tratamento, todo o esgoto coletado desde a Glória até o Leblon). Trata-se de transferir a poluição de um local para o outro. E mal assessorado por engenheiros hidráulicos que não pensaram na possibilidade de coletar apenas o volume de água correspondente aos primeiros 15-20 minutos de chuvas máximas, o projeto foi abandonado em função dos diâmetros das tubulações que seriam necessários para conduzir toda a chuva para o emissário. Felizmente, já que com essa solução a água do mar ao longo dessa orla ficaria ainda mais suja.

Um trabalho sério pode e deve, então, começar pela medição das vazões e da qualidade da água lançada na lagoa em tempo seco e em dias de chuva média ou forte. Isso permitiria a clara identificação das responsabilidades da prefeitura, que finge desconhecer ou realmente desconhece a enorme carga poluidora da água proveniente da lavagem das ruas em dias de chuva.