Secas Cíclicas – Instrumentos de Acompanhamento do Teor de Umidade nos Solos e de Reservas Subterrâneas de Água

Um instrumento de avaliação de secas persistentes está sendo desenvolvido pela NASA e já mostra os seus primeiros resultados.  Imagens de satélite acopladas à modelos de análise física permitem avaliar as condições de umidade na parte mais superficial dos solos – 2 centímetros -, na profundidade das raízes das plantas – até 1 metro de profundidade – e os volumes de águas subterrâneas utilizadas para abastecimento público e irrigação.  Essas imagens e cálculos permitiram comparar as condições encontradas na seca de 2012 – que reduziu de forma significativa a produção agrícola do país – com as informações disponíveis desde 1948.

As imagens permitiram afirmar que o  teor de umidade e nos solos e de águas no subsolo permanecem bastante reduzidas.  A seca recente foi e continua sendo maior do que a média esperada para cada ciclo de 50 anos, em diversas regiões do país.  A primeira dessas imagens mostra o teor de umidade superficial nos solos, o segundo na profundidade das raízes das plantas, e o terceiro nos aquíferos subterrâneos.

Uma animação mostrando a situação dos aquíferos subterrâneos no período 2002-2012 também foi disponibilizada pelo Centro Nacional de Mitigação de Secas dos EUA, que trabalha em coordenação com o Departamento de Agricultura para disponibilizar informações emergenciais para os produtores rurais.

A seca que afetou a produção agrícola norte-americana em 2012 – o ano mais quente desde que se iniciaram os registros de temperatura no país, em 1895 – resultará, segundo previsões do governo norte-americano, num aumento de 4 a 5% no índice de preços aos consumidores.  Os impactos já se fazem sentir na produção de carne bovina, frangos e suínos.  A seca afetou, também, a infraestrutura de navegação fluvial no rio Mississippi, de rodovias no estado do Texas, de sistemas de refrigeração no Illinois, e em outras áreas.  Os prejuízos estimados para a produção agrícola foram de ordem de US$ 1 trilhão.  Só os executivos da trading Glencore comemoraram a expectativa lucros.

Certamente, um exemplo a ser seguido pelas autoridades brasileiras encarregadas da agricultura, e da pesquisa científica na previsão do tempo e do clima, da segurança alimentar e do conjunto da economia.

 

 

 

 

 

Tornados, Inundações, Previsões do Tempo – Mais Improviso e Menos Ciência ou Vice-Versa?

Enquanto chuvas torrenciais provocam grandes deslizamentos de terreno nas serras do Rio e cobrem casas em amplos territórios planos na Austrália, além de causar uma devastação em quase uma centena de municípios de Minas Gerais e em diversas localidades de São Paulo, alguns “ativistas” se aproveitam da desgraça alheia para insistir na tolice de que as mudanças no Código Florestal trarão o apocalipse (ainda que nada exista de similar no mundo) ou um fenomenal aumento das emissões de carbono (mas nada falam do pré-sal, porque não ficariam bem na fita).

Talvez devessem propor que se acrescente ao Código alguns dispositivos contra tornados, também, já que um atingiu bairros do Rio de Janeiro e municípios da região metropolitana, como se pode ver  aqui.  Mas, como a destruição não foi muita, o assunto não capturou a atenção da imprensa, exceto por uma sintética mais objetiva declaração do sub-comandante da Defesa Civil: os radares da prefeitura que deveriam captar esse fenômeno, não o registraram.  Um jornal dedicou ao fenômeno – ocorrido pela primeira vez no Rio – um pequeno espaço abaixo da badalação das novas sirenes no Morro do Alemão.  Nele, o curto depoimento de Thamires, de 14 anos, que “ficou bastante machucada”:

“Posso dizer que eu vooei.  A minha sorte foi ter me segurado num poste, para não ser arremessada mais vezes.  Vi um monte de coisas voando: janela, árvore, cachorro e até televisão – disse a adolescente assustada.”

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE, que está ligado ao ministério agora ocupado pelos bigodes de Mercadante – um ás da ciência e da tecnologia -,  permanece em silêncio ou nem foi consultado.  Ou foi proibido de falar sem consultar os marqueteiros do governo.

Neste período, talvez valha dar um pouco de atenção ao gráfico abaixo, divulgado há poucos dias pela NASA sob o título Anomalias das Temperaturas Anuais Ajustadas.

NASA.adjusted_annual_temperature_anomalies

Nele, a NASA compara os dados de medições de temperaturas de quatro grandes centros de referência em meteorologia: o Instituto Goddard para Estudos Espaciais da própria NASA, o Centro Nacional de Dados Climáticos – NOAA (cuja página na internet vale visitar, ainda que rapidamente, em www.ncdc.noaa.gov, para se ter uma idéia do “tamanho do bicho”), a Unidade de Mudanças Climáticas do Met Office da Inglaterra (www.metoffice.gov.uk) e a Agência Meteorológica do Japão (www.jma.go.jp).

Sempre é possível que apareça algum cientista de Bangu sur Mér ou de Teresina Heights que discorde.  Mas que é hora do bigode chamar o INPE – onde estão os mais notáveis profissionais brasileiros na área de meteorologia e mudanças climáticas – para dar dizer, publicamente, o que pensam, ah, isto não seria nada mal.  Juntamente com a turma do Serviço Meteorológico da Diretoria de Hidrografia e Navegação da Marinha do Brasil (www.mar.mil.br/dhn/chm/meteo/index.htm), talvez se possa ter pelo menos o melhor “desenho” dos equipamentos a serem adquiridos e dos sistemas a serem implantados, e menos improvisos midiáticos.

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Há anos – desde um extenso relatório do INPE sobre mudanças climáticas e seus impactos no território brasileiro – o poder público, em todos os níveis, já deveria ter sido iniciada a elaboração de um plano de adaptação às mudanças climáticas, incluindo segurança alimentar e energética, em lugar de deixar a gestão do território ao sabor das conveniências formais dos órgãos ambientais.   Talvez porque o impacto das mudanças climáticas sobre a segurança nacional não caibam no calendário eleitoral. 

Recomenda-se, aqui, a releitura do artigo do blog que tem no título as palavras Realpolitik Ambiental.

Eventos Climáticos Extremos X “Áreas de Risco”

 “No Brasil, a construção em áreas de risco é mais a norma do que a exceção”.  Crítica velada ao governo Lula que só lançou um programa habitacional ao final de seu segundo mandato ou frase feita, de algibeira, soprada no caminho das serras do Rio de Janeiro?  A imprensa foi muito mais sensata ao falar em “eventos climáticos extremos” – sem qualquer referência ás mudanças climáticas que se tornaram uma constante nos debates intrnacionais sobre meio ambiente.

Numa outra notícia, informa-se que a casa do sítio que inspirou Tom Jobim a compor Águas de Março foi destruida pelas chuvas.  Ela certamente não estavam em “área de risco”.  Como não estavam em “áreas de risco” a antiga e lindíssima estrada Teresópolis-Friburgo, muitos condomínios de luxo, edifícios no centro das cidades e por aí afora.  Essa tentativa de cafetinar catástrofes naturais só merece o mais total desprezo.

Se deixar por conta dessa turma, Pompéia e Herculano estavam em “áreas de risco” e a culpa de tudo foi dos grego-romanos que ali construíram as belíssimas cidades (que, diga-se de passagem, já tinham coleta de esgoto). 

A redução do risco nas construções em encostas é feita com geologia, com engenharia estrutural, com muros de contenção, e não com parolagem.  Há construção em encostas em toda a Europa e nos EUA, sem que isso impliquei em deslizamentos por terem sido usados bons recursos de engenharia – aqui, quem comanda são empreiteiras que cobram por metro cúbico do cimento que ninguém mede – e o estado da arte na construção civil.

Para evitar o uso ambientalóide de mais um evento climático extremo, vale observar imagens da Austrália destes últimos dias.  Lá não existem construções em “áreas de risco” e a devastação das inundações atingiu uma área equivalente à soma dos territorios da Inglaterra e da Alemanha.  Com bom senso, a primeira-ministra australiana limitou-se a dizer que os esforços necessários para reconstruir o país serão equivalents àqueles utilizados no pós-guerra.  E voltou ao trabalho!

O lero-lero das autorifdades públicas – que, do nada, falam em buscar R$ 1 bilhão no Banco Mundial – vale consultar a página da Confederação Nacional dos Municípios – CMN que o governo gasta 10 vezes mais em resposta aos desastres naturais do que em prevenção.