Sobre sonhos, ciência & tecnologia, desenvolvimento econômico

O conhecimento aplicado ou mesmo a mera compreensão dos fatos sempre estiveram entre os principais fatores de unidade social e avanço econômico.  Isso valeu até mesmo para a invenção da roda, o domínio sobre o fogo, a utilização da pólvora para fins bélicos e por aí afora.

Ao final da II Guerra Mundial, as tropas vitoriosas, tanto norte-americanas quanto soviéticas, procuravam por Wernher von Braun e sua equipe.  O inventor das “bombas voadoras” – que trabalhara para Hitler – terminou transferido para os EUA.  Em 1950, já liderava as equipes que desenvolviam foguetes militares e, em 1960, tornou-se o diretor do principal centro espacial da NASA, criada dois anos antes.  Há muito von Braun tinha o sonho de sair da órbita da Terra.

Desde então, a NASA é uma referência mundial em tecnologia espacial.  Mas, além da colocação de satélites de comunicação, de espionagem e de monitoramento de fenômenos de interesse humano – como tempestades e furacões – ou puramente científicos, de que serve a NASA?

Serve para manter vivo o sonho unificador de ser a primeira nação a viajar até a Lua e, mais recentemente, planetas distantes.  O que usualmente não se diz é que a NASA é talvez o mais importante instrumento norte-americano de organização da ciência e da tecnologia do país, com impactos fortíssimos sobre a economia dos EUA, conferindo-lhe razoáveis vantagens competitivas.

Apenas como exemplo, periodicamente a NASA anuncia que está disponibilizando patentes com potencial interesse comercial.  No último anúncio, foram nadas menos do que 56 patentes disponibilizadas para usos comerciais.  Na verdade, a NASA joga limpo e há muito tempo disponibiliza patentes que não são mais de seu interesse através de uma página na internet que tem como apelo a expressão “trazendo a tecnologia da NASA de volta à Terra”.

O chefe do Programa de Tecnologia da NASA, Daniel Lockney, afirma sem hesitações:

“Disponibilizando essas tecnologias para o domínio público, estamos ajudando a impulsionar uma nova era de empreendedorismo que vai novamente colocar a América na liderança da manufatura de produtos de alta tecnologia e de competitividade econômica.”

Isso talvez valha para abrir a mente de Henrique Meirelles, que acha que a economia é só uma questão de volume de trocas e de equilíbrio entre a coluna da direita e a coluna da esquerda.  Parafraseando a equipe da primeira campanha presidencial de Clinton que adotou o lema “é a economia, seu idiota”, há que lembrar ás autoridades econômicas brasileiras: é o conhecimento científico e tecnológico, seus otários.

O Brasil não vai sair de seu atual atoleiro político só produzindo commodities de baixo valor agregado.  E mais: de nada adianta termos reservas de Lítio e Nióbio se exportamos esses minerais raros em estado bruto, como ainda fazemos com o Silício, exportado em “grau siderúrgico” (pouco beneficiamento) e importado já incorporado a produtos finais por um preço cerca de 50 vezes mais elevado (sem falar na geração de empregos nos países que detém a tecnologia para o beneficiamento e para a sua incorporação – por exemplo – em células fotovoltaicas.

Basta lembrar que há cerca de 30 anos os produtos chineses e coreanos eram considerados de qualidade muito inferior e hoje já estão no topo da cadeia tecnológica… e tentar repetir em algumas dimensões a experiência desses países.

Além de acordos políticos, o Brasil precisa voltar a ter algum sonho de unificação nacional, algo voltado para o futuro e não limitado à cordialidade, ao “jeitinho brasileiro” e às riquezas que permitiam alguma unidade enquanto “deitado eternamente em berço esplêndido”.

 

Poluição Atmosférica nos Grandes Centros Urbanos – Avanços e Atrasos Tecnológicos

Pouco depois de assumir o cargo, o prefeito petista de São Paulo anunciou a desmontagem de uma parte da máfia de medição de emissões de veículos automotores, eliminando a exigência para veículos novos e aumentando o espaço entre as vistorias.  Parabéns para ele e para os paulistanos.  Muito frequentemente, os equipamentos utilizados para essas medições nem funcionam – como é frequente no Rio.  O dinheiro assim economizado poderá ser usado em alguma coisa útil, reduzindo o custo-Brasil que vem aumentando muito com o ambientalismo de algibeira.

No lado sério do mundo, a administração Obama está exigindo uma drástica elevação da eficiência dos veículos automotores, isto é, um significativo aumento das distâncias percorridas com cada litro ou galão de gasolina.

No Brasil, país de atraso tecnológico, não há qualquer indício de exigência de que pelo menos os ônibus urbanos sejam híbridos, ainda que esses veículos já sejam fabricados no país para exportação (entre outros destinos, Chile e México).  As empresas de ônibus não querem, não se interessam, e ponto.

Nos EUA, as montadoras de veículos já testam o uso de novos materiais, mais resistentes e mais leves, lá conhecidos como composites.  O desenvolvimento desses materiais surgiu da pesquisa científica pura, depois aplicada às necessidades da exploração espacial, e daí para a indústria aeroespacial.  Essa aparente maluquice norte-americana sempre gerou, além de conquistas simbólicas, uma grande quantidade de novos materiais.  É uma forma de subsidiar/apoiar a pesquisa científica e aplicada com notáveis resultados comerciais e econômicos.  Os avanços militares, apesar de todo um conjunto de objetivos espúrios – além daqueles denominados de “defesa” – também têm cumprido as mesmas funções: GPS e internet eram segredos militares até que Clinton resolveu liberá-los para utilização comercial.

O Brasil não tem políticas científicas e tecnológicas consistentes.  Na verdade, tampouco tem políticas educacionais consistentes e bem sucedidas, exceto em bolsões isolados (sempre há bolsões isolados), o que impacta negativamente a pesquisa científica pura e aplicada.  E tampouco tem políticas de importação de tecnologias selecionadas consideradas estratégicas, como fez a China.

A redução da poluição atmosférica nas grandes regiões metropolitanas passa muito mais pela adoção de veículos elétricos ou híbridos e, agora, por estratégias claras nas área da incorporação desses novos materiais do que da já antiquada da medição mandatória de gases de escapamento que mais beneficiam as empresas prestadorasa desses serviços do que a saúde pública.  Veículos muito mais leves percorrerão maiores distâncias com menos combustível.

Alguns usos desses materiais podem ser vistos na página de um de seus maiores fabricantes, que resultou de um processo consistente de fusões e de aquisições.

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As autoridades ambientais brasileiras não têm uma política para estimular o uso de veículos elétricos ou híbridos, e ainda se deleitam com o uso do etanol, que compete pela produção de alimentos com terras agrícolas.  Os governos – federal e estaduais – não têm incentivos tributários ou outros, como ocorreu nos países sérios.  E nenhuma cidade brasileira tem uma política consistente de apoio a esses veículos – nem sequer no campo do transporte público.  Nada como ocorreu em Los Angeles e em San Francisco, nos EUA, em que os códigos de obras previram a necessidade de instalações para a recarga de baterias em áreas de estacionamento e até mesmo em edificações comerciais ou pluri-residenciais.