Colapso de Água e de Energia X Soluções Inovadoras

As autoridades públicas brasileiras, em todos os níveis de governo, parecem atordoadas ou perdidas na mesmice diante da crise e riscos de colapso no abastecimento de eletricidade e de água no país (neste caso, com maior ênfase em algumas regiões envolvendo os estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais).

Não deixa de ser divertido ver os ministros da área econômica falando em controle da inflação e em retomada do crescimento como se essas duas crises sequer existissem, ainda que elas tendam a colocar em risco o conjunto da economia e mesmo a colocar em grave risco a ordem pública.  Essas autoridades parecem pensar apenas dentro das caixinhas dos fluxos financeiros, do equilíbrio das contas públicas via aumento nos impostos, do controle do consumo de energia e de água via penalidades tarifárias, e por aí afora.

Mais do mesmo não vai levar o país a lugar nenhum! – exceto, talvez, ao caos e ao colapso.

E se as autoridades setoriais e todos os níveis de poder se unissem, por exemplo, para acelerar a implantação de um programa consistente de micro geração distribuída de eletricidade, com foco na energia fotovoltaica, como fizeram e continuam fazendo vários países cuja ênfase na na segurança energética, não se limitando ao arroz com feijão da geração hidrelétrica ou térmica (incluindo a nuclear, uma excelente opção que países como o Japão não podem mais aceitar e que causa apreensão nos EUA em decorrência da localização em regiões costeiras)?

Não há uma responsabilidade apenas federal na crise de energia.  Estados e municípios podem fazer muito pela geração distribuída, como também na definição de padrões de eficiência energética nas edificações… desde que as autoridades econômicas – em todos os níveis  (mas em particular o ministro Joaquim Levy) –  não achem que os aumentos de tributos devem incidir da maneira indiferenciada sobre, por exemplo, painéis solares e cremes de beleza.

O mesmo raciocínio vale para a crise de água.  E se as mesmas autoridades se unissem para desencadear uma grande ofensiva voltada para o reuso da água em sua plenitude, além da mesmice das multas, elevações de tarifas ou mesmo proibição de alguns usos, como ocorreu em cidades da Califórnia, do Texas, e na Austrália.

Há muita coisa boa a fazer na gestão dos recursos hídricos além de campanhas publicitárias medíocres e de declarações não menos tolas, como a presidente da Copasa ao fazer de conta que uma redução de 30% no consumo na região metropolitana de Belo Horizonte era um passo importante… adiando o colapso no abastecimento de 3 para 4 meses.

No atual quadro de escassez de água, não faz absolutamente nenhum sentido o lançamento de esgotos coletados – tratados ou não – nos oceanos, através de emissários submarinos ou mesmo em rios que simplesmente  desaguam no mar.  Na Alemanha, há décadas, capta-se água dos rios para fazer a recarga dos lençóis freáticos, prática que já vem sendo adotada na Califórnia com a água de estações de tratamento de esgotos (com níveis de tratamento muito superiores aos brasileiros).

É altamente recomendável que todos se unam em torno de propostas e na implementação de soluções em lugar de ficarem tentando obter respostas através das concessionárias de água e esgoto… que não as têm.  Ou apontar o dedinho para o céu e dizer que “tudo depende de São Pedro” ou que “Deus é brasileiro” – cretinamente.

***

Se as autoridades – inclusive as econômicas -, a iniciativa privada (diretamente ou através de suas representações setoriais como  Fiesp, Firjan e Fiemg), as associações de engenheiros e outras quiserem fazer algo de inovador na área de gestão de recursos hídricos sem ter que começar do zero – talvez possam encontrar maneiras de aproveitar a experiência alheia enviando delegações à Conferência de Reuso Comercial e Industrial de Água que ocorrerá nas próximas semanas, no Texas.  E/ou ao XXX Simpósio Anual de Reuso de Água (isso mesmo, 30°, 30 anos consecutivos) que se realizará em Seattle, em setembro.

Vale, também, buscar a cooperação técnica com as associações de reuso de água dos EUA, ou da Alemanha ou da Austrália, ou todas.  Com esse tipo de cooperação, será possível obter importantes subsídios técnicos e normativos.

O que não dá é para continuar pensando apenas em grandes obras, que é o que as concessionárias de serviços de água e governantes sempre gostaram.

Porque são muito grandes as chances de que tenhamos que nos adaptar a uma nova realidade climática, como já estão fazendo esses países que não se recolhem à negação do óbvio – aquilo que todos os grandes centros de meteorologia do mundo estão dizendo há anos, e cada vez mais.

 

 

Água – Agrava-se a Escassez – Avanços e Mesmices

A crise de água se estende a outros municípios de São Paulo.  Agora, estendeu-se de maneira acentuada a Bauru, gerando protestos bastante preocupantes.  Já são 13 os municípios de São Paulo em que está sendo feito o racionamento de água, que se estende, até agora, a 142 municípios no país., desde a região nordeste até o Paraná, além de Porto Velho, capital de Rondônia.  Isso tudo diante da quase total abulia das autoridades públicas em todos os níveis, apesar de muitos bons exemplos da iniciativa privada para contornar os problemas gerados pela escassez de água.  O ataso tecnológico do Brasil na área de reuso é evidente, mas não justificativa para a inação, em particular quando o pretexto é usado pela maior empresa estadual de águas do país.

Além disso, municípios podem e devem tomar muitas iniciativas para incentivar a captação de água de chuva – até mesmo para evitar a sobrecarga das redes de drenagem – e o reúso dessas águas e de muitas outras.  Afinal, o que um município como Bauru, que tem quase 100% de coleta de esgotos e todo o sistema na administração direta – Departamento de Água e Esgoto – e onde se pretendem implantar estações de tratamento de esgoto em parceria com a iniciativa privada, está esperando para incentivar o reúso e para projetar as novas ETEs já com previsão de reúso?

De fato, apenas como exemplo, na Califórnia, que já experimentou secas de até 50 anos – mesmo antes dos atuais extremos climáticos -, o pensamento e as iniciativas avançam em todas as frentes, desde avanços tecnológicos (ainda que seja com a redução de custos de tecnologias já disponíveis, para disseminá-las – até a implantação de projetos variados mesmo que “apenas” usando um elevado nível de tratamento de esgotos domésticos para a recarga do lençol freático.

Em abril deste ano, o Centro para Ciências de Bacias Hidrográficas da Universidade da Califórnia coordenou um concorrido encontro intitulado “Cúpula da Seca“, numa excelente interação entre cientistas, pesquisadores e autoridades públicas.

“Nós não podemos fazer chover, mas estamos fazendo todo o possível para responder à seca”, afirmou Barbara Allen-Diaz, vice-presidente da Universidade da California para agricultura e recursos naturais.  Já a SABESP contratou, por duas vezes, uma empresa para “fazer chover“.

Lá, os cientistas já avançaram na direção da paleontoclimatologia – o estudo do clima no passado remoto – e recuaram no tempo por 1.000 anos.  A análise das taxas de crescimento e vida das árvores os permitiu saber que no século XII ocorreu uma seca que durou 50 anos.

Mas não ficam por aí!  Um dos cientistas do Centro de Ciências de Bacias Hidrográficas da Universidade da California declarou, durante a Cúpula da Seca que “não conseguiremos fazer com que a Califórnia seja à prova de secas e para conviver com elas teremos que conviver com elas e aprender a tirar o máximo de cada gota de chuva”.

A gestão das águas subterrâneas está entre as prioridades.  “A Califórnia deve começar a pensar na recarga dos aquíferos subterrâneos durante os anos chuvosos” – afirmou Ruth Langridge, da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, que está conduzindo estudos sobre a criação de áreas para a recarga desses aquíferos em Sonoma, Monterrey e Santa Cruz.

Na Alemanha, os primeiros sistemas de recarga dos aquíferos subterrâneos começaram a ser projetados logo após a II Guerra Mundial.   Atualmente, já se encontra implantado no município de Orange, na California, um sofisticado sistema desse tipo, conhecido pela sigla GWRS, capaz de abastecer uma população de 600.000 habitantes (para os interessados, vale uma visita à página na internet, clicando sobre a sigla).

A agricultura é a atividade econômica que mais consome água – cerca de 40%, quando considerados os grandes usuários -, mas aí não há mais muito espaço para ganhos de eficiência, já que a maioria dos produtores agrícolas já utilizam sistemas de irrigação por gotejamento.

No Brasil, há muito o que fazer em todas as áreas relacionadas à conservação e ao uso eficiente da água.   O país pode e deve abrir-se mais à experiência internacional e agir em todas as frentes, já que não há uma solução única.

***

Para os mais interessados, recomenda-se visitar com regularidade a página da Associação de Reuso de Águ e de sua Fundação de Pesquisa em Reuso da Água.