Tóquio se prepara para grandes tufões e para a elevação do nível dos mares

Em  1990, Tóquio começou a investir maciçamente em programas de redução de enchentes causadas por tufões e pela elevação do nível do mar (marés altas mais altas e similares).  Nas áreas mais protegidas, novas indústrias se instalaram e a economia floresceu.   Em diversos trechos, essas instalações subterrâneas têm o aspecto de uma catedral ou templo construído na antiguidade.

Alguma similaridade com a Basílica Cisterna construída em 532, em Istambul, durante o Império Bizantino, utilizando 336 colunas procedentes de templos “pagãos”, com capacidade para estocar 30 mil metros cúbicos de água? (foto no topo deste post)

A mais antiga foi construída para estocar água e a de Tóquio para assegurar a drenagem rápida de águas de tufões, com as correspondentes enchentes, assim como com inundações decorrentes das cada vez mais altas marés decorrentes da elevação do nível dos oceanos.  Em Tóquio, os sistemas de bombeamento de água incluem a potência de turbinas de Boeing.

Informações detalhadas desse fenomenal sistema de drenagem podem ser encontradas numa recente reportagem do New York Times intitulada “Tokyo está se preparando para inundações maiores do que qualquer uma jamais vista”: Tóquio se prepara uma um aumento do nível de mar com um gigantesco sistema de escoamento subterrâneo.

Mas uma reportagem da TV Al Jazeera certamente é mais ilustrativa do ponto de vista visual e útil mesmo para os que não falam inglês (as legendas podem ser ativadas).

Vale comparar com cidades brasileiras que, como o Rio de Janeiro, não têm sequer um plano diretor de macro-drenagem que forneçam os parâmetros para o dimensionamento e o encaminhamento correto das redes de coleta de águas de chuvas?

Ciclos de Seca – Califórnia X São Paulo

Monitor da Seca nos EUA” é o nome de uma iniciativa conjunta de diversas instituições norte-americanas, entre as quais a Administração do Espaço e da Atmosfera que, com vários satélites, tem um dos melhores sistemas de previsão do tempo e do clima do país.  O sistema de informações sobre a seca foi criado em 1999 e conta com a participação do Departamento de Agricultura (equivalente ao nível ministerial no Brasil), do Centro Nacional de Mitigação da Seca, com uma galeria de fotos que merece ser vista por aqueles que não querem se aprofundar muito no tema.  Ambas as iniciativas contam com a participação de centros de pesquisa acadêmicos, que hospedam as páginas na internet.  Coisa de país sério.

Há poucos dias, o Monitor da Seca dos EUA mostrou que cerca de 80% do território da California encontra-se em situação de seca severa ou extrema.  O ano passado – 2013 – já havia sido o segundo ano mais seco da Califórnia desde o início dos registros históricos, em 1840.  E as autoridades da área de meteorologia não se atrevem a dizer por quanto tempo a seca pode se prolongar – já que o estado teve períodos extremamente úmidos.

Mas já existe uma nova ciência, a paleoclimatologia, que estuda os ciclos climáticos a partir das rochas, sedimentos, conchas, microfósseis, árvores e outras fontes.  E a professora Lynn Ingram, do Laboratório de Geoquímica Sedimentar e Meio Ambienta da Universidade de Berkeley, afirma que a California nunca esteve tão seca desde 1580 e que o que parece uma situação excepcional pode se tornar numa “nova normal”.  A professora Ingram é coautora do livro “O oeste sem água: o que as enchentes, secas e outras informações climáticas podem nos dizer sobre o futuro“.

“Se você retornar no tempo alguns milhares de anos, verá que as secas podem durar anos, senão décadas, e que ocorreram períodos de seca que duraram cerca de um século, como na Idade Média e no Holoceno” (que na escala geológica do tempo iniciou-se há 11.500 anos e estende-se até o presente).

Para descrever grandes enchentes, Lynn Ingram usa uma linguagem fascinante, como a expressão “rios atmosféricos”: “é quando uma enorme quantidade de umidade vinda dos trópicos atravessa o oceano Pacífico ao longo de milhares de quilômetros até a costa Oeste dos EUA trazendo chuvas equivalentes a – digamos – 10 rios Mississippi.  Durante dois ou três dias as chuvas são extremamente fortes.  Todas as grandes enchentes na Califórnia resultaram desses rios atmosféricos.  A última dessas enchentes – em 1861-1862 – foi realmente imensa e inundou completamente o Vale Central com cerca de 3 metros d’água.  A cidade de Sacramento (capital da California) ficou totalmente debaixo d’água.”

Nos EUA, o Serviço de Observação Geológica coordenou os estudos de 100 cientistas ao longo de dois anos para simular as perdas econômicas na Califórnia em caso de uma nova cheia dessas proporções.  Ao final, denominou o estudo e a correspondente modelagem como ArkStorm e estimou que uma nova cheia como as ocorridas no passado (a última em janeiro de 1969) causaria perdas de cerca de US$ 300 bilhões.

Enquanto isso, no Brasil, quem fala sobre a gravíssima situação do abastecimento d’água em São Paulo é a SABESP.  E trata o assunto como um tema político-eleitoral, fingindo que não há riscos de racionamento, como já ocorre, de maneira severa, na Califórnia.  Não chegam sequer a propor um bom programa de reuso de água pelas indústrias e até mesmo comunidades, bairros, NA-DA.  Só falam no “volume morto” e fazem chamanismos, com bombardeamento de nuvens.

Da mesma forma, a hidrovia Paraná-Tietê tem o tráfego de embarcações interrompido e tudo o que se pensa e afirma é que há necessidade de novas obras e que elas dependem de licenciamento ambiental.   O preço da preço da energia aumenta de maneira imprevisível e nada, nem uma palavra dos serviços do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE ou iniciativa de um trabalho conjunto com o Serviço Meteorológio da Marinha.  Abulia, omissão, ou proibição mesmo de esses órgãos se manifestem (como fez George W. Bush com a NASA no quesito mudanças climáticas)?

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No estado do Rio de Janeiro, anuncia-se o lançamento de um Mapa de Ameaças Naturais, notícia de muitos órgãos de imprensa.  O trabalho, iniciado ao final de julho de 2012, tinha previsão inicial de seis meses para a conclusão.  Ou faltaram recursos ou a opção foi pelo anúncio em tempos de eleição.  De toda forma, é bastante estranho que na página da Secretaria de Estado de Defesa Civil do Rio de Janeiro não conste absolutamente nada sobre o assunto e, é claro, nenhum informação sobre a metodologia utilizada (ainda que fosse a usual observação visual após os acontecimentos).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Extremos Climáticos – Marés Elevadas, Chuvas Torrenciais e Grandes Enchentes na Europa

Enquanto o Brasil é castigado por um calor anormal – pelas altas temperaturas e sua persistência – , regiões da Europa são atingidas por grandes enchentes resultantes de marés anormalmente elevadas e ventos com força próxima a de furacões.

Na Inglaterra, mesmo para os padrões usuais da estação, o inverno está anormalmente marcado por enchentes.  O New York Times relata ocorrências sem precedentes na Inglaterra.  Continuamente, ao longo das últimas 5 semanas, a cidade de Muchelney, no sul do país,  transformou-se numa ilha, com os telhados apenas aparecendo na superfície das águas e o policiamento sendo feito por barcos e os moradores se deslocando em canoas até o topo de uma colina que agora é denominada como “terra firme” (mainland, em inglês).  Esse foi o mês de janeiro de chuvas mais intensas e prolongadas nos registros climáticos da país.

Na verdade, grande parte da Europa está sendo atingida por ventos com força de furacões e elevações anormais das marés, informa a BBC, aqui usada como fonte de informações e de imagens.

Na costa leste da Inglaterra, a tempestade e as fortes ondas derrubaram várias casas, como se pode ver abaixo.

 

Hemsby, costa da Inglaterra

 

 

 

 

 

 

 

 

A elevação atípica das marés e a força dos ventos também castigou Emden, no norte da Alemanha, perto da fronteira com a Holanda.

E erupção da maré castigou Emden no Norte da Alemanhas

 

 

 

 

 

 

 

 

No sul da Suécia, em Helsingborg, a estrada costeira foi totalmente inundada.

Hesingborg, no sul da Suécia, estrada costeira

 

 

 

 

 

 

 

 

Mesmo o porto de Hamburgo teve as suas atividades paralisadas por várias horas, podendo-se ver, abaixo, o seu mercado de peixes.

 

Mercado de Peixes em Hamburgo na Alemanha

 

 

 

 

 

 

 

 

Este verão extremamente quente no Brasil é prenúncio de grandes cheias para as próximas semanas?  Como é mesmo que o Brasil está se preparando para extremos climáticos como esses?  Por que o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE, único órgão brasileiro com qualificações técnicas e profissionais para falar sobre mudanças climáticas, foi retirado do circuito e substituído por acadêmicos que se limitam a pedir estudos adicionais?

Estamos vivendo a situação de fingimento e de que há necessidade de maiore estudos?  Esse lero-lero de proteção das florestas amazônicas não vai salvar o Brasil das mudanças climáticas e nem proteger a sua população, a sua agricultura (segurança alimentar), ou a sua razoável  auto-suficiência na geração de energia elétrica, altamente sujeita a regimes hídricos que estão mudando rapidamente.

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E, ressalte-se, o Brasil não tem políticas públicas consistentes de eficiência energética e de energias renováveis, e está apenas engatinhando – se tanto – na adoção de veículos híbridos para evitar as “bolhas” de poluição que se formam sobre as grandes cidades.

 

 

 

 

Campos, Inundações e o Naufrágio da Gestão Pública

No norte do Rio de Janeiro, dezenas de milhares de pessoas pobres perderam os seus bens como resultado da incompetência do poder público para lidar com informações
primárias relacionadas à hidrologia, hidráulica, topografia, chuvas.

Do nada, surgiu na imprensa local a referência ao “rompimento de um dique” e a expressão ou “estrada-dique”, existente no semi-árido nordestino onde as chuvas são escassas e qualquer obra pública que tenha como subproduto a retençáo de água sempre foi bem vinda, mas até então desconhecida ou nunca usada de forma corrente nas regiões sul e sudeste do país.  Não é improvável que a expressão tenha sido fornecida à imprensa por alguma desorientado membro da “equipe”que circula
nos corredores do tal ministério da “Integração Nacional”, indevidamente ocupado por gente que nunca teve a mais vaga idéia do que é “nacional” (ou um interesse superior) e ainda menos “integração”.

(O tal ministério, diga-se de passagem, nunca teve atribuições claramente definidas: apenas um desses  minstérios de conveniência inventados na úlltima década para dependurar partidos políticos que proliferam como ratos e que são leiloados com base no orçamento de que dispõem.)

De repente, como por mágica, a imprensa do Rio de Janeiro noticiou que “um dique” havia se rompido, causando inundação de ampla área urbana.  Logo, ficou claro que uma estrada que retinha indevidamente as águas havia “sangrado” (só mesmo usando a expressão corrente nos sertões), com um trecho arrastado causando efeito semelhante ao rompimento de uma barragem durante as cheias.

Vale dizer que o mesmo “acidente” já havia ocorrido duas vezes no passado recente, o que permite afirmar que de acidental não existiu nada!  O desastre resultou apenas da incapacidade de olhar um pouco além da visão imediatista das usuais propinas transferidas dos cofres públicos para os bolsos de políticos através de clepto-empreiteiros que têm a mais absoluta aversão por boas práticas de engenharia, aversão que já foi amplamente incorporada pelos primários editais de licitação publicados pelos poderes públicos brasileiros nas mais diversas áreas.

O resumo do repeteco do “rompimento do dique” é que aquela água toda não deveria jamais ser retida por aquela estrada mal projetada.  E que não temos, hoje, qualquer sistema de gestão de recursos hídricos em nenhum dos níveis de governo.

É essa a turma que deveria cuidar dos recursos hídricos!  E ainda querem dar palpite sobre “áreas de risco”!

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As cenas mais patéticas foram aquelas em que bombeiros mal equipados, com pequenas embarcações que mais pareciam improvisadas, tentavam retirar pessoas que não queriam sair de suas casas temendo assaltos – essa é o tal do choque de desordem.  As mais bonitas continuam sendo as imagens de moradores que já compraram os seus próprios barcos e dedicam-se a ajudar os vizinhos.

Código Florestal – Faixas Marginas de Proteção: O Sagrado e o Profano

Na mitologia ambientalóide, a preservação da “faixa marginal de proteção” tem muitas funções sagradas, que faz com que a sua intocabilidade seja uma lei da “Mãe-Terra”. E a definição da faixa a ser preservada deve ser proporcional à largura do rio, não importando a geologia, a hidrologia e a climatologia da região; e importando menos ainda a ocupação humana ou os recursos disponíveis de engenharia, usualmente desconsiderados por serem incompatíveis com alguma lei superior, senão divina, não importando que a civilização tenha surgido às margens dos rios de todos os tipos, com ou sem áreas de alagamento.

Mais recentemente, os ambientalóides resolveram que essas faixas servem para proteger a vida e o patrimônio das pessoas. Assim, inventaram as “áreas de risco” para ampliar o seu poder sobre a opinião pública.  Essa é, literalmente, uma “pegada ecológica” tupiniquim.  Agora, só falta o Conselho Nacional de Meio Ambiente – CONAMA adotar uma “resolução” proibindo chuvas torrenciais acima dos limites considerados em ciclos de 10, 20 ou 50 anos. Eventualmente, incluirão nessa “resolução” a proibição de tufões extra-tropicais, sendo aceitos apenas os tufões puramente tropicais.  Afinal, tais chuvas provocam a subida do nível dos rios e, em consequência, a mudança das faixas marginais de proteção!

Infiltrados no poder público, ambientalistas de algibeira já falam até mesmo na “função ecológica” dessas faixas para a infiltração de água e recarga dos aquíferos subterrâneos. Essa abordagem é divertida!  É inexpressivo o papel das faixas marginais de proteção para a recarga de aquíferos quando comparado com a adoção de técnicas de conservação dos solos na agricultura, com a limitação das taxas de impermeabilização e com a adoção de tecnologias apropriadas para assegurar a retenção e a infiltração das águas de chuva.

O ecologismo tupiniquim é vazio e desconhece que outros países adotaram estratégias diferentes e bem mais sensatas para lidar com esses assuntos, entre as quais a definição de diretrizes para a drenagem e a infiltração das águas de escorrimento superficial nas cidades. Essa abordagem envolve engenharia, planos diretores de micro e macrodrenagem, desenho e dimensionamento adequados dos sistemas de coleta de águas pluviais, etc – coisas que fogem ao domínio dos ambientalóides e, portanto, reduz o seu peso nas decisões sobre políticas públicas em áreas sobre as quais eles tentam exercer algum tipo de domínio através de uma “re$erva de mercado”.

Quem resolveu os problemas de poluição hídrica, de recarga dos aquíferos subterrâneos, de contenção de cheias, de usos múltiplos dos rios e similares em países como, por exemplo, a Alemanha, foram engenheiros e profissionais de formações técnicas diversas – geologia, hidrologia, química, microbiologia – e não “ambientalistas”.  Mas que importância tem isso para quem professa a fé em princípios tão abstratos e genéricos quanto imutáveis?

Nos países sérios, diretrizes para lidar com as águas de escorrimento superficial resultante das chuvas e seu encaminhamento a áreas de infiltração – tanto para recarga do lençol freático quanto para controle de poluição e de cheias – podem alcançar algumas centenas de páginas, com indicadores sobre o regime de chuvas, as taxas de impermeabilização dos solos urbanos, a geologia, e topografia, etc. O fato de não termos nada similar no Brasil não significa que não seja possível, necessário e desejável desenvolver diretrizes desse tipo, que devem servir de base para planos diretores e para a elaboração de projetos específicos.

Um bom exemplo dessas diretrizes, bem como de sua extensão e amplitude das variedades de abordagens técnicas pode ser encontrado, apenas como exemplo, no Manual de Gestão de Águas Pluviais da Região Oeste do Estado de Washington, nos EUA (revisão feita em 2005).  São cinco volumes, nos quais é usada a melhor tecnologia disponível para a concepção e o desenho de sistemas de drenagem de áreas urbanas, incluindo importantes dimensões “ecológicas” (aqui entre aspas porque o se os países sérios denominam ecologia é muito diferente daquilo que parece prevalecer aqui na Terra Brasilis).

O primeiro desses volumes tem 218 páginas com requisitos técnicos mínimos e indicadores para o planejamento da área real – não uma generalização que aqui tem possibilitado o “cheque em branco”  para a omissão.

O volume II, com 178 páginas (até aqui, cerca de 400 páginas) , inclui não apenas um conjunto de parâmetros para lidar com a quantidade, mas também com a qualidade das águas que lavam as ruas e não podem ser lançadas em rios ou lagoas sem o seu tratamento – que pode ser a sua infiltração lenta em certos trechos.  Isso é denominado controle da poluição, algo que não parece despertar muito interesse de nossos ambientalóides.

Com os volumes III, IV e V, chega-se a um documento de cerca de 900 páginas, fora os mapas do mundo real da região noroeste do Estado de Washigton.

Na suposição de que cidades existem inevitavelmente, atribuir à faixa marginal de proteção definida através de um número cabalístico de metros igualmente aplicável às serras do Rio de Janeiro, ao Pantanal e ao Sertão o poder mágico de assegurar a infiltração de água e a recarga do lençol freático pode ser visto como parte do mundo fantástico de ambientalistas neófitos e/ou superficiais.

A Alemanha, entre muitos outros países onde gestão ambiental é levada a sério, têm, há décadas, áreas para destinação das águas de chuvas no meio urbano e sua infiltração lenta no terreno para evitar a poluição das águas superficiais e as enchentes; e áreas reservadas para alagamento e contenção de cheias no meio rural, além de trabalharem intensamente sobre técnicas de conservação dos solos agrícolas que de fato – e não apenas no mundo imaginário – asseguram a recarga dos reservatórios de águas subterrâneos.

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Durante uma visita recente do prefeito de Nova Jersey ao Rio de Janeiro, o diretor de águas da cidade perguntou-me o que acontecia, no Rio, com a chuva incidente sobre uma edificação e se existiam regras para evitar que elas alagassem o terreno vizinho.  Apenas sorri e ele compreendeu.

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O Brasil é tem a patente mundial de “palpites ambientalóides em áreas de risco”.  Isso se deve à omissão geral das autoridades no que se refere ao uso do espaço territorial.