Enchentes na Inglaterra e Proteção do Habitat Humano

Assistindo pela televisão às grandes enchentes ocorridas na Inglaterra nas últimas semanas, um casal de holandeses comentou: “não combatam as águas, convivam com elas!”

Não se trata de uma afirmação técnica, mas de um ponto de vista.  E sobre um assunto que os holandeses conhecem bastante.

Nos dias que se seguiram às ultimas enchentes, grupos formados pelos mais experientes engenheiros e acadêmicos ingleses se reuniram para debater alternativas para proteger a população e o patrimônio – público e privado – contra as enchentes.  Ou seja, o que está em questão é o habitat humano, e não alguma hipótese sobrenatural sobre Gaia ou a Mão-Natureza.

Entre as primeiras conclusões, a necessidade de redesenhar as casas, investir em defesas costeiras que sirvam também para gerar energia, e elevar as estradas – alternativas consideradas por esse grupo como muito mais eficientes do que meras dragagens ou plantio de árvores.

“Nós ainda estamos em modo de aprendizado pelo desastre“, afirmou Jim Hall, professor de riscos climáticos e ambientais no Instituto de Mudança Ambiental da Universidade de Oxford, durante uma coletiva de imprensa que ocorreu na Academia Real de Engenharia.   “Com exceção das ferrovias, a infraestrutura mais crítica do país sobreviveu às enchentes bastante bem, mas adaptar-se às mudanças climáticas ainda é um trabalho em andamento.”

Nessa ocasião, especialistas da Universidade de Cardiff afirmaram que a Inglaterra precisa examinar as alternativas adotadas em outros países na elaboração dos projetos de suas residências e edificações de maneira a reduzir os danos resultantes das enchentes cada vez maiores e mais frequentes.

“Neste país, falamos de fazer edificações sobre pilares (ou palafitas) e em copiar a Holanda, mas talvez seja mais adequado olhar para países com fortes tempestades tropicais, como a Malásia, ou para os EUA, que onde as casas têm um porão frequentemente no mesmo nível das garagens, enquanto a residência fica nos andares mais elevados” – afirmou o diretor de centro de pesquisa em hidrologia ambiental da Universidade de Cardiff.

De fato, casas de excelente qualidade sobre pilotis ou palafitas podem ser encontradas ser encontradas na Costa Rica, no lado do oceano Atlântico, em áreas onde dificilmente os furacões atingem diretamente mas o avanço da água do mar é comum quando ocorrem tornados.

“Uma solução que definitivamente não vai funcionar é plantar mais árvores (…) – acrescentou o professor Falconer.  “Onde estão as evidências de que árvores diminuem o risco de enchentes?  Ao contrário, há evidências de que árvores vão elevar o nível das águas subterrâneas.  Plantar 10 milhões de árvores na bacia de drenagem é uma proposta lunática… nós devemos deixar a natureza como ela é.”

Como se pode ver, não há soluções genéricas aplicáveis a todas as situações, exceto para os crentes nos poderes curativos da Mama-Pacha.

“Da mesma forma, em áreas planas a mera dragagem de rios e canais pode ter um impacto desprezível na proteção contra enchentes.  “Dependendo do rio, a dragagem pode reduzir os riscos de enchentes e fazer com que as terras agrícolas sejam mais produtivas.  Aumentar a seção dos rios e canais pode auxiliar o escoamento da água, mas também pode significar que em certas condições a entrada da água na maré alta se dará mais rapidamente!” – afirmou Jim Hall, de Oxford.

A elevação do nível das estradas de maneira a torná-las compatíveis com os níveis máximos de inundação em ciclos de 100 anos também foi citada como um excelente caminho para os investimentos a serem feitos para preparar a Inglaterra para os extremos climáticos.  Ao menos as comunidades terão meios de se comunicar umas com as outras! – afirmaram os especialistas.

Finalmente, a construção de defesas costeiras em sintonia com a geração de energia pela força das marés foi citada como um exemplo de potencial de sintonia entre investimentos públicos e privados. As propostas de construção de defesas costeiras que sirvam para conter as inundações provocadas pela elevação do nível dos oceanos e simultaneamente gerar energia a partir do movimento das marés têm provocado excitação e debates na Inglaterra.  Algumas reportagens da BBC incluem sobre o assunto, com imagens, podem ser vistas aqui ou aqui.

Coisa de país sério na gestão de seus recursos ambientais e humanos.  E note-se que a Inglaterra está sendo multada pela União Européia por não alcançar metas de redução de poluentes atmosféricos justamente em Londres.

Nota – Este artigo foi escrito com base em informações do The Guardian.

Energias Renováveis – Iniciativas Exemplares de Pequenas Cidades Italianas

Pequenas comunidades que geram mais energia renovável do que consomem?

Ao final de 2.010, isso já acontecia em mais de 800 vilarejos rurais na Itália, com turbinas eólicas entre olivais e outros plantios, segundo um recente relatório intitulado Comunidades Renováveis – 2013 já são 27 as pequenas comunidades 100% abastecidas por energias renováveis (cf. página 34, onde a sigla FT refere-se à metragem quadrada de energia solar-térmica e FV à geração fotovoltaica).

Na lista dessas pequenas comunidades, não se encontra o vilarejo de Tocco da Casauria, na região de Abruzzo.  Com os seus 2.700 habitantes, produz 30% mais energia do que consome.  As tarifas não puderam ser reduzidas devido à legislação em vigor, mas a comunidade usou a receita adicional para suprimir despesas dos cidadãos em outras áreas, como na coleta de lixo, na alimentação fornecida às crianças nas escolas, e mesmo em tarifas reduzidas no centro local de atividades de saúde.  As refeições fornecidas pelas escolas locais aos seus alunos custam menos de 1 Euro por dia!  Administrações municipais inteligentes driblam a regulamentação das concessões dos serviços de eletricidade e tomam iniciativas que beneficiam os seus cidadãos.

De fato, já são mais de 800 as comunidades italianas que geram mais energia do que consomem, segundo uma reportagem do New York Times (que não cita a fonte dessa informação).

Nada de “desapropriar” áreas para a produção de energia eólica.  As áreas necessárias à implantação das torres são alugadas ou os proprietários têm uma participação na produção, e podem continuar com os seus plantios e pastos ao redor delas.  Por que o governo se meteria num assunto de interesse exclusivo das partes.

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Diversas iniciativas estão sendo tomadas para introduzir a energia eólica em áreas urbanas ou para o abastecimento individual de edificações, colocadas sobre os telhados, como se pode ver na página de um dos fabricantes cujos produtos já estão no mercado.

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Para quem se interessa por políticas públicas na área de energias renováveis, recomenda-se um Estudo de Mercado Sobre Tecnologias Verdes na Coréia (em inglês, encomendado pela Câmara Anglo-Coreana de Comércio) no qual se evidenciam os amplos investimentos governamentais no desenvolvimento de tecnologias em energias renováveis, e/ou um artigo mais curto intitulado A Coréia do Sul e sua ambição na área de energias renováveis.

 

 

 

 

 

Manaus – Bailes de Máscaras, Jogos de Cena e Outras Mentiras Convenientes

O ex-presidente Bill Clinton afirmou em Manaus que o Brasil tem que refletir sobre os impactos da construção de grandes hidrelétricas na Amazônia.  Em qualquer país sério, um ex-chefe de estado dando palpites em assuntos de política interna seria muito mal visto e imediatamente repudiado pelas autoridades locais.

Já um tanto senil, Clinton defendeu o que ele acredita ser a proteção da Amazônia em benefício do oxigênio planetário, e afirmou: “Não tenho paciência para pessoas que criticam e não dão alternativas”.

“Qual a alternativa? Vocês precisam de eletricidade e querem preservar a floresta. E 20% do oxigênio mundial vem de vocês. Não é fácil, mas vocês têm que pensar sobre essas coisas, sobre o futuro de seus filhos e netos. É preciso pensar na população indígena, nos animais, nas espécies de plantas que podem ter a cura para doenças.”

Ah, bom!  A cura para as doenças?  Clinton nunca lutou seriamente para que o Congresso norte-americano referendasse a Convenção Sobre a Biodiversidade que garantiria “uma remuneração justa” para os países de onde venham o material genético que permite o desenvolvimento de novos medicamentos!  A “uma remuneração justa” só pode se contrapor “uma remuneração injusta”! E os EUA nunca aderiram a esse tratado internacional!

Ainda mais gagá – ou mais alienado -, o ex-play boy e ocasional governador da Califórnia Arnold Schwarzenegger confundiu o Brasil com o México e elogiou o calor das mulheres brasileiras como fonte potencial de energias renováveis.  Em condições normais de pressão e temperatura, as feministas considerariam isso uma ofensa.  Mas no ôba-ôba da “sustentabilidade” de Manaus, valeu tudo.

Pois bem, na véspera desse encontro de ex-trelas, tietes e alguns cientistas para falar de mudanças climáticas, o Secretário (Ministro) do Interior do governo dos EUA anunciava a autorização para uma vertiginosa expansão da mineração de carvão em seu país.  Estima-se que quando utilizado esse carvão resultará na elevação das emissões globais de carbono em cerca de 50% das atuais emissões norte-americanas, ou o equivalente a 300 usinas térmicas convencionais que usam carvão para a geração de energia.

Esse tipo de jogo de cena para agradar os diversos grupos de pressão não é uma novidade.  Também no Brasil o governo andou se ufanando da redução do desmatamento na Amazônia e, simultaneamente, do potencial econômico da extração do petróleo em grandes profundidades (para as quais as tecnologias de extração ainda não se encontram totalmente desenvolvidas).  E a tuma do meio ambiente fez e faz cara de paisagem, mesmo quando Obama declara abertamente, em discurso durante a sua viagem ao Brasil, “nós precisamos do petróleo de voces”.

Segundo a imprensa internacional, na mesma entrevista em que anunciou essa mega-ampliação dos negócios da indústria do carvão e das termelétrica que o utilizam, o ministtro norte-americano murmurou algumas palavras sobre a intenção de autorizar a implantação de 12.000 MW de energia limpa até o final do próximo ano.  Eles são divertidos!  A nova área de mineração de carvão possibilita a ampliação da capacidade instalada de geração a partir do carvão em cerca de 300.000 MW de energia suja.  O Greenpeace, Clinton, Arnold, e os “zambientalistas” brasileiros ainda não se pronunciaram sobre o assunto.

As imagens da mineração de carvão em Wyoming (abaixo), onde foi autorizada a expansão da atividade, mostram bastante  bem a preocupação dessa turma com florestas, reservas legais, topos de morro, encostas íngremes, fundos de vale, e mudanças climáticas.

 

 

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E por falar em proteção de florestas,  a empresa farmacêutica inglesa Beacon Hill Resources acaba de receber permissão para realizar sondagens em busca de magnetita nas mais valiosas florestas da Tasmânia, na Australia.  Nessa área, denominada Trakine, encontra-se a maior floresta úmida do hemisfério sul, e nela vivem numerosas espécies em extinção e encontram-se impressionantes sítios arqueológicos indígenas, além de extensas áreas de cavernas.

A inglesa Beacon Hill Resources é uma das tres grandes que estão solicitando autorização para a mineração de céu aberto – isto é, com a total remoção das florestas – nessa área.  Em sua página na internet, a empresa anuncia com orgulho essa iniciativa, bem como a aquisição de uma das maiores regiões de carvão ainda não desenvolvidas no mundo, ma Província de Tete, em Moçambique.

Haja cara de pau e cinismo!

Marinha dos EUA adota B-50 feito a partir de algas

Ao final de outubro de 2010, a Marinha dos EUA testou, numa pequena embarcação de 49 pés do tipo RCB-X (foto) um combustível B-50 com a parte de biodiesel produzida a partir de algas pela Solazyme, da Califórnia (www.solazyme.com).  Esse é um notável avanço tecnológico e também na área de políticas públicas para os biocombustíveis.  Os EUA – que não assinam tratados internacionais sobre energias renováveis – ficam, assim, em posição bastante confortável do ponto de vista econômico, também, por deter mais patentes nesse campo. 

“Esse é o futuro” – declarou o contra-almirante Philip Cullom: “Nós vamos operar a nossa frota com base nesse combustível”.

De acordo com o Ministério da Energia dos EUA, as atividades militares são responsáveis por cerca de 80% de todo o consumo de energia do governo.  E ainda que o consumo militar tenha sido reduzido em 9,5% entre 2003 e 2007, o valor da conta cresceu 142%, atingindo US$ 142 bilhões ao final desse mesmo período.

Em decorrência, os militares norte-americanos adotaram um plano para substituir 25% dos combustíveis fósseis que utilizam por energias renováveis até 2020.  A Marinha foi bem mais longe e estabeleceu a sua meta em 50%.  A Marinha começará a fazer isso já em 2012, usando esse B-50 em pequenas embarcações que trafegam por rios e na área costeira.  O incremento será gradual de maneira a incluir fragatas, cruzadores e destroyers até chegar numa “força de ataque verde” em 2016.

Isso tudo é possível, em grande parte, porque lá não existe uma Agência Nacional do Petróleo – ANP preocupada com trivialidades inúteis sobre biocombustíveis, cafetinando o assunto e fazendo com que a adição de etanol à gasolina seja a mesma em regiões produtoras e em regiões extremamente distantes da produção – e, assim, aumentando os preços para os usuários finais -, ou decidindo quem pode usar B-2 ou B-5 ou B-50 ou B-100 independentemente da disponibilidade regional do óleo vegetal. 

“A Solazyme está orgulhosa por ser o primeiro fabricante de combustível produzido microbiologicamente utilizado pela Marina numa embarcação militar”, declarou o presidente da empresa.  “O compromisso da Marinha norte-americana com a redução da dependência de combustíveis fósseis deu um novo passo e nós aplaudimos essa liderança.”

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A imagem abaixo mostra o modelo da embarcação da Marinha dos EUA em que foram feitos os testes  com o B-50 produzido com algas.

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Enquanto isso acontece, o Brasil continua falando em B-2, B-3 e B-5, sempre a partir de produtos agrícolas que concorrem coma produção de alimentos.  Apeasr de ter 7.400 km de costa, é pequeno ou desprezível o apoio para a pesquisa de biodiesel a partir de algas.  E, ainda que excelentes pesquisadores façam o seu trabalho, não emos a mentalidade de que é preciso “criar os mercados”.  Aqui, os economistas em geral e em particular os do governo parecem acreditar que o mercado é algo que existe independentemente das decfisões humanas.  Nos países sérios, adotam-se mecanismos variados para “criar o mercado” para os produtos de tecnologias inovadoras consideradas estratégicas.

Facilita a criação do mercado o fato da mistura, nos EUA, não ser obrigatório e padronizada em todo o território nacional, como ocorre aqui.  Frotas cativas podem adotar B-20 ou B-100 ou qualquer percentual fazendo a mistura em suas próprias bombas de combustível, como os usuários de carros podem escolher a mistura desejada de etanol em inúmeros postos de gasolina, sem necessidade da cafetinagem do produto aqui gerenciada pelo governo e com menores custos porque o biocombustível não tem que “passear” até as refinarias ou pontos de mistura centralizados.

Nota – O texto principal foi retirado da newsletter eletrônica do National Bulletin Board, de subscrição recomendada para quem se interessa por políticas sérias e avanços tecnológicos no campo dos biocombustíveis.