Erosão, Sedimentação, e Más Práticas de Gestão Ambiental no Complexo Lagunar da Barra da Tijuca – II

Uma parcela dos sedimentos lançados nas lagoas tem origem natural, mas essa é insignificante quando se trata da redução acelerada da lâmina d’água em poucas décadas – é um processo que se dá em escala geológica.

Outra parcela, nada desprezível, é oriunda do lançamento de esgotos brutos, sem tratamento, como ocorreu nas últimas décadas em toda a região da Barra da Tijuca – e continua ocorrendo, por lerdeza da concessionária dos serviços e das autoridades públicas (por favor, sem esse papo furado da responsabilidade dos condomínios, um lero-lero já desgastado que só serve para enganar leigos).  Esta parcela pode ser estimada em 500 kg por metro cúbico de esgoto (usando como referência 500 mg de sólidos sedimentáveis por litro de esgoto).  Apenas para um cálculo hipotético – mas não longe da realidade – se estimarmos que na bacia drenante do complexo lagunar da Barra da Tijuca e adjacências que o esgoto de 200.000 habitantes permanece sem tratamento, teremos 40.000 metros cúbicos de esgotos ou 20 toneladas de sedimentos por dia, ou 7.300 toneladas/ano.  Ano após ano….

Pode-se brincar à vontade com esses números, para menos no que se refere à taxa de sólidos sedimentáveis, ou para mais, no que se refere à população ainda não atendida.  Mas não se pode dizer que os valores são desprezíveis ou que exista um estudo sério sobre as fontes dos sedimentos que contribuem para o assoreamento das lagoas.  E falar em mega-dragagens sem esses estudos não é um indicador de boa gestão ambiental.  Rios de dinheiro em dragagem serão melhores aproveitados em coleta de esgotos.  A segunda prioridade é a identificação das fontes de assoreamento e identificação de soluções.  A dragagem localizada – desde que claramente identificadas as áreas com base nas dinâmicas hídricas, e não em interesses particulares- é a terceira prioridade.

Há, na região, uma outra contribuição significativa para o assoreamento das lagoas (ou lagunas): as péssimas práticas de gestão ambiental das empreiteiras e construtoras em geral.  Como se ver abaixo, os serviços de terraplanagem deixam o solo exposto por dias ou semanas, mesmo em períodos de chuva (quando águas ficam ali servindo de criadouros para mosquitos).

Web.pequena - Más práticas construtivas do ponto de vista da gestão ambiental.versão completa

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Imagens similares ocorrem em toda a região, há muito tempo e com frequência, em obras públicas ou privadas.  Não se trata apenas do poder público ter normas para a construção civil, mas também – e sobretudo – da tão decantada responsabilidade sócio-ambiental das empresas.  Pelo menos no caso brasileiro, essa é apenas uma figura de marketing nas páginas das empresas na internet.  Ainda nas proximidades de corpos hídricos como as lagoas, o solo permanece mesmo é exposto durante semanas, com o arraste de sedimentos pelas chuvas.

Web pequena - Solo exposto

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Abaixo, ao fundo, a terra estocada para terraplanagem.  Ali permaneceu durante semanas, antes de ser espalhada sobre o solo arenoso.  Quem, examente, cuidou da tal responsabilidade socioambiental?  Os tratoristas?

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Para finalizar, nas proximidades da lagoa, uma garça procura o seu local usual de pouso e reprodução.  Toda essa bagunça em nome da Copa – alô, alô, “padrão FIFA” – e das Olimpíadas…

Mas nada a temer!  Depois as empreiteiras contratam um biólogo de plantão para fazer alguma “recomposição” ou “compensação ambiental”, e a imprensa finge que acredita.

web.pequena.Ave procura seu ninho ou habitat depois da passagem de máquinas pesadas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

São essas as práticas construtivas em toda a região da Barra da Tijuca.   Diretamente, por arraste superficial, ou através das redes de águas pluviais, a quantidade de sedimentos que vai parar no fundo das lagoas com essas movimentações de terra é seguramente imensa.

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Com elevadas taxas de impermeabilização do terreno, as lagoas também são atingidas, não apenas do ponto de vista hidrológico, como também de mais arraste de sedimentos e de contaminantes.  Nos países sérios, as boas práticas de engenharia dispõem de tecnologias para evitar isso tudo há décadas, muitas décadas.  Mas empreiteiras e construtoras brasileiras não são exatamente empresas que se interessam por avanços tecnológicos, ainda mais quando os benefícios não são para os próprios bolsos.

 

 

Segurança Alimentar – Brasil X Países Sérios e Realidades Preocupantes

Normalmente, a Inglaterra exporta 2,5 milhões de toneladas de trigo.  Este ano, terá que importar uma quantidade equivalente do cereal.  Segundo uma analista senior do Conselho de Desenvolvimento da Agricultura e da Horticultura citada em reportagem do The Guardian, “o mais chuvoso outono desde o início dos registros climáticos no país seguido da primavera mais fria foram a causa da devastação da colheita de trigo”.  No título da reportagem do The Guardian, “os fazendeiros falharam em alimentar a Inglaterra depois que o clima extremo atingiu o colheita de trigo”.

“À reduzida colheita de trigo se adicona a preocupação crescente com a a produtividade por hectare que os fazendeiros britânicos podem alcançar.  (…)  Outras culturas foram duramente atingidas pela severidade do clima.  (…) O açúcar de beterraba, que é cultivada em 125 mil hectares principalmente no leste da Inglaterra, foi atingido por um estranho fenômeno que paralisou a germinação de sementes e reduziu a produção em 50%”.

De acordo com o órgão ambiental da Inglaterra denominado Departamento de Meio Ambiente, Alimentos e Assuntos Rurais (Departamento = Ministério, um órgão sério para assuntos internos mas que se dispersa bastante com preocupações sobre a Amazônia e a caça de elefantes na África, no velho estilo colonialista), afirma que “apenas agora é possível perceber o pleno impacto do forte inverno, com uma queda na renda da cultivo agrícola apresentando um decréscimo de US$ 1, 15 bilhão”, ou mais de R$ 2,3 bilhões.

No mesmo período em que a Inglaterra divulgava informações sobre os impactos do clima sobre a produção interna de alimentos, um relatório conjunto da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OECD e da FAO, divulgado inicialmente numa conferência em Pequim, prevê uma redução significativa na taxa de crescimento da produção de alimentos, que deverá passar de 2,3% ao ano como ocorreu no período 2003-2012, para 1,5 ao ano, no período 2013-2022.

“Enquanto os estoques de alimento nos maiores países produtores e consumidores continuarem baixos, amplifica-se o risco da volatilidade de preços.  Uma nova seca das proporções da que ocorreu em 2012, aliada aos baixos estoques, poderá elevar os preços dos alimentos entre 15% e 40%” – afirma o relatório.

A FAO costuma adotar linguagem diplomática e limitada às projeções de produção e consumo de alimentos, deixando os fatores causadores de uma potencial e provável escassez para outros organismos e pesquisadores.

Assim, vale notar que pouco antes – em abril de 2013 – a Convenção da ONU para o Combate à Desertificação divulgou o relatório de sua Segunda Conferência Científica sobre o tema, sob o título de Avaliação Econômica da Desertificação, Gestão Sustentável de Terras e Resiliência das Regiões Áridas, Semiáridas, e Sub-úmidas Secas, no qual indica que 168 países defrontam-se com severos problemas de degradação dos solos.  A última avaliação desse tipo, divulgada em meados dos anos 1990, reportava esse tipo de problema em 110 países.  Um aumento significativo.

Segundo o estudo, os custos anuais da degradação de terras e desertificação já são da ordem de US$ 490 bilhões por ano e as áreas atingidas crescem a uma taxa de 120 mil km2 anuais, ou o equivalente a duas Suíças.  As principais causas desse fenômeno são a seca, as mudanças climáticas, a agricultura intensiva e às más práticas de irrigação.

O Brasil encontra-se entre os líderes mundiais em conservação dos solos por iniciativa e pelo trabalho persistente de disseminação dos próprios produtores rurais que, no passado, adotaram e difundiram o conceito de “plantio direto”, mantendo a cobertura do solo com a palha o que evita a erosão e assegura a recarga dos aquíferos subterrâneos e a vazão dos rios (a agricultura brasileira alcançou essa posição sem apoio do governo federal).

Enquanto os paises sérios e organizações internacionais se preocupam com a segurança alimentar, o Brasil se dilacera na demonização dos produtores rurais e na falta de soluções para as já imensas áreas de reservas indígenas, que correspondem a cerca de 12% do território para menos de 1% da população (sendo que uma parcela considerável vive em cidades).  São terras improdutivas nos termos da caótica “política indigenista” brasileira que as quer intocadas, sem dar aos indígenas autonomia para usá-las como quiserem.  Hoje, no Brasil, já são mais de 110 ha por (auto-denominados) índios.

Isso para não falar na insistência marqueteira em criar novos parques nacionais e outras unidades de conservação – que já chegam a 35% da Amazônia – nos quais não há infraestrutura para visitação (ou ela é limitada a uma fração irrisória da área) ou de pesquisa, para não falar de um mínimo de capacidade de planejamento e gestão.

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Para os que se interessam pelo tema – e, em especial, para os mais céticos – sugere-se o excelente documentário de Ken Burns sobre a mais duradoura seca já ocorrida na maior região produtora de grãos dos EUA, que se iniciou em 1935 e durou quase uma década.

Um resumo em português do fenômeno que ficou conhecido como Dust Bowl pode ser encontrado na Wikipedia.