Os Legados das Copas do Mundo e das Olimpíadas

A Copa do Mundo custou aos brasileiros um valor que nunca foi totalmente esclarecido.  Algo como R$ 25,8 bilhões, segundo estimativas de maio de 2014, ou US$ 11,5 bilhões, estimados a não se sabe que taxa de câmbio. Continuar lendo Os Legados das Copas do Mundo e das Olimpíadas

Desperdício de Eletricidade ou “Modernidade” dos Estádios Padrão FIFA?

Grama crescendo com luz artificial nos estádios “padrão FIFA”, com o qual o governo brasileiro concordou? A foto mostra esse tipo de uso da eletricidade na “Arena” Fonte Nova, em Salvador! Estádio Padrão FIFA - Salvador II.webpequena

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O mesmo está acontecendo no Estádio Nacional, em Brasília, na “Arena” São Paulo, e no Maracanã, no Rio de Janeiro. Afinal, houve uma exigência da FIFA de que quase a totalidade das arquibancadas ficasse ao abrigo da chuva, e isso ocasionou uma drástica redução da incidência da luz solar nos gramados, fazendo com que fosse necessário importar equipamentos da Holanda para assegurar o crescimento adequado dos gramados… com iluminação artificial. E isso num momento em que o Brasil se defronta com uma crise energética, com todas as usinas térmicas funcionando à plena capacidade e aumentando muito o preço de energia (algo que ainda não repercutiu nas contas dos consumidores porque, em ano eleitoral, o governo resolveu subsidiar essas térmicas).

A imagem abaixo foi obtida por trabalhadores na “Arena” Nacional, em Brasília.

Estádio Padrão FIFA - Brasília.web pequena

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cada equipamento – uma enorme estrutura que se desloca ao longo do estádio ou “arena” – gera uma conta adicional de eletricidade na faixa de R$ 100.000/mês.

Não são poucos os  estádios europeus com cobertura retrátil, um sistema muito utilizado, também, nos EUA.  Com esse tipo de abordagem na arquitetura dos estádios brasileiros, o problema simplesmente desapareceria, além de outras vantagens relacionadas ao conforto.  Em muitos outros estádios, para evitar esse custo adicional de eletricidade, o gramado se move para fora do estádio, ocupando o local destinado ao estacionamento de automóveis ou outros espaços abertos, evitando esse custo adicional com iluminação artificial, como se pode ver na imagem abaixo do Estádio Sapporo, no Japão, que sediou jogos da Copa do Mundo em 2002, no Japão.

Gramado retrátil para fora do estádio - Sapporo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Essa gente não deve saber fazer contas….

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O Brasil nunca chegou a ter uma política nacional de eficiência energética, em particular do que, já nos anos 1980, os países sérios denominavam “gerenciamento da demanda“, isto é, a redução da demanda através da introdução de medidas que resultassem em igual desempenho e menor consumo.  O exemplo mais claro disso é o atraso na introdução de iluminação pública com lâmpadas LED (sigla em inglês para “lighting emitting diode”, ou “diodo emissor de luz”), que reduz o consumo em 50%-60%, além de muitos outros benefícios, como o aumento da vida útil das lâmpadas e a redução dos custos de substituição.

Uma lista (não atualizada) de cidades que já adotaram a iluminação pública com lâmpadas LED inclui Nova York, Los Angeles, Toronto, Budapeste e muitas outras.

Mas, como nas cidades brasileiras a conta de luz sai do bolso dos contribuintes, direta ou indiretamente, quem se interessaria por isso?

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Neste momento, os proprietários de termelétricas temem que o governo os force a interromper as manutenções programadas, já planejadas, o que colocaria os equipamentos em risco (exatamente como ocorre com uma turbina de avião sem manutenção).

 

 

O Rio de Janeiro da Copa do Mundo, dos Jogos Olímpicos e do “Porto Maravilha” na Visão da Grande Imprensa dos EUA

Nas últimas semanas, dois grandes jornais norte-americanos publicaram extensas reportagens com visões bastante negativas sobre a preparação do Rio de Janeiro para a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, com fatos e uma abordagem evitados pela imprensa local.

A primeira delas, do Washington Post, o maior jornal da capital dos EUA, recebeu o seguinte título: “As águas do Rio das Olimpíadas ainda estão cheias de lixo e de esgotos, restando pouco tempo para os Jogos”.  Além de fotos bastante impressionantes, a reportagem inclui um vídeo sobre a Baía de Guanabara (precedido de um anúncio de 30′) que merece ser visto, ainda que apenas pelas imagens.

Nela, afirma-se que “as infindáveis praias e luxuriosas florestas tropicais do Rio de Janeiro serão um sonho para os fotógrafos durante os Jogos Olímpicos de 2016.  Mas, fazendo-se um zoom sobre as antes pristinas águas da Baía de Guanabara, as imagens são de lixo doméstico e esgoto sem tratamento.  (…) Nas águas verde-neon ao redor do futuro Parque Olímpico, as taxas de coliformes fecais são 76 vezes superiores aos limites considerados ‘satisfatórios” pelo governo brasileiro e 195 vezes os limites considerados seguros nos EUA.  (…)  Faltando apenas dois anos e meio para os jogos, especialistas afirmam que os esforços para a limpeza dessas águas avançam a passos de caramujos (ou de cágado, na expressão brasileira)…”.

“A alta concentração de resíduos humanos não tratados significa a presença de patógenos e organismos transmissores de doenças – afirma o Dr. Casey Brown, professor de engenharia civil e ambiental da Universidade de Massachusetts Amhrest.  Se eu fosse tomar parte (nos Jogos), eu me certificaria de que todos os meus atletas teriam tomado todas as vacinas. ”

Depois de mencionar os altos índices de poluição aquática na região da Barra da Tijuca, “onde metade dos Jogos Olímpicos ocorrerão” – não há referência ao fato de que o programa de saneamento dessa área começou há mais de 30 anos e ainda não tem data para ser concluído -, a reportagem do Washington Post faz referências aos altos índices de coliformes fecais da praia de Copacabana e às frequentes mortandades de peixes da Lagoa Rodrigo de Freitas, “onde ocorrerão competições de remo e canoagem”.

“Outro problema arraigado encontra-se nos 383 km quadrados da Baía de Guanabara que se comunica com o mar por apenas um pequeno canal.  Até os anos 70, local de intensa pesca artesanal e praias populares adornadas com coqueiros, a Baía se tornou num local de descarte de resíduos de estaleiros e de áreas portuárias comerciais, assim como de material lixiviado, subproduto tóxico de montanhas de lixo apodrecido proveniente do que foi o maior aterro da América do Sul, cujas atividades só se encerraram em 2012.”  Com justa razão, os jornalistas do Washington Post preferiram ignorar os anúncios factóides de que o chorume decorrente da decomposição do lixo de aterros encerrados às margens da Baía de Guanabara – Caju e Gramacho –  estaria recebendo tratamento minimamente adequado.  Não, esse chorume continua e continuará poluindo a Baía de Guanabara por décadas caso as autoridades ambientais continuem apenas improvisando “soluções” para dar a impressão de que foi feito um trabalho sério.

“O governo japones ajudou no financiamento para limpar a Baía de Guanabara com US$ 700 milhões num projeto que começou em 1992 mas duas décadas depois ainda apresenta poucos resultados.  Pelo menos 5 estações de tratamento foram concluídas, mas a maioria opera com capacidade ociosa porque as redes coletoras não foram totalmente implantadas.  Uma estação de tratamento, em São Gonçalo, nunca tratou uma gota de esgoto.”

A reportagem não menciona que o empréstimo japonês foi atrelado a um outro, do Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID, bem maior, que destinava-se a implantar as redes coletoras, e que o relatório final do BID considerou que o programa havia fracassado em grande parte pela incapacidade local de executá-lo.  (Nada diferente de programas de despoluição similares com financiamento internacional, como o do Tietê, do Guaíba, e da Grande Vitória, incluindo Guarapari).  O dinheiro foi gasto, a dívida contraída, mas as redes de coleta não foram implantadas, e ninguém nunca auditou nada, até porque as empreiteirasa continuam as mesmas.  E o BID – coitado! – se faz auditorias, limita-se à contabilidade, nada em campo para ver se a fatura emitida para a implantação de 30 km de troncos coletores não foi apenas.. uma fatura.  Afinal, obras enterradas podem simplesmente ser cobradas sem que nada ou quase nada tenha sido feito.

Com toda a razão, a reportagem ironiza as unidades de tratamento de rios, “com elevados custos operacionais por requererem caminhões para transportar os resíduos para aterros sanitários” e apenas faz referência as “eco-barreiras” que apenas recolhem uma parte do lixo mais visível e flutuante depois de lançado nos rios ou de atingirem a Baía.  Convenhamos, para um especialista qualquer proveniente de um país minimamente sério, essas iniciativas são apenas maquiagens, senão pura e simples enganação.  De toda forma, uma declaração oficial de incompetência para resolver os problemas de maneira tecnicamente correta.

Essa não é uma visão puramente norte-americana, já que especialistas brasileiros também são citados nas severas críticas feitas à qualidade das águas dos rios da região da Barra da Tijuca e da Baía de Guanabara.

E note-se que só a Copa do Brasil já custa mais caro do que as três últimas somadas (cf. link ao final do texto).

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A outra reportagem, do New York Times, intitulada Um Rio de Janeiro dividido, tentando ir além para o mundo, também tem um slide-show que pode ser visto clicando em sua primeira fotografia ou aqui.  (A palavra usada – “overreaching” – tem o duplo sentido de “indo além” ou de “tentando enganar dando a impressão de que se faz mais do que realmente se consegue”.)

Esta reportagem se concentra mais nos aspectos urbanísticos do Rio de Janeiro e em suas divisões sociais.  “Essa divisão é mais evidente no pantagruélico  (gargantuan, no texto original, algo exagerado em termos de tamanho ou quantidade) plano do prefeito, que prevê investimentos de US$ 4 bilhões (cerca de R$ 10 bilhões) para a área portuária, com a visão de transformar uma parte amplas, antes industrial, da cidade, numa concentração de arranha-céus para um novo Rio global.  (…) Mas o projeto de redesenvolvimento da área portuária é muito mais um projeto de comercial imobiliário de um governo em busca de investidores, com um novo Museu do Amanhã – seja lá no que isso vena a ser -, na forma de um gigantesco crustáceo com formas perfecionistas mas com objetivos nada claros, desenhado por Santiago Calatrava, um arquiteto de ontem.  Não existe um plano diretor real (…) garantindo que a área portuária não será sacrificada para a construção de um mar de torres de escritórios.  As recentes promessas do prefeito de incluir na área 2.000 unidades de habitações populares são tardias e vagas, e parecem mais destinadas a apaziguar opositores sem assustar os investidores.”

“No coração da Barra da Tijuca há um símbolo de esbanjamento de dinheiro público e da divisão de classes: um novo centro de artes, a Cidade da Música, desenhada pelo arquiteto francês Christian de Portzamparc, próximo a um gigantesco shopping center onde há uma réplica da Estátua da Liberdade na parte exterior.  O projeto, iniciado durante a administração anterior, com um orçamento que ao final foi duplicado, atingindo US$ 250 milhões, está situado no meio de uma via de tráfego intenso (uma auto-estrada, no texto original), e despertou críticas de que não tem qualquer contato com as necessidades reais ou com a cultura da cidade”.

Depois de mencionar as ameaças (?) de remoção da Vila Autódromo, a reportagem elogia iniciativas nos bairros de Madureira, Olaria e no Meier.  Mas afirma que simultaneamente outras iniciativas públicas “não fazem sentido: o Projeto Minha Casa-Minha Vida são melancólicos quarteirões para os pobres, construídos de maneira barata, distantes de onde as pessoas viviam”.  (…) Já o programa “Morar Carioca”, que tinha como objetivo a consulta pública – algo incomum – com a participação de arquitetos, terminou levando a uma decisão judicial contrária à decisão da prefeitura de construir mais um sistema de bondes e um funicular (como o do Cristo Redentor), juntamente com um centro cultural para celebrar a vida na favela, resultante de uma ação movida pela associação de moradores do Morro da Providência”.

“Nós queremos o diálogo, mas eles nunca nos ouvem realmente – afirma Roberto Marinho, 38 anos, presidente da Associação de Moradores”.  É, eles nunca ouvem ninguém além daqueles que têm muito dinheiro ou influência partidária, exceto as pencas de puxa-sacos que usualmente os cercam.  Odeiam ideias que possam destoar da opinião que desejam ouvir.

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“O custo da Copa do Mundo no Brasil será maior do que a soma do total investido nas últimas três edições do evento, no Japão/Coreia (que se uniram para realizar um único torneio), Alemanha e África do Sul. Além disso, se os orçamentos das obras dos estádios e de infraestrutura urbana e de transporte continuarem a ser reajustados para cima no ritmo atual, a Copa do Mundo do Brasil terminará custando mais do que todas as outras juntas.”  A conclusão é de um estudo é da consultoria legislativa do Senado Federal, cujo resumo encontra-se resumo publicado pelo UOL/Folha de São Paulo.  Segundo Alexandre Guimarães, consultor do Senado, “o Poder Público já investiu quase R$ 50 bilhões no evento, mas o legado e benefícios para o país e a população brasileira ainda não foram colocados em primeiro plano nos debates.”

“- Haverá retorno de todo esse investimento? – questionou.”, durante recente seminário.