Cidades Históricas: Brasil X Itália – O Conservadorismo do IPHAN – Um Passeio Visual

As cidades históricas brasileiras não estão preparadas para o turismo em larga escala – em particular para o turismo internacional – por diversas razões, entre as quais o tipo de piso que torna difícil, dificulta ou mesmo impede as longas caminhadas dos visitantes e até da população local.  O visitante dá topadas, corta o dedão do pé se tiver com sandálias abertas em dias de calor, e caminhar é um problema  mesmo para os jovens, que têm que fazê-lo como na música de Chico Buarque, “Apesar de Você”, onde se diz “a minha gente hoje anda falando de lado e olhando pro chão”.  Olhar para o chão onde se deveria poder contemplar a arquitetura e céu não é bom. Torce o pé, menos ainda.

É assim na maior parte das cidades brasileiras, mas muito pior naqueles onde o conservadorismo obsoleto do IPHAN quer que os pisos se mantenham como eram na época do Brasil-Colônia.

Abaixo, duas imagens de Tiradentes, em Minas Gerais.

 

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É interessante que essa mentalidade tacanha do IPHAN se mantenha mesmo em Tiradentes, onde, no passado pelo menos uma área foi recuperada com pavimentação adequada à visitação – o Largo das Forras – uma lindíssima praça na qual se encontram algumas das mais belas atrações arquitetônicas da cidade.  O projeto foi doado por Roberto Burle Marx à Prefeitura e teve a sua implantação concluída em 1990 (foto em detalhe abaixo).

 

webpequena.Tiradentes praça Burle Marx

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Agora, Tiradentes tem a oportunidade de refazer o piso de seu centro histórico por dispor de verbas para a renovação de sua infraestrutura subterrânea.  Mas não há indícios de que o IPHAN aceite sequer trocar ideias sobre abordagens há muito já adotadas nas cidades históricas da Alemanha, da França ou da Itália, que são locais de visitação maciça de turistas de todas as nacionalidades.  Antiquado, o IPHAN quer que as pedras originais sejam recolocadas (se possível com os mesmos desníveis).

Abaixo, imagens do tipo de piso da famosa cidade medieval de Assis, totalmente renovada após terremotos que a destruíram em 1997, e que hoje recebe, novamente, milhões de turistas e peregrinos a cada ano (à esquerda) e de trechos do piso de San Gimignano (à direita), ambos em trechos no interior das muralhas medievais.

 

Blog - Assis - webpequena

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Até mesmo as escadarias que levam ao topo de Assis, onde se situa a fortaleza denominada Rocca Maggiore, edificada no século XII, é de fácil acesso, como se pode ver abaixo.

 

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Também o pavimento em frente à Basílica, onde se reúnem anualmente, durante cerimônias, dezenas de milhares de turistas e fiéis (abaixo) é impecável.  O piso não poderia ser, é óbvio, o mesmo da época em que São Francisco de Assis ali construiu, no século XIII, uma conhecida e pequeniníssima capela, que se encontra no interior da Basílica.

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Em todos os casos, não há vestígios de desníveis nos pavimentos, permitindo a caminhada tranquila por visitantes de todas as idades, mulheres grávidas, mães com filhos pequenos, deficientes físicos em cadeiras de rodas, etc.  Em todos os casos, o caimento para os bueiros que coletam as águas pluviais é perfeito e não se formam poças d’água após as chuvas ou a lavagem das ruas.

O mesmo acontece em toda Florença (fotos abaixo).

 

Florença.web pequena

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ou será que alguém pensaria em manter as características originais do piso de Florença como eram nos séculos XIII ou XIV para receber turistas ou mesmo para os habitantes da cidade?

No Rio de Janeiro, abordagens semelhantes já foram adotadas em áreas de patrimônio histórico preservadas ou recuperadas, como em trechos da área conhecida como Corredor Cultural na cidade do Rio de Janeiro.  Em alguns trechos, foram feitas novas calçadas com material semelhante ao usado nas cidades italianas ou em pedra mesmo, mas recortada com tecnologias modernas e simétricas.

Nas fotos abaixo, à esquerda, um trecho em frente ao um famoso e antigo restaurante; à direita, algo feito pelo poder público, por alguma empreiteira que não se preocupou em fazer uma sub-base e um caimento adequado, o que leva a água a formar uma grande poça a poucos centímetros do bueiro onde deveria se dar a drenagem.

 

Corredor Cultural - Rio Minho

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Afinal, IPHAN, nenhuma chance de novas ideias, mesmo como já consagradas em países com cidades muito mais antigas em países com patrimônio histórico de imensa importância?  Afinal, vocês andam sofrendo de “escassez de ideias”?

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A situação em cidades históricas como Paraty e Ouro Preto é bem pior.  Na primeira, porque as pedras originais têm bordas cortantes; na segunda, em decorrência da topografia, com muitas ladeiras.

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Comentários e imagens de pessoas que conhecem essas e outras cidades históricas são bem-vindos.

Nota  – Todas as fotos são do autor dos artigos do blog.  Nenhuma foi simplesmente capturada na internet.

 

 

 

Cidades Históricas – Mobilidade e Acesso para Moradores e Visitantes

Itália e França são talvez os países do mundo com maior visitação turística voltada para o patrimônio arquitetônico e artístico.  Em ambos, anda-se pelas ruas de cidades históricas sem riscos de tropeções, dedos cortados, e quase total impossibilidade de visitação por pessoas com dificuldades de locomoção ou mesmo acompanhadas de crianças.

Os italianos entenderam rapidamente que para melhor desfrutarem de suas cidades – arquitetura, museus, restaurantes -, era preciso que os turistas, estrangeiros e italianos, ou mesmo os moradores, sintam-se à vontade para caminhar por horas, dias inteiros.  Assim, seria apenas uma tolice incluir a pavimentação das ruas e calçadas no patrimônio tombado e querer mantê-las como eram ao final do século XIII (quando iniciou-se a construção da Basílica de Santa Maria del Fiore, em Florença, que terminou na terceira década do século XV).

Então, como se pode ver nas fotos abaixo, em Florença – como em outras cidades medievais italianas – os pavimentos originais foram substituídos por outros, contemporâneos, com material de dimensões padrões e estética compatível com o ambiente urbano medieval, para assegurar o melhor assentamento, estabilidade, tráfego de pessoas, manutenção dos sistemas de drenagem e esgotamento sanitário.

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Já em San Gimignano, a administração da cidade foi ainda mais ousada, permitindo inovações de maior modernidade para facilitar o assentamento do sistema coletor de esgotos e das redes de eletricidade subterrâneas, bem como sua manutenção.

Blog - Assis - webpequena

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aí, onde as primeiras muralhas datam do século XI, uma escadaria para a parte mais alta da cidade foi construída, sem que isso “ofendesse” a proteção do patrimônio histórico.

web pequena.San Gimigniano escadas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Assis não fica atrás.  Na foto abaixo pode-se ver a imensa área em frente à Basílica de São Francisco de Assis.  Nada do pavimento original – e isso não foi consequência do terremoto que abalou a cidade nos anos 1990 -, mas apenas o bom senso de saber que ali passam milhões de turistas por ano, religiosos ou não.

webpequena.Assis praça catedral

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Já no Brasil, as autoridades encarregadas da proteção do patrimônio histórico costumam literalmente desprezar os moradores e visitantes das cidades históricas, como se pode ver nas duas fotos tiradas recentemente em Tiradentes, abaixo, que dispensam comentários.   Falam os iluminados do IPHAN, e que se danem as pessoas!

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Agora, que Tiradentes recebeu verbas para refazer o pavimento das ruas de uma parte da cidade, poderiam fazer coisa mais adequada aos tempos modernos, mas o IPHAN quer que as pedras sejam recolocadas, mesmo tendo as bordas cortantes.  A exigência não se coaduna com um mínimo de bom senso!  Não se trata apenas – e nem principalmente – de “recolocar as pedras nos lugares”, mas talvez de trocá-las por algo que permita um melhor nivelamento, uma padronização de medidas para os casos em que sejam necessários reparos, uma excelente sub-base (calculada de acordo com o peso máximo dos veículos – incluindo os de coleta de lixo e de serviços – que poderão circular nessas ruas, caimento lateral para assegurar uma drenagem apropriado e maior durabilidade dos serviços, pontos de acesso à infraestrutura que for instalada ou renovada (rede de esgotos, águas pluviais, cabos elétricos e outros, etc).

Para isso, não é preciso reinventar a roda, apenas abrir ou modernizar as mentes das autoridades encarregadas da proteção do patrimônio arquitetônico.

O non sense é ainda maior quando se sabe que na mesma Tiradentes há uma praça projetada por Burle Marx em 1989: o Largo das Forras, inaugurado em 1990, quando o paisagista recebeu o título de cidadão honorário da cidade, na comemoração de seus 80 anos.  Todos os elementos usados no piso que se vê abaixo – seixos, arenito e ardósia – foram feitos com materiais típicas da região.

webpequena.Tiradentes praça Burle Marx

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Já no centro histórico do Rio de Janeiro, na área conhecida e em seus arredores, foram feitas diversas intervenções nas calçadas com características semelhantes àquelas adotadas nas cidades medievais italianas.   Nas fotos abaixo, à esquerda, um trecho onde a sub-base foi bem preparada; na imagem à esquerda, um trecho onde se mantiveram as pedras e a sub-base foi feita que nem o nariz da empreiteira que realizou o trabalho.

 

Rio trabalho mal feito1

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Já é tempo do IPHAN e de órgãos estaduais de tombamento reverem os seus conceitos!

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Uma imagem do esquema de pavimentação das vias romanas há 2.000 anos e que encontram-se estáveis até os dias de hoje pode ser vista abaixo, com referências históricas aqui.  É mais fácil caminhar na Via Apia, hoje, do que numa dessas cidades históricas brasileiras.

Pavimentação romana