REDD, Mercado de Carbono, “Compensações Ambientais” e Outras Balelas

Para quem acredita em ONGs que pedem dinheiro para plantar árvores alegando que o doador está contribuindo para conter o avanço das mudanças climáticas, um pouco de aritmética e alguns números podem ser úteis.

As estimativas da CIA sobre o consumo de petróleo nos diversos países do mundo mostram que os EUA – com 19,2 milhões de barris/dia – superam o conjunto de países da União Européia – com 13,7 milhões de barris/dia.  Segue-se a China, com 9,4, e o Japão, com 4,5 milhões de barris por dia.  Esses números absolutos podem ser ainda mais chocantes se convertidos em consumo per capita.  Somadas, a China e a Índia tem 36.3% da população mundial.   Os números não incluem o consumo de carvão, que é parte significativa da matriz energética em países como EUA, China e Austrália.

A Agência de Proteção Ambiental dos EUA – EPA fornece um fator de emissão de dióxido de carbono por barril de petróleo (considerados os diversos tipos de derivados consumidos nos EUA): 0,43 toneladas (métricas) de CO2/barril.

Na mesma página da EPA, é fornecido o cálculo da fixação (sequestro ou captura) de carbono por unidade de terra agrícola convertida para florestas:  toneladas por hectare ou, para efeitos de cálculos com a unidade de medida de área internacional, cerca de 250 toneladas/ano de CO2/hectare de terra agrícola convertida para o plantio de florestas de eucalipto (cálculo feito com base num ciclo de crescimento rápido de 10 anos).1

Assim, para capturar e fixar as emissões totais do petróleo consumido nos EUA ao longo de um ano – 2,12 bilhões de toneladas de CO2 – seria necessária a conversão de 8.488.000 hectares de terras agrícolas por ano, ou 84.880 km2/ano.  Se esse tipo de “compensação ambiental” se destinasse abater o dióxido de carbono emitido apenas pelo consumo de petróleo nos EUA, na Europa e no Japão, seria necessária a conversão de quase o dobro dessa área.

A conversão de – digamos – 16 milhões de hectares/ano ou 160.000 km2/ano de terras agrícolas para o plantio de florestas com a finalidade de capturar carbono é inconcebível.  A badalação sobre a fixação de carbono e a “compensação da pegada carbônica” através do plantio de árvores torna-se ainda mais absurda se considerarmos que ao longo dos próximos dez anos o consumo de petróleo desses países permanecerá estável, fazendo com que seja necessária a conversão de 1.600.000 km2/ano de terras agrícolas para “compensar as emissões” de um pequeno grupo de países altamente desenvolvidos.  Ou seja, 18% do território brasileiro numa década.

EUA, Japão e Europa não pensam, é claro, em fazer “conversão de terras agrícolas” para capturar carbono em seus próprios territórios!  E nem em reduzir drasticamente a queima de petróleo até que existam soluções tecnológicas aceitáveis (se tais soluções vierem a existir em escala significativa para uma correspondente redução do uso de petróleo).  Por enquanto, com o finado Protocolo de Quioto, esses países limitaram-se a exportar emissões de gases causadores de mudanças climáticas.

Compreende-se, assim, a resistência dos países altamente avançados em pagar por projetos de reflorestamento (sobretudo os não econômicos, isto é, não destinados ao corte, que no Brasil têm um ciclo de crescimento de 7 anos, antes de primeiro corte).  Eles sabem fazer contas.  ONGs inescrupulosas, no entanto, continuam a vender a ideia do pagamento pelas florestas em pé e por projetos de reflorestamento para a “compensação das emissões de carbono).  Mas o que não se compreende é que o Brasil e, por exemplo, o BNDES, embarquem numa canoa furada desse tipo, bom muita badalação sobre o “Fundo Amazônico”  ou sobre os “créditos de carbono”.

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Essas ideias são de fácil absorção no meio urbano, por capturar muito mais o imaginário coletivo do que o carbono.  Para quem gosta mais da verdade do que da “responsabilidade sócio-ambiental num clique do mouse”, a mesma página da EPA informa que uma árvore plantada em meio urbano captura em média 0,039 toneladas de CO2 ao longo de um ciclo de 10 anos de crescimento.  Ninguém jamais mostrou uma auditoria sobre áreas utilizadas nesses projetos de “compensação ambiental”.

Existem muitas coisas boas que podem ser feitas na área de responsabilidade sócio-ambiental e para conter o aumento das emissões de gases causadores de mudanças climáticas.  O mero plantio de árvores não é uma delas.  Projetos envolvendo eficiência e tecnologia – inclusive na área de edificações – são muito mais efetivos para atingir os objetivos desejados.

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1 – Os números podem variar em função da diferença entre a taxa de crescimento da vegetação nas regiões temperadas e nos trópicos.  Mas essa diferença se aplica tanto à cultura de alimentos quanto ao plantio de árvores.  Além disso, a página da EPA faz referência ao teor de carbono no solo, que é variável.  No caso brasileiro, a adoção do plantio direto na palha aumentou de maneira significativa esse teor, como provam teses de doutorado defendidas na Universidade Estadual de Ponta Grossa, PR.