Sobre a necessidade de restruturação da gestão ambiental no Brasil – II

A bancada ruralista não quis o imenso pepino anacrônico e ineficiente que é, hoje, o Ministério do Meio Ambiente – MMA e suas muitas secretarias, subsecretarias, conselhos e órgãos vinculados.  A extinção do Ministério e a separação total das atividades de controle de poluição daquelas de administração de unidades de conservação pode, sim, ser muito benéfica para a gestão ambiental no país.  O essencial das questões relacionadas às mudanças climáticas encontra-se em outros órgãos.

Não há nada de fundamentalmente errado na extinção do MMA e na incorporação de suas duas unidades da administração autônoma e indireta a outros ministérios.  É assim que funciona em diversos outros países nos quais a gestão ambiental é exemplar.  O Serviço Nacional da Parques e o Serviço Nacional de Florestas dos EUA, modelos respeitados internacionalmente, são ligados à Secretaria de Agricultura daquele país desde sempre e ambos funcionam perfeitamente.  Já a Inglaterra tem um Departamento de Meio Ambiente, Alimentação e Assuntos Rurais, e a Suécia um Ministério de Meio Ambiente e Energia.  E daí?

Continuar lendo Sobre a necessidade de restruturação da gestão ambiental no Brasil – II

Parque Nacional da Tijuca transforma-se aos poucos em mais um parque que afasta visitantes

A entrevista abaixo foi dada no dia 19/02/2017. com foco no abandono crescente – intencional ou por omissão – que vem marcando a atual gestão do Parque Nacional da Tijuca.

Continuar lendo Parque Nacional da Tijuca transforma-se aos poucos em mais um parque que afasta visitantes

Parque Nacional da Floresta da Tijuca – Imagens, Notícias, Avanços e Recuos

Conta a lenda – ou as más línguas – que certa vez uma “autoridade” de área ambiental do Rio de Janeiro teria levado o ministro alemão do meio ambiente para passear no Parque Nacional da Floresta da Tijuca.  Durante o passeio, teria comentado que esta era a maior floresta urbana do mundo, e ficou pasmo quando numa fração de segundo o alemão retrucou: “depois da Floresta Negra, é claro”.

Apenas para fins de introdução ao tema, vale dizer que a Floresta da Tijuca tem pouco menos de 40 km2, enquanto a Floresta Negra tem cerca de 12.000 km2.

Fica a dúvida sobre o conceito de “floresta urbana”, já que no interior – como na periferia – da Floresta Negra há cidades, vilarejos, estradas, hotéis, pousadas, restaurantes, ciclovias, trilhas e muito mais.  O total da trilhas – para caminhadas e passeios de bicicletas – chega a 23.000 km.  A manutenção dessa rede de caminhos é assegurada por cerca de 90.000 voluntários com níveis variados de envolvimento nas ações necessárias.  Ninguém tem que andar com um “guarda-parque” a tiracolo (aliás, nem mesmo nos parques dos países sérios há necessidade de que os visitantes passeiem com um guarda-parque ou guia dependurado à tiracolo, usualmente  atrapalhando a privacidade, prejudicando a contemplação e falando pelos cotovelos).

Resta, ainda, outra dúvida: que fração da Floresta Negra é “original” ou plantada, já que a ao longo do tempo dela extraiu-se muita madeira, fortes tempestades derrubaram grande quantidade de árvores.  E plantios também ocorreram, ainda que não se tenha notícia de plantios feitos da forma metódica que o aqui foi liderado pelo Major Archer.

Tudo isso como introdução para o estado de conservação em que se encontra o Parque Nacional da Floresta da Tijuca.

As imagens abaixo são da grade de apoio que separa os visitantes da belíssima Cascatinha Taunay, um dos mais importantes pontos turísticos de todo o Parque.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

E isso num Parque Nacional que é – ou deveria ser – uma das principais atrações turísticas do Rio de Janeiro, bem como atrativo para o lazer dos moradores da cidade, com administração compartilhada por vários níveis de governo e “apoios” de várias empresas.

Há marcos históricos no Parque Nacional da Floresta da Tijuca.  Entre eles, bem em frente à Cascatinha, na área de estacionamento, o que ali foi colocado em homenagem a Nicolas-Antoine Taunay que, junto com Jean-Baptiste Debret e Grandjean de Montigny, entre outros, chega ao Brasil em 1816 como integrante da Missão Artística Francesa – responsável pela fundação da Academia Imperial de Belas Artes.  Ao final desse período, Taunay adquire uma pequena chácara junto à Cascatinha e para lá se muda, com a sua família, pintando ao todo cerca de 20 telas.

Abaixo, o estado de abandono em que se encontra o marco ali colocado pelo governo brasileiro em 1928 em homenagem a Taunay.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ah, ha!  É a turma que faz esse tipo de gestão que quer impor regras para os proprietários privados, para as cidades, para o Brasil enfim?  É com essa medíocre “gestão de parques” – mesmo mesmo quando contam com os vultosos recursos das muitas “compensações ambientais” que devem, por lei, serem destinadas a unidades de conservação – que se acham capacitados a ditar normas para toda a nação?

Errou longe a “autoridade ambiental” do Rio de Janeiro que no passado tentou levar o ministro alemão na conversa (alguns acham que o cargo lhes confere dignidade, em lugar do oposto): a Floresta da Tijuca é a terceira maior área verde urbana do Brasil.  No mesmo município do Rio de Janeiro há o Parque da Pedra Branca – quase totalmente abandonado e com múltiplas invasões, cuja área é três vezes superior – e o Parque da Cantareira, em São Paulo, cuja área é pelo menos quinze vezes superior.

Como é escassa – se existir alguma – a documentação sobre o Parque Nacional da Floresta da Tijuca disponível para os visitantes e turistas, vale dizer que além de tratar-se de um floresta plantada sob a supervisão de um oficial da Polícia Militar – o Major Archer -, outra brasileiro deu continuidade ao seu trabalho: o Barão d’Escragnolle, que o sucedeu, fez um belíssimo trabalho de paisagismo, criando amplas áreas para o lazer, com fontes e lagos, algo que causa arrepios e alergia à maioria dos “gestores de parques” do já obsoleto Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (de nome pomposo e estranha sigla – ICMBio), órgão do Ministério do Meio Ambiente.  O sonho deles talvez seja remover todos os sinais da intervenção humana na botânica até mesmo de pequenos trechos do Parque.

Depois, veio o notável trabalho de Raymunto Ottoni de Castro Maya (1894-1968), convidado em 1943 pelo prefeito da cidade do Rio de Janeiro para ser administrador da Floresta da Tijuca.  Castro Maia inicia, então, um fenomenal trabalho de recuperação de jardinagem e paisagismo que haviam sido recobertos pela floresta.  Os trabalhos de recuperação se estendem a trilhas, casas, lagos, caminhos, pontes, e até a Capela Mayrink, construída em 1860, para a qual moradores do Alto da Tijuca doam pinturas de Cândido Portinari.

Empresário bem sucedido, Castro Maya trabalha por um salário simbólico e ao final orgulha-se da visitação chegar a 5.000 pessoas por fim de semana.  Esse, sim, foi um belíssimo trabalho de “educação ambiental”.  Já não se fazem administradores de florestas – ou parques e unidades de conservação – como “antigamente”.

***

* – As fotos são de Beth Tavares.