O Ano Mais Quente Desde 1880 e a Necessidade de Políticas de Segurança Hídrica e Energética

Julho de 2015 foi o mês mais quente da história desde os inícios das medições, em 1880.

A informação consta da página da Administração Nacional dos Oceanos e da Atmosfera (NOAA, na sigla em inglês), o mais importante centro de monitoramento e previsão do clima dos EUA. Continuar lendo O Ano Mais Quente Desde 1880 e a Necessidade de Políticas de Segurança Hídrica e Energética

Agência Nacional de Águas – ANA – Símbolo Maior de Inércia na Gestão de Águas e Uso Eleitoral do Órgão Público

O obscuro sindicalista Vicente Andreu tornou-se presidente da abúlica Agência Nacional de Água – ANA apenas em função de indicações partidárias.  Compadrio 10, qualificações zero!

Agora, às vésperas das eleições para a presidência da república, ele resolveu fazer uso de seu cargo para tentar atribuir ao governo de São Paulo a responsabilidade por uma seca que coloca o abastecimento público de água em grave risco – com iguais riscos para a ordem social e econômica.  Alguns, como ele, acreditam que o cargo lhes dá dignidade e não que lhe caberia dar dignidade ao cargo.  Tecnicamente inerte e à frente de uma agência abúlica, o “presidente” da ANA criticou a gestão do “sistema Cantareira” pelo governo estadual de São Paulo.  Leu alguns números pinçados por seus assessores e mais não disse, até porque mais não sabe.

Não sabe, por exemplo, explicar o que fez a ANA quando os níveis dos reservatórios desse sistema começaram a cair, isto é, se sob a sua “liderança” a ANA cooperou com o governo do estado na elaboração de um plano B, de um plano de contingência para uma situação emergencial, ou se usou de seus conhecimentos para prever o que iria acontecer no caso de uma estiagem mais prolongada.

A gestão da crise pelo governo de São Paulo foi e continua sendo péssima porque conduzida pela concessionária de água e esgoto que, como no Rio, faz apenas o arroz com feijão, muito mal e porcamente: captam água para vender e tentam cobrar atitudes dos consumidores, ainda que seus níveis de perdas técnicas e comerciais sejam elevadíssimos.

Nada de equipes de hidrólogos, engenheiros com visões de alternativas diversas, e ainda menos de meteorologistas.  Afinal, o Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE, que poderia fazer alguma previsão sobre chuvas no médio prazo ou dizer algo sobre a duração da estiagem, ao que parece anda proibido de falar.  E o “cumpanhero” Vicente Andreu não deve sequer saber de sua existência, de suas atribuições, do nome de seu presidente – e assim não conseguirá mostrar uma troca de emails entre ambos ou indicar a ocorrência de um encontro ou telefonema para pedir apoio.  Se não tem política eleitoreira em jogo, não interessa que existam outros órgãos do governo fedearal que deveriam ser ouvidos.

Se o uso da segunda cota do sistema Cantareira pode ser classificada como uma pré-tragédia, a falação vazia do “seu Vicente” e a omissão persistente da ANA em questões de previsão de disponibilidades hídricas e de conservação desse recurso no Brasil não a credencia para fingir que está dando assistência a países caribenhos.  “Seu Vicente” – para quando está previsto o colapso dos primeiros reservatórios responsáveis pela geração de energia elétrica no Brasil se a atual seca se prolongar?  Ou qual foi a assistência prestada aos governos estaduais e à iniciativa privada brasileira no que se refere às restrições à navegação para escoamente de produtos em decorrência desses extremos climáticos?

“Seu Vicente”, o sindicalista, nesse cargo, o senhor não é a “pré-tragédia”, mas a tragédia em marcha.  Afinal, a seca já se estende a várias regiões de Minas Gerais – incluindo as nascentes do rio São Francisco – e logo se ampliará no Rio de Janeiro.  Fora as centenas de municípios do Nordeste com secas que se repetem em ciclos cada vez mais curtos.

Isso para não falar na anemia administrativa aguda da pesada estrutura do tal Conselho Nacional de Recursos Hídricos – CNRH!

Nenhum deles deve saber – ou prefere ocultar – que a California encontra-se em crise semelhante há três anos, que os cientistas convocados pelo governador desse estado norte-americano para examinar a crise já declararam que eles não sabem quanto tempo ela poderá durar (quem não sabe alguma coisa entre os especialistas como seu Vicente?), que os EUA realizaram em setembro o seu 29º Simpósio Anual Sobre Reuso de Água e a página para o próximo simpósio já está ativa (esses são simpósios nacionais – há, também, os estaduais, os por setor da indústria de mais alto consumo de água e os voltados para os avanços tecnológicos).  Não devem saber, tampouco, talvez por se orgulharem de serem “monoglotas”, que diante dos extremos climáticos simpósios sobre reuso de água estão sendo realizados em muitos países, entre os quais o Vietnam, o Chile, a China e a Índia.

Dilma Pena, presidente da SABESP, já pediu sua exoneração.  Agora é a sua vez, seu Vicente!  Seu Vicente, pede para sair (desse “emprego”)!

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Já é tempo dos governos estaduais e municipais agirem sem ficar esperando pela ANA e por seu Vicente.  Uma rápida articulação para a importação de equipamentos de osmose reversa para purificação de água potável -, para a produção em escala comercial da máquina brasileira que “fabrica água” e outras iniciativas simples podem evitar que os chineses dominem rapidamente esse mercado e acabemos pagando royalties e aumentado o deficit da balança comercial.

Além disso, o que é mesmo que a tal da ANA, MMA, a CETESB e a SABESP fizeram nos últimos anos para melhor conhecer, proteger, e utilizar ou considerar a possibilidade de utilização do Aquífero Guarani num ciclo de extremo climático como o que está castigando algumas das regiões que talvez pudessem ter acesso a essas reservas?

Enchentes no Acre e em Rondônia: A “Culpa” é da Bolívia”

Enchentes sem precedentes na Inglaterra – inclusive com ondas anormalmente altas e fortes atingindo e causando danos patrimoniais no litoral; secas na California com graves perdas de produção agrícola juntamente com ondas de frio igualmente fora dos registros históricos; cidades isoladas no Acre e em Rondônia em decorrência de cheias igualmente anormais, falta d’água em São Paulo e uma briguinha de fingimento com o Rio de Janeiro para ambos os governadores ganharem espaço na mídia.

A Califórnia já vem tomando sérias medidas de proteção do habitat humano há muito tempo.  O seu Plano de Controle de Cheias não é um improviso do tipo “declaração de estado de alerta”, da mesma forma que o seu Plano de Gestão de Recursos Hídricos tem sido revisto periodicamente e não se resume a um blá-blá-blá acadêmico-burocrático contendo generalidades, mas envolve ações concretas.  Ambos os documentos merecem no mínimo uma leitura cruzada ou de seus sumários executivos por gente que se interessa pelo assunto.

Inglaterra, Alemanha, Holanda e outros não ficam atrás em sua preparação para a ocorrência de extremos climáticos,incluindo a segurança alimentar e energética de suas populações, além do conjunto de iniciativas orientadas para aquilo que denominam “adaptação a uma sociedade de transição”.

Aqui, quando a presidente Dilma Roussef visitou as regiões alagadas no noroeste do país saiu-se com algo como “a culpa é da Bolívia”.  Não consta que especialistas do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE  estivesse na comitiva ou tenha sido consultado.

De fato, a NASA e outras fontes de informação vêm reportando chuvas anormalmente fortes na Bolívia há alguns anos, mas as ocorridas em fevereiro deste ano foram de severidade “nada usual” – segundo informações do Observatório da Terra.  As chuvas deste ano foram além dos recordes históricos, é verdade, mas foram detectadas bem antes de chegarem ao território brasileiro.  E não havia qualquer plano de contingência, as autoridades federais e estaduais não se prepararam, os danos já são imensos.

Há uma correlação entre essas chuvas de grande intensidade e o desaparecimento de importantes geleiras andinas, (clicando no campo em azul é possível visualizar imagens dessas geleiras).  Em palavras simples, a umidade que ao longo de milhares de anos se transformava em gelo – que, escorrendo lentamente, abastecia de água a Bolívia e o Peru – agora está dando origem às chuvas anormalmente intensas que impactam o lado brasileiro da cordilheira andina.  “A culpa é da Bolívia.”

O rio Madeira já se encontra 19,42 metros acima de seu nível máximo histórico e a previsão é de que as chuvas continuem intensas em suas cabeceiras até o final de março/início de abril de 2014.  Do ponto de vista climatológico, a questão, agora, é saber se durante o período na região conhecido como “vazante” – quando os rios atingem os seus níveis mais baixos – haverá uma grande seca (ou estiagem muito acentuada), com grandes prejuízos para a economia local e para a geração de eletricidade das unidades hidrelétricas do rio Madeira já em operação – além dos impactos potenciais para aquelas que se encontram em fase de implantação.

Afinal, as três maiores secas na Amazônia ocorreram em 1998, 2005 e 2010.  O último recorde atingiu quase metade da região, conforme avaliação da NASA – com grandes danos à população, chegando a resultar em estado de emergência em 37 municípios.  Da mesma forma, é bom lembrar, 9 dos 10 anos mais quentes constantes dos registros históricos ocorreram no século XXI.

Mas… quem se importa com esses detalhes ou com o futuro no Brasil da Copa e das disputas meramente partidárias, sem substância, ainda quando as mudanças ja estejam ocorrendo e tendam a se acentuar nor próximos poucos anos?

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O monitoramento dos “snowpacks” – isto é, da neve acumulada no topo das montanhas – vem sendo feito em diversas partes do mundo.  Na Califórnia, diariamente, porque é dessa neve que depende a vazão dos rios e o abastecimento de água – inclusive para irrigação – no período seco.

Já é hora do Brasil ouvir um pouco mais os seus órgãos de meteorologia.  Grandes produtores estrangeiros de cana de açucar em território brasileiro já estão atentos à baixa produtividade gerada pela escassez de água.

Extremos Climáticos – Marés Elevadas, Chuvas Torrenciais e Grandes Enchentes na Europa

Enquanto o Brasil é castigado por um calor anormal – pelas altas temperaturas e sua persistência – , regiões da Europa são atingidas por grandes enchentes resultantes de marés anormalmente elevadas e ventos com força próxima a de furacões.

Na Inglaterra, mesmo para os padrões usuais da estação, o inverno está anormalmente marcado por enchentes.  O New York Times relata ocorrências sem precedentes na Inglaterra.  Continuamente, ao longo das últimas 5 semanas, a cidade de Muchelney, no sul do país,  transformou-se numa ilha, com os telhados apenas aparecendo na superfície das águas e o policiamento sendo feito por barcos e os moradores se deslocando em canoas até o topo de uma colina que agora é denominada como “terra firme” (mainland, em inglês).  Esse foi o mês de janeiro de chuvas mais intensas e prolongadas nos registros climáticos da país.

Na verdade, grande parte da Europa está sendo atingida por ventos com força de furacões e elevações anormais das marés, informa a BBC, aqui usada como fonte de informações e de imagens.

Na costa leste da Inglaterra, a tempestade e as fortes ondas derrubaram várias casas, como se pode ver abaixo.

 

Hemsby, costa da Inglaterra

 

 

 

 

 

 

 

 

A elevação atípica das marés e a força dos ventos também castigou Emden, no norte da Alemanha, perto da fronteira com a Holanda.

E erupção da maré castigou Emden no Norte da Alemanhas

 

 

 

 

 

 

 

 

No sul da Suécia, em Helsingborg, a estrada costeira foi totalmente inundada.

Hesingborg, no sul da Suécia, estrada costeira

 

 

 

 

 

 

 

 

Mesmo o porto de Hamburgo teve as suas atividades paralisadas por várias horas, podendo-se ver, abaixo, o seu mercado de peixes.

 

Mercado de Peixes em Hamburgo na Alemanha

 

 

 

 

 

 

 

 

Este verão extremamente quente no Brasil é prenúncio de grandes cheias para as próximas semanas?  Como é mesmo que o Brasil está se preparando para extremos climáticos como esses?  Por que o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE, único órgão brasileiro com qualificações técnicas e profissionais para falar sobre mudanças climáticas, foi retirado do circuito e substituído por acadêmicos que se limitam a pedir estudos adicionais?

Estamos vivendo a situação de fingimento e de que há necessidade de maiore estudos?  Esse lero-lero de proteção das florestas amazônicas não vai salvar o Brasil das mudanças climáticas e nem proteger a sua população, a sua agricultura (segurança alimentar), ou a sua razoável  auto-suficiência na geração de energia elétrica, altamente sujeita a regimes hídricos que estão mudando rapidamente.

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E, ressalte-se, o Brasil não tem políticas públicas consistentes de eficiência energética e de energias renováveis, e está apenas engatinhando – se tanto – na adoção de veículos híbridos para evitar as “bolhas” de poluição que se formam sobre as grandes cidades.

 

 

 

 

Tornados, Inundações, Previsões do Tempo – Mais Improviso e Menos Ciência ou Vice-Versa?

Enquanto chuvas torrenciais provocam grandes deslizamentos de terreno nas serras do Rio e cobrem casas em amplos territórios planos na Austrália, além de causar uma devastação em quase uma centena de municípios de Minas Gerais e em diversas localidades de São Paulo, alguns “ativistas” se aproveitam da desgraça alheia para insistir na tolice de que as mudanças no Código Florestal trarão o apocalipse (ainda que nada exista de similar no mundo) ou um fenomenal aumento das emissões de carbono (mas nada falam do pré-sal, porque não ficariam bem na fita).

Talvez devessem propor que se acrescente ao Código alguns dispositivos contra tornados, também, já que um atingiu bairros do Rio de Janeiro e municípios da região metropolitana, como se pode ver  aqui.  Mas, como a destruição não foi muita, o assunto não capturou a atenção da imprensa, exceto por uma sintética mais objetiva declaração do sub-comandante da Defesa Civil: os radares da prefeitura que deveriam captar esse fenômeno, não o registraram.  Um jornal dedicou ao fenômeno – ocorrido pela primeira vez no Rio – um pequeno espaço abaixo da badalação das novas sirenes no Morro do Alemão.  Nele, o curto depoimento de Thamires, de 14 anos, que “ficou bastante machucada”:

“Posso dizer que eu vooei.  A minha sorte foi ter me segurado num poste, para não ser arremessada mais vezes.  Vi um monte de coisas voando: janela, árvore, cachorro e até televisão – disse a adolescente assustada.”

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE, que está ligado ao ministério agora ocupado pelos bigodes de Mercadante – um ás da ciência e da tecnologia -,  permanece em silêncio ou nem foi consultado.  Ou foi proibido de falar sem consultar os marqueteiros do governo.

Neste período, talvez valha dar um pouco de atenção ao gráfico abaixo, divulgado há poucos dias pela NASA sob o título Anomalias das Temperaturas Anuais Ajustadas.

NASA.adjusted_annual_temperature_anomalies

Nele, a NASA compara os dados de medições de temperaturas de quatro grandes centros de referência em meteorologia: o Instituto Goddard para Estudos Espaciais da própria NASA, o Centro Nacional de Dados Climáticos – NOAA (cuja página na internet vale visitar, ainda que rapidamente, em www.ncdc.noaa.gov, para se ter uma idéia do “tamanho do bicho”), a Unidade de Mudanças Climáticas do Met Office da Inglaterra (www.metoffice.gov.uk) e a Agência Meteorológica do Japão (www.jma.go.jp).

Sempre é possível que apareça algum cientista de Bangu sur Mér ou de Teresina Heights que discorde.  Mas que é hora do bigode chamar o INPE – onde estão os mais notáveis profissionais brasileiros na área de meteorologia e mudanças climáticas – para dar dizer, publicamente, o que pensam, ah, isto não seria nada mal.  Juntamente com a turma do Serviço Meteorológico da Diretoria de Hidrografia e Navegação da Marinha do Brasil (www.mar.mil.br/dhn/chm/meteo/index.htm), talvez se possa ter pelo menos o melhor “desenho” dos equipamentos a serem adquiridos e dos sistemas a serem implantados, e menos improvisos midiáticos.

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Há anos – desde um extenso relatório do INPE sobre mudanças climáticas e seus impactos no território brasileiro – o poder público, em todos os níveis, já deveria ter sido iniciada a elaboração de um plano de adaptação às mudanças climáticas, incluindo segurança alimentar e energética, em lugar de deixar a gestão do território ao sabor das conveniências formais dos órgãos ambientais.   Talvez porque o impacto das mudanças climáticas sobre a segurança nacional não caibam no calendário eleitoral. 

Recomenda-se, aqui, a releitura do artigo do blog que tem no título as palavras Realpolitik Ambiental.