Cidades Históricas – Paraty – As Imagens “Divertidas” e as Iniciativas Pioneiras

Amigos da Associação Pro-Mamanguá Paraty (link só acessível através do Facebook), que vem desenvolvendo um excelente trabalho nna região, enviam ao autor deste blog boas e más notícias (e imagens).

Primeiro, a má notícia, para que o sabor da boa fique na boca após a leitura: a “acessibilidade” no município tombado pelo IPHAN é uma piada, como se pode ver abaixo.

 

Kimy

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Piada péssimo gosto, é claro!

A atenção do autor da foto foi despertada por um artigo comparando o pavimento das cidades histórias brasileiras e européias comparando as políticas e iniciativas do IPHAN – o conservadorismo frequentemente tolo – com o que se faz por lá.   Além da acessibilidade mal aplicada em decorrência desse tipo de conservadorismo, a imagem mostra a formação de poças d’água, indicando a péssima qualidade da drenagem, impossível com esse tipo de pavimento (que até poderia ser mantido em um ou dois trechos de ruas).

Do lado positivo, ultra-positivo, um barco com motor elétrico e a eletricidade gerada por painéis solares.

 

Kimy - Barco Solar - Paraty.webpequena

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Apoiando o projeto estiveram a Eletronuclear, a uma distribuidora de baterias, uma loja de madeiras (o barco foi fabricado com madeira impregnada com epóxi) e a Prefeitura municipal.

À frente do projeto, o físico Allan Reid, formado em Campinas e com mestrado em planejamento energético na COPPE/UFRJ, que contou com o apoio de alguns dos professores da instituição.

Explica Allan que os motores de 2 tempos (2T) ainda amplamente utilizados por pequenas embarcações no Brasil são altamente ineficientes e jogam na água cerca de 20% do total do combustível consumido – gasolina ou óleo -, bastante mais do que os motores de 4 tempos já utilizados na Alemanha e e outros países europeus, bastante mais eficientes e menos poluentes (motores a combustão interna são muito ineficientes e só transformam em energia cerca de 30% do poder energético total dos combustíveis fósseis).

No Brasil, não temos a produção nem dos painéis solares e nem dos motores elétricos utilizados no protótipo mostrado na imagem, no qual foram utilizados dois motores auxiliares… importados.

Vale ressaltar que o Brasil exporta silício com baixo grau de pureza e importa células, já nos painéis, que necessitam de silício com alto teor de pureza.

Falar em política de eficiência energética e em gestão ambiental no Brasil não deixa de ser “divertido”.   Onde está o apoio e a promoção para a fabricação local desses equipamentos, e até mesmo a obrigatoriedade de seu uso – a começar pelos ambientes lagunares – para que se crie o mercado?

De toda forma, com um mínimo de estímulo por parte das autoridades, motores elétricos para embarcações poderiam ser produzidos no Brasil e teriam grande utilidade até mesmo sem a utilização de painéis solares (que encarecem as embarcações), já que a maioria das viagens é de curta duração e os pontos de recarga das baterias poderiam estar nas proximidades das áreas de embarque e desembarque de passageiros.

Só mesmo a muita garra de jovens cientistas e o dinamismo do mercado para transformar essa realidade, ainda que com equipamentos importados (ssem desoneração tributária, usualmente parte da política de “criação de mercados” de interesse nacional e/ou público nos países sérios.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cidades Históricas: Brasil X Itália – O Conservadorismo do IPHAN – Um Passeio Visual

As cidades históricas brasileiras não estão preparadas para o turismo em larga escala – em particular para o turismo internacional – por diversas razões, entre as quais o tipo de piso que torna difícil, dificulta ou mesmo impede as longas caminhadas dos visitantes e até da população local.  O visitante dá topadas, corta o dedão do pé se tiver com sandálias abertas em dias de calor, e caminhar é um problema  mesmo para os jovens, que têm que fazê-lo como na música de Chico Buarque, “Apesar de Você”, onde se diz “a minha gente hoje anda falando de lado e olhando pro chão”.  Olhar para o chão onde se deveria poder contemplar a arquitetura e céu não é bom. Torce o pé, menos ainda.

É assim na maior parte das cidades brasileiras, mas muito pior naqueles onde o conservadorismo obsoleto do IPHAN quer que os pisos se mantenham como eram na época do Brasil-Colônia.

Abaixo, duas imagens de Tiradentes, em Minas Gerais.

 

webpequena.Tiradentes.final

 

 

 

 

 

 

 

 

 

É interessante que essa mentalidade tacanha do IPHAN se mantenha mesmo em Tiradentes, onde, no passado pelo menos uma área foi recuperada com pavimentação adequada à visitação – o Largo das Forras – uma lindíssima praça na qual se encontram algumas das mais belas atrações arquitetônicas da cidade.  O projeto foi doado por Roberto Burle Marx à Prefeitura e teve a sua implantação concluída em 1990 (foto em detalhe abaixo).

 

webpequena.Tiradentes praça Burle Marx

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Agora, Tiradentes tem a oportunidade de refazer o piso de seu centro histórico por dispor de verbas para a renovação de sua infraestrutura subterrânea.  Mas não há indícios de que o IPHAN aceite sequer trocar ideias sobre abordagens há muito já adotadas nas cidades históricas da Alemanha, da França ou da Itália, que são locais de visitação maciça de turistas de todas as nacionalidades.  Antiquado, o IPHAN quer que as pedras originais sejam recolocadas (se possível com os mesmos desníveis).

Abaixo, imagens do tipo de piso da famosa cidade medieval de Assis, totalmente renovada após terremotos que a destruíram em 1997, e que hoje recebe, novamente, milhões de turistas e peregrinos a cada ano (à esquerda) e de trechos do piso de San Gimignano (à direita), ambos em trechos no interior das muralhas medievais.

 

Blog - Assis - webpequena

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Até mesmo as escadarias que levam ao topo de Assis, onde se situa a fortaleza denominada Rocca Maggiore, edificada no século XII, é de fácil acesso, como se pode ver abaixo.

 

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Também o pavimento em frente à Basílica, onde se reúnem anualmente, durante cerimônias, dezenas de milhares de turistas e fiéis (abaixo) é impecável.  O piso não poderia ser, é óbvio, o mesmo da época em que São Francisco de Assis ali construiu, no século XIII, uma conhecida e pequeniníssima capela, que se encontra no interior da Basílica.

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Em todos os casos, não há vestígios de desníveis nos pavimentos, permitindo a caminhada tranquila por visitantes de todas as idades, mulheres grávidas, mães com filhos pequenos, deficientes físicos em cadeiras de rodas, etc.  Em todos os casos, o caimento para os bueiros que coletam as águas pluviais é perfeito e não se formam poças d’água após as chuvas ou a lavagem das ruas.

O mesmo acontece em toda Florença (fotos abaixo).

 

Florença.web pequena

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ou será que alguém pensaria em manter as características originais do piso de Florença como eram nos séculos XIII ou XIV para receber turistas ou mesmo para os habitantes da cidade?

No Rio de Janeiro, abordagens semelhantes já foram adotadas em áreas de patrimônio histórico preservadas ou recuperadas, como em trechos da área conhecida como Corredor Cultural na cidade do Rio de Janeiro.  Em alguns trechos, foram feitas novas calçadas com material semelhante ao usado nas cidades italianas ou em pedra mesmo, mas recortada com tecnologias modernas e simétricas.

Nas fotos abaixo, à esquerda, um trecho em frente ao um famoso e antigo restaurante; à direita, algo feito pelo poder público, por alguma empreiteira que não se preocupou em fazer uma sub-base e um caimento adequado, o que leva a água a formar uma grande poça a poucos centímetros do bueiro onde deveria se dar a drenagem.

 

Corredor Cultural - Rio Minho

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Afinal, IPHAN, nenhuma chance de novas ideias, mesmo como já consagradas em países com cidades muito mais antigas em países com patrimônio histórico de imensa importância?  Afinal, vocês andam sofrendo de “escassez de ideias”?

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A situação em cidades históricas como Paraty e Ouro Preto é bem pior.  Na primeira, porque as pedras originais têm bordas cortantes; na segunda, em decorrência da topografia, com muitas ladeiras.

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Comentários e imagens de pessoas que conhecem essas e outras cidades históricas são bem-vindos.

Nota  – Todas as fotos são do autor dos artigos do blog.  Nenhuma foi simplesmente capturada na internet.

 

 

 

Cidades Históricas – Mobilidade e Acesso para Moradores e Visitantes

Itália e França são talvez os países do mundo com maior visitação turística voltada para o patrimônio arquitetônico e artístico.  Em ambos, anda-se pelas ruas de cidades históricas sem riscos de tropeções, dedos cortados, e quase total impossibilidade de visitação por pessoas com dificuldades de locomoção ou mesmo acompanhadas de crianças.

Os italianos entenderam rapidamente que para melhor desfrutarem de suas cidades – arquitetura, museus, restaurantes -, era preciso que os turistas, estrangeiros e italianos, ou mesmo os moradores, sintam-se à vontade para caminhar por horas, dias inteiros.  Assim, seria apenas uma tolice incluir a pavimentação das ruas e calçadas no patrimônio tombado e querer mantê-las como eram ao final do século XIII (quando iniciou-se a construção da Basílica de Santa Maria del Fiore, em Florença, que terminou na terceira década do século XV).

Então, como se pode ver nas fotos abaixo, em Florença – como em outras cidades medievais italianas – os pavimentos originais foram substituídos por outros, contemporâneos, com material de dimensões padrões e estética compatível com o ambiente urbano medieval, para assegurar o melhor assentamento, estabilidade, tráfego de pessoas, manutenção dos sistemas de drenagem e esgotamento sanitário.

webpequena.Florença.final

 

 

 

 

 

 

 

Já em San Gimignano, a administração da cidade foi ainda mais ousada, permitindo inovações de maior modernidade para facilitar o assentamento do sistema coletor de esgotos e das redes de eletricidade subterrâneas, bem como sua manutenção.

Blog - Assis - webpequena

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aí, onde as primeiras muralhas datam do século XI, uma escadaria para a parte mais alta da cidade foi construída, sem que isso “ofendesse” a proteção do patrimônio histórico.

web pequena.San Gimigniano escadas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Assis não fica atrás.  Na foto abaixo pode-se ver a imensa área em frente à Basílica de São Francisco de Assis.  Nada do pavimento original – e isso não foi consequência do terremoto que abalou a cidade nos anos 1990 -, mas apenas o bom senso de saber que ali passam milhões de turistas por ano, religiosos ou não.

webpequena.Assis praça catedral

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Já no Brasil, as autoridades encarregadas da proteção do patrimônio histórico costumam literalmente desprezar os moradores e visitantes das cidades históricas, como se pode ver nas duas fotos tiradas recentemente em Tiradentes, abaixo, que dispensam comentários.   Falam os iluminados do IPHAN, e que se danem as pessoas!

webpequena.Tiradentes.final

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Agora, que Tiradentes recebeu verbas para refazer o pavimento das ruas de uma parte da cidade, poderiam fazer coisa mais adequada aos tempos modernos, mas o IPHAN quer que as pedras sejam recolocadas, mesmo tendo as bordas cortantes.  A exigência não se coaduna com um mínimo de bom senso!  Não se trata apenas – e nem principalmente – de “recolocar as pedras nos lugares”, mas talvez de trocá-las por algo que permita um melhor nivelamento, uma padronização de medidas para os casos em que sejam necessários reparos, uma excelente sub-base (calculada de acordo com o peso máximo dos veículos – incluindo os de coleta de lixo e de serviços – que poderão circular nessas ruas, caimento lateral para assegurar uma drenagem apropriado e maior durabilidade dos serviços, pontos de acesso à infraestrutura que for instalada ou renovada (rede de esgotos, águas pluviais, cabos elétricos e outros, etc).

Para isso, não é preciso reinventar a roda, apenas abrir ou modernizar as mentes das autoridades encarregadas da proteção do patrimônio arquitetônico.

O non sense é ainda maior quando se sabe que na mesma Tiradentes há uma praça projetada por Burle Marx em 1989: o Largo das Forras, inaugurado em 1990, quando o paisagista recebeu o título de cidadão honorário da cidade, na comemoração de seus 80 anos.  Todos os elementos usados no piso que se vê abaixo – seixos, arenito e ardósia – foram feitos com materiais típicas da região.

webpequena.Tiradentes praça Burle Marx

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Já no centro histórico do Rio de Janeiro, na área conhecida e em seus arredores, foram feitas diversas intervenções nas calçadas com características semelhantes àquelas adotadas nas cidades medievais italianas.   Nas fotos abaixo, à esquerda, um trecho onde a sub-base foi bem preparada; na imagem à esquerda, um trecho onde se mantiveram as pedras e a sub-base foi feita que nem o nariz da empreiteira que realizou o trabalho.

 

Rio trabalho mal feito1

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Já é tempo do IPHAN e de órgãos estaduais de tombamento reverem os seus conceitos!

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Uma imagem do esquema de pavimentação das vias romanas há 2.000 anos e que encontram-se estáveis até os dias de hoje pode ser vista abaixo, com referências históricas aqui.  É mais fácil caminhar na Via Apia, hoje, do que numa dessas cidades históricas brasileiras.

Pavimentação romana

 

 

 

 

 

Marina da Glória e Apropriação Privada de Espaços Públicos

Ao final do governo Carlos Lacerda, Lota Macedo Soares foi informada de que a nova administração pretendia lotear o Parque do Flamengo, como já havia acontecido com outras áreas da cidade do Rio de Janeiro resultantes de aterros sobre a Baía de Guanabara.  Afinal, no início, a proposta da Superintendência de Urbanismo e Saneamento do antigo Estado da Guanabara – SURSAN era apenas a construção de pistas de rolamento para ligar o Centro da cidade à zona sul  da cidade.  Os engenheiros da SURSAN não compreendiam porque Lota queria tanto aterro e haviam ficado um tanto ofendidos com os poderes dados à Lota para conceber e implantar o Parque.  Lota apressou-se para conseguir o tombamento do Parque pelo IPHAN antes da posse da nova administração.  Salvou, assim, uma das mais belas áreas públicas da cidade.  A área foi colocada sob a administração da Fundação Parque do Flamengo.  Logo depois, irritados, os novos donos do poder fizeram retornar aos órgãos estaduais de origem todos os funcionários que se encontravam à disposição da Fundação.

Bem mais tarde, por mero decreto presidencial, a área em que hoje se encontra a Marina da Glória foi cedida à Prefeitura do Rio de Janeiro, que tempos depois cedeu-a mediante um contrato de concessão.   Do projeto, não constava um Centro de Convenções como o que agora quer se construir.

Em 2006, por iniciativa do Ministério Público, foi paralisada a construção de uma garagem de barcos que se pretendia construir sob a alegação de que seria necessária para as competições náuticas dos Jogos Panamericanos.  A notícia ainda consta da página do IPHAN na internet, ainda que de maneira resumida:  “A construção, de quase 15 metros, foi paralisada pelo Ministério Público em 2006. O embargo aconteceu porque a obra não respeitava a caracterização do entorno do Parque do Flamengo, patrimônio tombado pelo Iphan, desde 1965, por sua importância arqueológica, etnográfica e paisagística. Além disso, o projeto atrapalhava a vista da paisagem do Pão-de-Açúcar e do Morro da Urca. Ambos, também, tombados pelo Instituto, em 1973.”

O ante-projeto, cujas linhas gerais só se tornaram de conhecimento público depois de aprovado em tempo recorde pelo IPHAN em Brasília (por que em Brasília?  o IPHAN do Rio de Janeiro se mantem em silêncio), prevê também a criação de a construção de um Centro de Convenções, 50 lojas, 333 vagas adicionais de estacionamento de veículos, dez píeres com capacidade para 450 embarcações e uma “área de convivência”.  O Globo deu a notícia com o título “Desvendados os mistérios da nova Marina da Glória“, e logo depois silenciou.

Difícil acreditar que um Centro de Convenções nunca antes previsto já conste do Plano Diretor Urbano da cidade do Rio de Janeiro, cuja prefeitura se mantem em silêncio.  Em princípio, será preciso alterar este Plano através da Câmara Municipal, o que em tese requer consulta pública.

Esse tipo de apropriação privada do espaço público já foi amplamente descrito no livro Os Donos do Rio em Nome do Rei, de Fania Fridman, do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional, da UFRJ.

Essa talvez seja uma excelente oportunidade para que os alunos e professores do Instituto se pronunciem sobre esse novo projeto de descaracterização e apropriação de um patrimônio da cidade.

Fora o que, não é difícil imaginar o engarrafamento de trânsito que ali ocorrerá em dias de “convenção” – trata-se de uma estrutura de apoio ao Hotel Glória -, quando se fizerem presentes todos os convencionais (quantos?) e os correspondentes serviços de apoio – tradutores, equipamentos de som e elétrico, e muito mais.  Afinal, qual a relação entre um Centro de Convenções e uma Marina?  O tal Centro de Convenções pod estar em qualquer outro lugar!

Em artigo recente, Elio Gaspari escreveu brilhante artigo simulando uma carta ao prefeito Eduardo Paes, pedindo que ele não se mantenha em silêncio e nem se omita.  Afinal, lembra o jornalista, já existe um espaço reservado para um Centro de Convenções nas proximidades da estação da Leopoldina, com grandes vantagens para a cidade.

 

 

 

Parque do Flamengo, Eike Batista e Indecências do IPHAN

A violência que se prepara contra o Rio de Janeiro torna imprescindível a reprodução do artigo de Elio Gaspari publicado hoje na Folha de São Paulo: um apelo ao prefeito Eduardo Paes para que não permita uma edificação de pelo menos cinco pavimentos na orla da Baía de Guanabara com potencial de causar imensos engarrafamentos de trânsito.

 

Elio Gaspari

De Lacerda.edu para EduardoPaes.gov

Eike quer tirar proveito daquilo que a Lota previu: a “extrema leviandade dos poderes públicos”

SENHOR PREFEITO do Rio de Janeiro,

Escrevo-lhe com autoridade: fui eu quem fez o aterro do Flamengo. Se não fosse a maluca da Lota Macedo Soares, miúdo vulcão de amor à cidade, aquilo seria um carrascal, parecido com as avenidas marginais dos rios de São Paulo. Foi ela quem concebeu a maravilha e eu quem pediu ao Instituto do Patrimônio Histórico, em 1964, que tombasse o parque. Tombado, não pode ter edificações adicionais que comprometam o seu espírito de área pública.

Aquela terra é do povo carioca. No governo do general Figueiredo, numa das tenebrosas transações da ditadura que ajudei a criar, ele transferiu a posse da área da Marina para a Prefeitura do Rio e esta, concedeu-a a um grupo privado. Em bom português: surrupiaram um pedaço do parque. (De vez em quando vejo o Figueiredo por aqui. A Lota já tentou bater nele, mas o sujeito só conversa com cavalos.)

A “extrema leviandade” dos poderes públicos transformou a área da Marina num mafuá e agora o filho do Eliezer Batista, a respeito de quem nada digo, porque não se pode contar aí o que se ouve por cá, anuncia que pretende revitalizá-la.

Quer construir um shopping center (50 lojas), um estacionamento (600 vagas) e um centro de convenções com capacidade para 900 pessoas anexos ao Hotel Glória, que é dele. Sei da extensão dos poderes do moço e lastimo que o senhor esteja fora dessa discussão. (Sei também que circula com assessores que carregam numa sacola o projeto do doutor, defendendo-o.) O Iphan de Brasília teria dado um sinal verde preliminar ao projeto. A Lota, com sua fúria habitual, não entende como a presidente do Instituto, Jurema Machado, deixou a bola passar, pois numa reunião, há anos, lembrou que as obras, mesmo abaixo do nível do chão, poderiam impactar a intensidade do uso do parque. Há mais de vinte anos, conselheiros do Iphan usam a palavra “privatização” para condenar a velhacaria. Eu não gosto disso, porque tenho horror ao PT. O que não devemos aceitar é que se tome do povo um espaço que é dele, transformando-o num empreendimento comercial. O senhor sabe que o Rio precisa de centros de convenções. Sabe também que há um espaço reservado ao lado da estação da Leopoldina exatamente para isso. Sabe mais: que iniciativas desse tipo estimulam a revitalização de áreas degradadas, como fez Nova York com o Javits Center. O aterro não está degradado, degradados estão os interesses que degradam-no.

O filho do Eliezer diz que fez um concurso internacional de arquitetura para escolher o projeto. O senhor acredita? Se o Iphan não defende o patrimônio da cidade, o senhor deve protege-la. Basta zerar o velho cambalacho. Se o moço quer fazer uma marina, pode juntar-se à prefeitura. Esquece o centro de convenções, joga fora o estacionamento e põe as lojas no Hotel Glória. Peçamos a arquitetos de todo o mundo uma marina simples, pública.

Os mafuás erguidos no parque, e são muitos, nasceram do interesse predador de empresários amigos de presidentes, governadores e prefeitos. Eles são apenas espertos. Responsabilizá-los pela nossa leviandade é uma injustiça. Vá à luta. Defenda o parque que dei à cidade.

Saudações de um governante que amou o Rio e é visto assim mesmo por aqueles que o chamavam de Corvo.

Carlos Lacerda