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A “Bagulheira” Que Vem da China e Outros “Detalhes” da Segurança Alimentar e das Políticas de Mudanças Climáticas

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Há dias,  a presidente Dilma declarou que “o Brasil é exportador de commodities para a China, mas importa muita bagulheira (sic).  Noves fora o palavreado chulo, não muito adequado ao cargo – ao menos em declarações públicas – e ainda menos às relações exteriores, a dúvida é se ela não sabia o que estava dizendo ou se estava jogando para a arquibancada.

Essa frase foi dita poucos dias antes do anúncio de que a China desbancou os EUA como maior potência industrial do mundo.  A produção de manufaturas da China representou 19,8% dos produtos industriais do mundo, contra 19,4% dos EUA.  Nada mal.

No caso das relações comerciais entre o Brssil e a China, alguns fatos e números são melhores para colocar as coisas em perspectiva adequada.

Em maio de 2010, a estatal chinesa State Grid anunciou a compra de sete concessionárias de transmissão de energia elétrica por R$ 3,1 bilhões: Ribeirão Preto, Paracatu, Poços de Caldas, Itumbiara e Serra da Mesa, além de 75% da Expansión Transmissão de Energia Elétrica, que opera no Distrito Federal, Goiás e Minas Gerais, e da Expansión Tansmissão Itumbiara Marimbondo.  Nada mal para uma primeira entrada no setor elétrico brasileiro.  No caso, a bagulheira é capital e tecnologia que permite a redução significativa das perdas na transmissão de eletricidade em longas distâncias.

No Brasil, essas linhas de transmissão operam no máximo em corrente contínua de 600 KV, enquanto a China é o único país a deter tecnologia que permite alcançar um padrão de 1.000 KV, muito mais eficientes nas transmissões a distâncias de até 2.000 km.

Em outubro, o diretor-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica – ANEEL, Nelson Hubner, viajou para Pequim e constatou que uma linha de transmissão chinesa consegue substituir quatro linhas similares convencionais com a tecnologia utilizada no Brasil. Nelson Hubner reconheceu que a adoção dessas novas tecnologias possibilitá aos chineses um mais rápido retorno sobre o capital investido.

Para evitar o usual lero-lero sobre a transferência de tecnologia – como se fosse possível transplantar cérebros -, os chineses preferiram liquidar a dívida quea as concessionárias que compraram tinham com o BNDES.

A State Grid cobre 88% do território chinês e é a maior empresa de transmissão e distribuição de energia do mundo, com faturamento de US$ 164 bilhões em 2008. Com 1,5 milhão de empregados, a estatal é a 15º maior companhia do planeta de acordo com o ranking da revista Fortune.

Na área de energia, o Brasil também anda buscando tecnologia chinesa para os chamados smart-grids (linhas de transmissão inteligentes), iluminação de alta eficiência energética – LED, energia eólica e outras.

Até então, os chineses haviam concentrado os seus investimentos no Brasil nas áreas de petróleo, mineração e de siderurgia.   De fato, em 2009 o Banco de Desenvolvimento da China fez um empréstimo de US$ 10 bilhões à Petrobras tendo como garantia a entrega de petróleo por um período de 10 anos.

Poucos meses depois da aquisição das empresas de transmissão de eletricidade, entraram na produção de soja em Goiás e na Bahia.

Em novembro de 2010, o governo de Goiás assinou com o governo chinês um termo de cooperação prevendo investimentos de até US$ 7,5 bilhões para expandir a produção de soja do estado em pelo menos 6 milhões de toneladas.  Em fevereiro de 2011, a estatal chinesa Chongging Grain Group anunciou investimentos de US$ 900 milhões para a produção e a industrialização de soja na Bahia.  Em entrevista ao canal de televisão estatal da China, o prefeito de Chongging – isso mesmo, o prefeito de um município com 32 milhões de habitantes, situado a 2.000 km de Pequim – declarou:  “assim teremos disponíveis 200 mil hectares de terra” (ainda não comprando a terra, ao controlar o beneficiamento e a comercialização da soja, controla-se a produção e os preços).   Eles definem, com iniciativas desse tipo, uma política de segurança alimentar.

Já aqui, se toda a região do noroeste da Bahia for transformada numa grande “plantation” de soja, sem qualquer cuidado com a segurança alimentar da população local, essa população terá a opção de mudar-se para a periferia das grandes cidades ou de comprar comida mais cara vinda de locais distantes.

Esses são alguns exemplos da bagulheira que a China anda exportando para o Brasil: capital e tecnologia.  Há outros, como a aquisição de composições de trens feitas há cerca de dois anos pelo governador Sergio Cabral há cerca de 2 anos para a Supervia – que deverão chegar em breve, para a alegria da Odebrecht, que comprou a concessão e assim poderá receber créditos pela melhoria da operação desse sistema de transporte de massa.  Vale dizer, os trens chineses adquiridos pelo governo do Rio de Janeiro consomem apenas uma fração da eletricidade dos que ainda se encontram em operação.   O Rio de Janeiro já teve uma pujanta fábrica de vagões ferroviários.

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Aqui, falando na soja e outras commodities agrícolas que o Brasil exporta sob o controle de grandes grupos de comercialização estrangeiros, vale dizer que a “política de segurança alimentar” do Brasil se restringe à bolsa-família.  Vale dar uma espiada no que está acontecendo com a pegada carbônica – e o preço – dos alimentos de consumo dos brasileiros em decorrência desse modelo… ou falta de modelo.  Basta olhar para a imagem publicada no ano passado numa reportagem de um jornal de São Paulo, na qual são mostrados apenas aqueles alimentos de consumo diário da maior parte da população (o famoso PF, sigla popular para o prato-feito).

Obama, Derrotado pelo Congresso dos EUA, Pretende “Comprar” a Amazônia?

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Nesta quinta-feira, 10 de março de 2011, os republicanos passarão o trator na proposta de Obama e dos democratas de estabelecer regras para a redução de gases causadores de mudanças climáticas.  De acordo com a proposta republicana, a Agência de Proteção Ambiental (EPA, na sigla em ingles) fica simplesmente proibida de regulamentar a emissão de CO e mesmo o estabelecimento de metas de eficiência para os veículos automotores (emissões por quilometragem) não poderá mais ser feito a partir de 2016.

Os EUA disputam com a China a liderança nas emissões globais desses gases, e em matéria de emissões per capita estão sem dúvida na liderança absoluta (as emissões per capita são certamente um melhor indicar da “pegada carbônica” dos cidadãos de um país).  Como se não bastasse, é crescente a exportação de carvão para as usinas térmicas que impulsionam a economia chinesa para exportar mais para os EUA e para o mundo.  À conta de quem devem ser lançadas essas emissões: do país de origem ou do país de destino dos bens produzidos?

A vantagem do Congresso norte-americano é que não há essa tentativa tão brasileira de ficar no meio do caminho.  Os republicanos, tradicionais defensores (ou empregadinhos, dependendo do congressista e do ponto de vista) da indústria petrolífera, simplesmente negam a existência de mudanças climáticas causadas ou aceleradas pelas atividades humanas.  Não importa o que diga a NASA ou qualquer outra instituição científica do próprio país.   Danem-se as evidências e os cientistas.

Jay Inslee, um democrata de Washington, já desanimado diante da derrota certeira, comentou que nem mesmo que Copérnico, Galileo, Newton e Einstein testemunhassem perante o Congresso os republicanos aceitariam a ciência.

Derrotado no Congresso norte-americano e querendo dar um exemplo de que apesar disso fará alguma coisa, não será uma surpresa se na agenda dos encontros de Obama com Dilma surgir algum dinheiro para a proteção das florestas amazônicas.  Na tradição norte-americana, comprar consciências (baratinhas) e políticas públicas em outros países não é corrupção.  Para ficar bem na fita em casa, tudo; para eliminar a pobreza dos tais “povos da floresta” – sem saneamento, sem acesso à educação e à saúde primária -, nada.

Além de abrir uma janela para que Obama fique bem na fita com os seus eleitores, esse gesto permitiria atender à crescente demanda do agro-negócio norte-americano: deter a crescente competitividade dos produtos brasileiros.  E ele não vão dizer que cerca de 45% da Amazônia já estão legamente protegidos sob a forma de terras indígenas e unidades de conservação, como demonstrou a EMBRAPA – Monitoramente por Satélites.

Uma organização (ONG) financiada por grandes produtores de soja, carne e madeira norte-americanos divulgou, há algum tempo, estudo demonstrando que deter a expansão da fronteira agricola em países como o Brasil – ou principalmente no Brasil – resultaria em benefícios diretos para o agro-negócio norte-americano: um aumento de receita entre US$ 190 bilhões e US$ 270 bilhões entre 2012 e 2030, aí incluídos um aumento direto da receita dos setores de soja, carne, madeira e óleos vegetais na faixa de US$ 141 bilhões a US$ 221 bilhões.

O relatório, em inglês (é claro, eles não seriam inocentos a ponto de disponibilizá-lo em portugues) pode ser lido aqui, em como como o agro-negócio brasileiro prentede ganhar muito dinheiro “salvando o planeta”.  Os principais números encontram-se logo no início do estudo, na página 7.

Evidentemente, ninguém de bom senso acredita que essa canalha esteja efetivamente interessada em mudanças climáticas, já que em momento nenhum mobilizou-se para defender as propostas de Obama para reduzir as emissões de carbono em seu próprio país.   Além disso, nenhum deles – e nem as ONGs por eles financiadas para atuar no Brasil – defende a constituição de reservas legais ou de áreas de preservação permanente lá.  O mote é: florestas lá, fazendas aqui!

As mudanças climáticas, prevêem os cientistas, transformarão as florestas amazônicas numa vegetação do tipo savana com ou sem a reserva legal e o inútil Código Florestal brasileiro, sem similar no mercado mundial.

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O Greenpeace ainda não se pronunciou sobre essa votação decisiva no Congresso norte-americano.  Lá, eles não se atrevem a fazer lobby.

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Visitar a ultra-cínica página dos grandes produtores rurais norte-americanos na internet em http://adpartners.org é sempre bom, até para ver como financiam ONGs “ambientalistas” com forte presença no Brasil.  Recomenda-se à Confederação Nacional da Indústria – CNA e à Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG a tradução e a disponibilização do relatório para os brasileiros em geral, e em particular para os membros do Congresso Nacional e das cooperativas de produtores rurais.

Índia: Monsanto, Suicídios em Massa e Desestruturação do Setor Rural

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Naryanaswamy Naik foi até um pequeno armário e pegou uma lata de pesticida.  Então, ele ficou parado diante de sua esposa e de suas crianças e bebeu o líquido.  ‘Eu não sei o quanto ele havia pedido emprestado.  Eu perguntei, mas ele não respondeu.”  Sugali Nagamma disse, enquanto o seu pequeno neto brincava aos seus pés. “Eu diria a ele:  não se preocupe, nós podemos vender o sal de nossas mesas. (…) Ele morreu na frente de sua esposa e de suas crianças – você pode imaginar?”

Aqui, uma tradução livre do artigo de Alex Renton publicado no jornal inglês The Independent de domingo, dia 2 de janeiro de 2010.  Ao contrário do usual, os comentários do autor do blog serão destacados em sob a forma de maior distanciamento em relação à margem esquerda do texto.

 A morte de Naik, um pequeno produtor rural no estado de Andhra Pradesh, em julho de 2009, é apenas uma nova marca de uma atordoante lista: cerca de 200.000 proprietários rurais indianos se suicidaram na última década.  Como Naik, um terço deles escolheu a ingestão de pesticida para fazer isso.  Uma forma agonizante de morrer, marcada por vômitos e convulsões.

O jornalista indiano Palagummi Sainath assegura que esses números são muito mais elevados, baseado em suas viagens de trabalho para Andhra Pradesh e para Maharashtra.  “Um produtor rural a cada 30 minutos, atualmente, e muitas vezes 3 da mesma família.”  Os critérios de registro dessas mortes mudam de estado para estado, e assim muitos suicídios não são considerados, como ocorre com o significante número de mulheres que se suicidaram mas que não foram consideradas como “produtores rurais” ainda que o seu ganha-pão fosse a sua atividade agrícola.

A maioria das famílias nas quais ocorreram suicídios relata que a perda de colheitas e a perda de terras são os seus maiores problemas.  Metade dos suicídios ocorre em quatro estados produtores de algodão.  Em termos reais, o preço do algodão corresponde, hoje, a 1/12 do valor do mesmo produto há 30 anos.  A cientista Vanana Shiva associa os suicídios à queda dos preços do algodão, ocorrida a partir do momento em que o governo retirou os subsídios às colheitas e as sementes geneticamente modificadas foram introduzidas, em 1997.

“Cada suicídio pode ser atribuído à Monsanto”, afirma Shiva, ressaltando que a introdução da semente geneticamente modificada Bt Algodão causou a falência das colheitas e a disseminação da pobreza porque o seu uso requer o uso de pesticidas e de fertilizantes.  O príncipe do País de Gales fez as mesmas acusações.  A Monsanto nega dizendo que a pobreza tem muitas causas.

Uma negativa capenga, como todos os desmentidos da Monsanto sobre as suas atividades predatórias desde a fabricação do “agente azul”, fabricado para destuir as plantações de alimento durante a invasão do Vietnam pelos EUA, e do agente laranja, também usado logo a seguir e que deixou décadas de sequelas com dezenas de milhares de deformações genéticas nunca sujeitas a indenizações ou sequer de pedidos de desculpas.  (cf. http://en.wikipedia.org/wiki/Agent_Orange).*

No Brasil, a Monsanto faz o que bem entende sem que o governo dê indícios de acordar para os riscos da disseminação de suas sementes geneticamente modificadas que são estéreis e tornam os produtores dependentes delas.  Ao contrário, o governo permite que a Monsanto inspecione os carregamentos de alimentos para o exterior em busca de indícios de sementes “de sua propriedade”, ali impondo o pagamento dos royalties.  Não existe qualquer transparência em relação aos acordos e parcerias entre fabricantes de sementes geneticamente modificadas e a EMBRAPA.  Quais os benefícios para os produtores rurais brasileiros e para a nação brasileira em geral.

Entre os muitos argumentos encontra-se um com menos carga política: o clima, historicamente complexo pelo papel dos Himalaias de um lado e de oceanos turbulentos de outro, e particularmente imprevisível nos últimos anos.  No Rajastão, ao noroeste, uma seca de 10 anos terminou apenas no último verão, enquanto historicamente, na Índia, as monções anuais ocorreram apenas três vezes na última década.

Na Índia, os 600 milhões de pobres e os produtores rurais são mais frequentemente as mesmas pessoas.  Uma única colheita fracassada acaba com as suas reservas financeiras e os leva a perder a terra.  Depois disso, são poucas as chances de retorno à produção rural.

Essas tragédias e até mesmo a venda de crianças para o casamento e o trabalho escravo – algo comum na Índia – são os resultados mais dramáticos desses episódios.  Mas são mais comuns as histórias de dezenas de milhões de pessoas migrando dos campos para as cidades, aumentando o contingente de pobres nas áreas urbanas e deixando vazios na estrutura de produção de alimentos do país.

“Há vinte anos nós podíamos colher o suficiente para nos alimentar e para vender.  Agora, nós não podemos plantar trigo, feijão, cenouras – porque não há suficientes chuvas.  Então, vamos para as cidades em busca de dinheiro.”

Depois de descrever situações em que crianças e até mesmo bebês dormem no chão de obras nas cidades enquanto mães carregam sacos de cimento e tijolos por R$ 2,50 ao dia, o autor do artigo descreve a “nova pobreza, surgida do caos no clima” como a incapacidade de manter as crianças nas escolas.

Shankar Lal, um dos imigrantes de Surah na Kheda, estava tomando chá debaixo de um viaduto com uma dúzia de jovens de seu vilarejo, esperando para serem recrutados por algum empreiteiro. “Se a chuva voltar, nós poderemos ser produtores rurais novamente.  Mas tudo indica que em 10 anos não existirão mais vilarejos, todos estarão nas cidades ou mortos.”

De acordo com o Programa Mundial de Alimentos, metade de todas as crianças da Índia tem peso menor do que o desejável.  Com tantos produtores rurais desistindo de seu trabalho, o problema não é apenas como a Índia alimentará os seus pobres, mas como alimentará o país inteiro.

O governo brasileiro ainda parece acreditar que a segurança alimentar pode ser alcançada através de bolsa-família.  Ainda que louvável, esse programa originalmente concebido pelo Banco Mundial e implantado em diversos países latino-americanos (sempre condicionado à frequência à escola e a melhorias no sistema educacional aqui até agora desconsideradas), não é suficiente para lidar com a segurança alimentar à nível regional e local.

Há consenso de que radicais mudanças meteorológicas ocorreram na Índia nas duas últimas décadas.  O que é menos certo são as causas.  Essas mudanças no regime de chuvas são “mudanças climáticas”?

Se o colapso na produção rural da Índia continuar, uma catástrofe afetará povos muito distantes de suas fronteiras.  Atualmente, meros rumores de monções (chuvas) insuficientes ou de más colheitas na Índia são suficientes para fazer os preços das commodities subirem rapidamente.

No Instituto Rajastan de Estudos do Desenvolvimento, Surjt Singh acredita que as mudanças nos padrões climáticos são tão importantes quanto as mudanças nos padrões de produção rural, ou o crescimento da população e o fracasso das políticas governamentais.  A economia está crescendo a uma taxa de 9%, mas o preço dos alimentos cresce a taxas entre 16% e 18%.

***

O artigo publicado no The Independent de Londres nos dá uma boa idéia do crescente subdesenvolvimento da imprensa brasileira! Com as raras e honrosas exceções de hábito, atualmente os meios de comunicação no Brasil mais parecem sucursais do Diário Oficial, limitando-se a disseminar releases sobre o que disseram os governantes fulano e sicrano, com zero de análise da importância ou do conteúdo.

* – Atualmente, a página da Monsanto na internet tem informações sobre a política da empresa para direitos humanos e nela pode ser encontrada a informação de que ela fez doações para a proteção do… jaguar no Brasil, mais especificamente na região do Araguaia.  Quem rece beu a grana deve saber onde é que ela foi parar.

Código Florestal, Gestão do Território e Ambientalismo Urbano

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Em 2011, restará a um pequeno e barulhento grupo de ambientalóides urbanos apenas o refúgio na mitologia do Código Florestal e o uso da já desgastada política do terror: “as mudanças propostas levarão à devastação das últimas florestas levarão ao apocalipse climático e ao colapso da biodiversidade”.

Esse é o mantra de quem não tem nada de sério a dizer.  Até porque o ambientalismo urbanóide fala de florestas sem conhecer os “povos da floresta”, sem consultar as “populações ribeirinhas”, com o olhar totalmente opaco para o conhecimento dos agrônomos da EMBRAPA e de outras instituições que atuam direstamente nas florestas e no meio rural, isolados da produção de alimentos  e da economia agrária.

“No nada”, como diz Guimarães Rosa.  Cooperativas de produtores não são sequer consideradas quando as decisões são gestadas numa roda de chopp ou em torno de uma garrafa de uísque nos botecos da moda ou nos restaurantes de luxo das grandes cidades.

“Ambientalismo” é hoje uma “área de negócios” como qualquer outra.  Nessa área de negócios vale tudo para manter e ampliar.. os negócio$.

E, para tanto, há que sonegar informações e inventar um “inimigo”!

Ambas as coisas são necessárias para esconder que “uma das mais avançadas leis ambientais do mundo” (talvez da galáxia) em nada contribuiu para a efetiva proteção das nascentes, para a delimitação em campo das áreas de recarga dos aquíferos subterrâneos, para a gestão adequada dos reservatórios das hidrelétricas, ou sequer para a implantação de um sistema de unidades de conservação minimamente decente - como ocorre nos países sérios (cujas leis são certamente menos avançadas que as brasileiras).

O lero-lero sobre o inimigo inventado também serve para esconder o naufrágio das políticas públicas nas áreas da coleta e tratamento de esgotos, da coleta e destinação final adequada de resíduos, do controle da poluição atmosférica e hídrica, da ampliação do uso de energias renováveis, da opção pelo transporte sobre trilhos no lugar das rodovias que interessam às empreiteiras, do ordenamento territorial do litoral, etc.

Então, aos fatos!

Num dos mais importantes depoimentos feitos no Congresso Nacional, um dos mais brilhantes cientistas da EMBRAPA – profundo conhecor da Amazônia, então à frente da área da instituição encarregada do Monitoramento por Satélite – apresentou números resultantes de um trabalho de uma equipe altamente especializada.  Essa apresentação permaneceu adormecida, sem contestação, porque não é compatível com o sensacionalismo apocalítico que tanto agrada à imprensa.

Neste momento, vale rever os principais trechos da apresentação de Evaristo de Miranda, fazendo o download de suas principais partes clicando aqui em seu título:  Alcance Territorial da Legislação Ambiental e Indigenista (dela foram retirados alguns slides por limitações do software utilizado neste blog).

O resumo é tão simples quanto constrangedor para a farsa ambientalóide: (a) se consideradas apenas as unidades de conservação e as terras indígenas, 27% do território nacional já se encontram legalmente protegidos; esse percentual é maior na Amazônia, onde atinge 46% do território; (b) se a esse percentual já protegido do território forem acrescidas as reservas legais, como hoje concebidas, o percentual de áreas protegidas sobe para 59% do território nacional; (c) quando ao total anterior são acrescidas as áreas de preservação permanente (APPs) como hoje definidas e não cumulativas com as áreas de reserva legal, 71% do território nacional não podem ser tocados e têm que ter a sua vegetação recomposta às expensas dos proprietários, restando 29% do território nacional para ”outros fins”, incluindo as cidades, os espaços dedicados à infra-estrutura (estradas, ferrovias, portos fluviais e marítimos, áreas militares, etc) e, é claro, a produção agrícola.

Tardiamente, até os políticos auto-denominados ecologistas despertaram para um fato que já lhes havia sido dito um sem número de vezes: se mantidas as regras atuais, será necessário retirar os vinhedos do Rio Grande do Sul, as plantações de maçãs de Santa Catarina, boa parte do café de Minas Gerais e de São Paulo, uma parte signficativa mas ainda não calculada da produção de horti-frutis do Rio de Janeiro, além de remover uma imensa população de pequenos produtores ribeirinhos ao longo do rio São Francisco.

Fica a recomendação de uma observação cuidadosa da apresentação dos profissionais altamente qualificados da EMBRAPA que, evidentemente, não se auto-denominam “ambientalistas”, como aliás ocorre com os profissionais sérios que atuam na área de gestão ambiental.

Conflitos Pela Água – Uma Realidade no Peru

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John Vidal, editor de meio ambiente do jornal ingles The Guardian, está fazendo uma viagem pelas regiões de geleiras dos Andes, de onde seguirá para a Amazônia.  Trata-se de uma reportatem em estilo inovador de apresentação.

Nela, pode-se VER como estão ocorrendo conflitos pela água, em particular em Espinar, no Peru, com imagens da polícia se defrontando com manifestantes das áreas mais atingidas.

O governo de Espinar informou a John Vidal que já sobem a 5.000 os conflitos pela água, dos quais 50 terminaram em violência.

Nestor Cuti, um líder dos camponeses locais, afirma que as guerras pela água começaram: “nós não teremos mais água em 10 ou 15 anos”.

O governo central quer levar a água de Espinar para fazendeiros mais poderosos, e a população de Espinar protesta.  Os problemas já se estendem a Cuzco, onde falta água 6 horas por dia.  As imagens são bastante chocantes.

No Ecuador, grandes geleiras se reduziram em 40% ao longo de uma única geração.  E esse processo tende a se acelerar.  Além de regular a temperatura, os glaciais fornecem a água que abastece as populações, assegura a irrigação necessária à produção de alimentos e a geração de eletricidade na Colômbia, na Bolívia, no Peru e no Equador.

“A população terá que se adaptar às mudanças” – afirma John Vidal.

Ainda que a narração seja apenas em inglês, as imagens dos vídeos falam por si só.  Elas podem ser vistas em The Guardian – John Vidal, clicando-se nos péquenos símbolos vermelhos em formato de losango.

Vamos ver o que John Vidal mostrará sobre a Amazônia, nos próximos dias, enquanto em Cancun o naufrágio anunciado do encontro mundial sobre mudanças climáticas já mostrou que tudo se limitará a um passeio turístico, eom alguns eventuais “acordos” midiáticos que logo serão deixados de lado.

Limites às Emissões de Carbono – Senado dos EUA Abandona Projeto de Lei e Todos se Calam

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O Senado dos EUA decidiu abandonar qualquer tentativa para aprovar um projeto de lei que limitaria às emissões de carbono dos maiores poluidores do país. O projeto, aprovado por pequena margem pela Câmara dos Deputados, ficou engavetado no Senado por um bom tempo antes de ser definitivamente abandonado em decorrência da resistência tanto de republicanos quanto de democratas.

O silêncio das grandes ONGs sobre o assunto é ensurdecedor.  Nenhum “ativista” algemou-se a um poste diante do Congresso, nenhum senador foi acusado de “exterminador do futuro”.  Nada!  Uma parte do silêncio talvez se deva às dúvidas sobre se essa decisão resultará em aumento ou em redução das doações para as campanhas de proteção de florestas em outros países.

Os argumentos dos senadores para a decisão foram simplórios: a criação de uma taxa federal sobre as emissões de carbono seria passada para os consumidores elevando os preços da eletricidade e dos combustíveis, além de incentivar a indústria a transferir atividades para outros países colocando em risco empregos nos EUA. Ponto.

Os congressistas respondem, evidentemente, às pressões dos lobbies das petroleiras, das carvoeiras e das geradoras de eletricidade, mas se houvesse um clamor de uma parte significativa dos eleitores, a lei seria aprovada, ainda que com as usuais brechas para que a “compensação” fosse feita com as usuais promessas de uns trocados para proteger florestas tropicais.

Esta última hipótese, aliás, deve ganhar impulso. Afinal, Obama terá que se pronunciar de alguma forma no próximo encontro internacional sobre mudanças climáticas a ser realizado no México. Aí, muito provavelmente, a parolagem sobre a necessidade de preservação das florestas deve ser útil para mascarar o usual e radical desinteresse dos EUA pelo “bem comum da humanidade”.

Falar sobre preservação das florestas dos outros e nunca sequer mencionar a recusa dos EUA no que se refere  subscrever à Convenção Sobre a Diversidade Biológica tem sido uma marca registrada dos discursos tanto do governo quanto das grandes ONGs internacionais.

Certa vez, à época em que o Congresso norte-americano recusou-se, pela primeira vez, a ratificar a Convenção Sobre a Biodiversidade, uma subsecretária (vice-ministra) de Justiça do governo dos EUA comentou entre amigos:

“Eu não compreendo. Afinal, tudo o que a Convenção diz é que os países de onde se originarem os recursos biológicos para a produção de bens com valor de mercado terão direito a uma participação justa nas receitas das empresas que produzirem esses bens. Uma participação justa é tão vago! Qual seria a contraproposta: uma participação injusta?”

Ela estava errada!  A proposta real é de participação zero na comercialização de produtos elaborados com base em material genético das florestas tropicais.

Com a decisão norte-americana, não é improvável que a Inglaterra continue a afrouxar as iniciativas relacionadas ao cumprimento de suas próprias leis sobre mudanças climáticas. Afinal, a Inglaterra há muito se comporta mais como uma província dos EUA do que como um país membro da União Européia.

Em ambos os casos, falar sobre florestas em outros países é mais fácil do que assumir responsabilidades com mudanças internas. E ninguém sequer menciona, por exemplo, outras iniciativas que poderiam auxilar a redução dos gases causadores de mudanças climáticas nos países em desenvolvimento, tais como a transferência de tecnologias na área das energias renováveis e da eficiência energética.

Para não ficar “mal na fita”, o Senado dos EUA deverá aprovar uma lei ampliando a responsabilidade das petroleiras em caso de vazamentos de petróleo.

Os EUA continuarão a ser o segundo maior responsável pela emissão de gases causadores de mudanças climáticas do mundo. Até recentemente, quando foram superados pela China, eram o primeiro da lista. Mas há que se dizer que o orçamento do governo da China para energias limpas está sendo, em 2010, o dobro do orçamento dos EUA para os mesmos objetivos.

***

Para quem quiser ver os dados internacionais disponíveis com o ranking das emissões por país e por capita (sem o ufanismo brasileiro até nesse campo), os links abaixo são muito esclarecedores:

http://www.nationmaster.com/graph/env_co2_emi_percap-environment-co2-emissions-per-capita

Os dados constantes da Wikipedia também são interessantes e, na página, há um link para as informações da Agência Internacional de Energia que podem ser visualizados tanto em PDF quanto em Excel (em ambos os formatos, disponíveis para dowload).

http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_countries_by_carbon_dioxide_emissions_per_capita

Inglaterra – O Lema É: Emissões Aqui, Florestas Lá

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O governo da Inglaterra – que tanto fala sobre a necessidade de proteção das florestas amazônicas e das reservas indígenas – não está adotando medidas suficiente para cumprir com as metas legais do pais para a redução da emissão de gases causadores de mudanças climáticas.

É o que afirma um recente relatório do Comitê sobre Mudanças Climáticas   entregue ao Parlamento: “da maneira que está agindo, o governo não atingirá as metas legais para 2020”.

Resumindo, a Inglaterra se prepara para descumprir a sua própria lei sobre mudanças climáticas. “Florestas lá, Emissões Aqui” – poderia ser o lema dos governos da Inglaterra e dos EUA (onde uma lei sobre a redução da emissão de gases causadores de mudanças climáticas permanece engavetada no Senado).

Os cientistas afirmam que a continuidade das emissões dos países altamente industrializados pode resultar na destruição de boa parte das florestas amazônicas, com amplas áreas se transformando em algo semelhante às savanas africanas.  Ou seja, não importa quais sejam as medidas adotadas no Brasil, essas florestas tendem a serem altamente impactadas pelas mudanças climáticas se os demais países não cumprirem metas de redução de suas emissões.

O relatório do Comitê Sobre Mudanças Climáticas – independente – pode ser encontrado em sua página na internet, em www.theccc.org.uk.

Nele, o Parlamento é informado que a redução de 8,6% nas emissões inglesas ocorrida no ano de 2009 decorre, em sua quase totalidade, da recessão econômica, e não da implementação de políticas consistentes com as metas.

O Comitê alerta para o fato de que com o fim da recessão as taxas de redução das emissões não serão compatíveis com a meta de redução de 34% do CO até 2020 em relação ao ano-base de 1990. E ainda ressalta que o cenário é bastante pior se a meta for de uma redução de 42%, que está sendo negociada com a União Européia.

“A recessão criou a ilusão de que estão sendo feitos progressos em direção ao cumprimento das metas” – declarou Lord Turner, presidente do Comitê e ex diretor geral da Confederação da Indústria Britânica.

O Comitê, independente, foi estabelecido exatamente para monitorar as ações do governo e reportar ao Parlamento sobre a adoção e a implementação de políticas consistentes com as metas legais.

No relatório, o Comitê manifesta a sua preocupação com o fato de que o orçamento do Ministério do Transporte para subsidiar a infra-estrutura necessária ao aumento do número de carros elétricos, bem como a substituição da frota atual de veículos seja insuficiente e mesmo de que seja drasticamente reduzido em função das medidas de contenção de despesas que o governo britânico pretende adotar.

O interessante – para os que tentam acusar a ‘bancada ruralista” no Congresso de propor mudanças no caduco Código Florestal brasileiro – é que o Comitê enfatiza a necessidade de que sejam estabelecidas novas regras para o uso de fertilizantes nitrogenados pela agricultura britânica, já que esses fertilizantes liberam óxidos de nitrogênio, que também contribuem de maneira significativa para as mudanças climáticas.

Em resumo, o governo inglês está na rota de descumprimento de sua própria lei enquanto fala sobre o “desmatamento ilegal’ em outros países.

O Greenpeace da Inglaterra permaneceu em silêncio depois de divulgado o relatório do Comitê.