O Ano Mais Quente Desde 1880 e a Necessidade de Políticas de Segurança Hídrica e Energética

Julho de 2015 foi o mês mais quente da história desde os inícios das medições, em 1880.

A informação consta da página da Administração Nacional dos Oceanos e da Atmosfera (NOAA, na sigla em inglês), o mais importante centro de monitoramento e previsão do clima dos EUA. Continuar lendo O Ano Mais Quente Desde 1880 e a Necessidade de Políticas de Segurança Hídrica e Energética

Impactos Abruptos das Mudanças Climáticas – Quando Falam os Cientistas Norte-Americanos

Os EUA continuam sendo, de longe, o país que emite maiores quantidades per capita de gases causadores de mudanças climáticas.  E, também, o maior obstáculo a acordos internacionais sobre o tema.  Não importa o que diga a NASA, capaz de medir até mesmo os níveis de umidade nos solos subsuperficiais e nos aquíferos profundos de maneira a prever oscilações nas safras de alimentos, os grandes lobbies de geração de eletricidade com energia suja (carvão) preferem responsabilzar o desmatamento na Amazônia e doar uns trocados para as ONGs internacionais de lá com forte atuação no Brasil.

No entanto, diversos estados norte-americanos já vêm, há muito, desenvolvendo políticas para “sociedades de transição”, com vistas a garantir, em seus territórios, a segurança alimentar (sobretudo de perecíveis), energética, e até de infraestrutura em geral (estradas costeiras, sistemas de captação de água, edificações, etc.).

Agora, o Conselho Nacional da Pesquisa Científica dos EUA acaba de publicar um extenso relatório intitulado Impactos Abruptos das Mudanças Climáticas – Antecipando Surpresas, que pode ser lido online, ainda que os interessados se restrinjam ao Sumário Executivo.  Para os cretinos que insistem que nada disso é verdade e para a turma do “Rolando o Lero” das “arvrinhas” da Amazônia e da Mata Atlântica, essa é uma boa leitura, ainda que com o risco de perderem as suas fontes de renda.

O resumo da ópera é: as mudanças climáticas já estão acontecendo, são irreversíveis, e causarão graves impactos sobre a ordem social e econômica mundial.  A enrolação diplomática do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) é amplamente demolida.  Nada de “até 2.100”, mas agora e num futuro bem mais próximo.  Para o que lêem inglês, as páginas podem ser avançadas clicando nas teclas com a seta para a direita, acima do link.  Infelizmente, baixar o relatório todo é um pouco mais complicado.

“Além das mudanças abruptas no próprio sistema climático, mudanças climáticas graduais podem ultrapassar limites tanto nos sistemas naturais quanto nos sistemas humanos. (leia-se, a inundações mais frequentes do sistema de metrô de Nova York ou a necessidade de realocar sistemas de captação de água para o consumo humano, como já ocorre no delta do rio San Francisco).   (…) A infraestrutura humana é construída para certas expectativas de vida, mas mesmo mudanças climáticas graduais podem ultrapassar de maneira abrupta certos limites em sua funcionalidade, tais como a elevação do nívels dos oceanos (…), comprometendo barragens marinhas, dutos, estradas e edificações”.

O relatório, com 222 páginas, foi patrocinado, entre outras instituições, pela Academia Nacional de Ciências, pela Administração Nacional dos Oceanos e da Atmosfera (órgão do governo dos EUA), pela Fundação Nacional de Ciências e outras instituições  cientificas.  É altamente improvável que neles tenham influído a diplomacia que força a ONU a adiar tudo para um futuro distante – “até 2.100” – ou a politicagem que predomina nas instituições científicas brasileiras.

“O clima não é o único fator de stress no planeta – outros fatores, como a exaustão dos recursos e as sempre crescentes densidades populacionais e de consumo também exercem uma enorme pressão à resiliência (capacidade de adaptação )  da natureza e da sociedade às mudanças súbitas.  (…) Este estudo difere dos anteriores relacionados às mudanças abruptas por incluir não apenas as mudanças climáticas físicas mas, também, às severas mudanças nos sistemas naturais e humanos. (…) A característica-chave dessas mudanças é que elas podem ocorrer de maneira mais rápida do que o previsto, o planejado ou o orçado de maneira a forçar comportamentos mais reativas do que proativos.”

Entre as mudanças que já estão ocorrendo, o estudo cita a drástica redução da camada de gelo no Ártico durante o verão, a extinção de espécies (“as mudanças climáticas atuais são as mais rápidas que ocorreram nos últimos 65 milhões de anos”). A patir da página 39, o estudo começa a descrever as mudanças abruptas que causam preocupações mais elevados (“primary concern”),  entre as quais (a) as mudanças de direção nas correntes superficiais e profundas do Atlântico, (b) a elevação do nível dos oceanos (que é usualmente gradual mas pode se tornar “súbita”, isto é, ocorrer em poucos anos, já que ela depende da topografia de cada região), (c) acidificação e teores de oxigênio dissolvido nos oceanos, (d) alterações na circulação dos ventos na atmosfera, (e) aumento da frequência de eventos climáticos extremos (ondas de calor e chuvas intensas), com especial ênfase nos ciclones (47,4%) e secas (23,8%), além de grandes tempestades e enchentes (aumento em torno de 10%).

Entre os mais graves impactos decorrências das mudanças climáticas súbitas está a produção de alimentos, cuja demanda deve duplicar (um crescimento de 100%) até 2050 (cf. páginas 131 e seguintes), e as disponbilidades de água (páginas 133 e seguintes) cuja utilização é em até 90% para a irrigação.  Ou seja, os dois problemas estão interrelacionados.

Já é tempo do governo brasileiro – e das autoridades estaduais  – falarem sério sobre esses temas.  Será que elas já conseguem ver ao menos alguma relação entre os portos em fase de implantação, a elevação do nível dos mares e a topografia costeira.  Aliás, será que o governo brasileiro tem as plantas com a topografia costeira no litoral do país?  Este seria um bom início de conversa….

***

Num estado como o Rio de Janeiro, onde se faz o licenciamento ambiental de um Complexo Petroquímico (COMPERJ) sem que haja uma definição das fontes de abastecimento de água e do local de lançamento dos efluentes líquidosk, a situação é grave.

***

Esse tema já havia sido parcialmente abordado, neste blog, na descrição do tema conhecido como flash flooodings ou enchentes abruptas.