A morte anunciada das térmicas a carvão… e o Brasil na mesmice

O título de uma notícia não poderia ser melhor – e por isso foi, aqui, apenas traduzido: Assim morre o carvão – Com energias renováveis super baratas e sistemas de estocagem de energia.

A notícia foi publicada inicialmente por Think Progress e logo reproduzida por outros meios de comunicação.  Ela pode ser lida aqui (em inglês).

A noticia é sobre a última concorrência feita no Colorado para aquisição de energia firme – isto é, de fornecimento constante, 24 horas por dia – que resultou em preços de energias renováveis mais baixos do que os meros custos operacionais das termelétricas a carvão existentes (e já amortizadas).  E isso no Colorado, onde os índices de insolação não são tão altos quanto na região nordeste do Brasil.

Continuar lendo A morte anunciada das térmicas a carvão… e o Brasil na mesmice

ONS e CHESF demonstram despreparo ou irresponsabilidade mesmo

De repente, a vazão de um rio passa de 550 m³/segundo para 1.000 m³/segundo.  E sai inundando tudo rio abaixo, com perdas para a população ribeirinha.  Não é a primeira vez que isso acontece, mas uma estatal do governo – a CHESF – acusa um órgão do mesmo governo – o Operador Nacional do Sistema Elétrico – ONS, que teria dado uma ordem “emergencial”.  No marasmo geral em que o país se encontra na área de políticas públicas, a notícia passou meio desapercebida.  O  ministro de Minas e Energia não foi questionado e nem se pronunciou.  Ganha uma passagem para Petrolina quem souber o nome de memória e algo da experiência dele no setor energético.

Continuar lendo ONS e CHESF demonstram despreparo ou irresponsabilidade mesmo

Reuso de Água – Avanços nos Países Sérios, Lerdeza e Politicagem no Brasil

O condado de Orange, na Califórnia, já tem a maior estação de tratamento e reúso de esgoto do mundo, com a capacidade um pouco acima de 3 m³/s (metros cúbicos por segundo) , já em fase de ampliação para quase 4,5 m³/s, com investimentos de R$ 310 milhões.

Durante a fase anterior à atual seca, a estação de tratamento já foi concebida para recarregar o lençol freático, mantendo os seus níveis constantes.  A reinjeção de água no subsolo assegura a recarga da água subterrâenea e impede a salinização das águas subterrâneas e para abastecer uma população adicional equivalente a 250.000 habitantes.

Os responsáveis pelo abastecimento de água do condado afirmam que há muito já não vêem o esgoto como um problema, mas como um recurso que precisa ser aproveitado.  “Nós temos que ter o controle de nosso destino” – afirma um dos responsáveis pelo projeto ao final do curto vídeo que pode ser visto aqui.

Ainda não existindo regulamento na Califórnia que permita o reuso da água para fins de potabilidade, o projeto está sendo concebido para assegurar níveis de potabilidade, através da tecnologia conhecida como osmose reversa (o Brasil ainda não produz as membranas para esse tipo de tratamento, e nem detem a tecnologia para esse tipo de reuso de água; a produção local de membranas é incipiente e a maioria das membranas são importadas).  O sistema usado nessa estação de tratamento remove até mesmo os sais minerais, compostos farmcêuticos, bactérias e vírus.

Para elaborar o projeto – como lá não há empreiteiras no comando desse tipo de iniciativa -, os engenheiros calcularam os custos de energia para todo esse tratamento é de cerca de 50% do que seria necessário para bombear a água de uma região do estado para a outra e de cerca de 30% do que custaria para dessalinização de água do mar.

Os cientistas californianos já admitem que a atual seca, antes historicamente excepcional, pode ser o “novo normal” (new normal) em decorrência das mudanças climáticas.

Enquanto isso, o governador Geraldo Alckmin, a Agência Reguladora de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo – ARSES e a própria SABESP só pensam em grandes obras para trazer água de um rio para o outro, sem apresentar qualquer estudo de alternativas de longo prazo, inclusive para fins de recarga do lençol freático.  Por outro lado, a presidente Dilma faz acusações indiretas, fingindo esquecer que o governo federal tem um Conselho Nacional de Recursos Hídricos – CNRH e uma Agência Nacional de Águas – ANA que pouco ou nada fizeram para promover o reúso de água ou mesmo para auxiliar na elaboração de planos estratégicos de abastecimento de água.  Politicagem de quinta categoria!

Felizmente, diversas iniciativas de todos os tamanhos já estão sendo tomadas no Brasil para assegurar o reúso de água, ainda que sem apoio das grandes concessionárias que continuam interessadas em vender água.

É urgente a formulação e a implantação de políticas públicas de implantação de projetos de reúso pela iniciativa privada, já que do setor público espera-se mesmo bastante pouco, exceto quando interesses de grandes empreiteiras estão envolvidos.

***

O download de um excelente documento (em inglês), publicado em 2012, intitulado  Reúso de Água – O Potencial para Expandir o Abastecimento de Água da Nação Através do Reúso dos Esgotos Municipais, merece uma leitura – ainda que rápida – ao menos para mostrar como estão procedendo os países sérios, senão para uma leitura mais detalhada.  Encontra-se disponível no link para download gratuito.

 ***

Depois de publicado este artigo, até a Operadora Nacional do Sistema – ONS, com atuação no setor de eletricidade, entrou nessa politicagem de baixarias e ocultações.  Aproveita-se das medidas tomadas pelo governo de São Paulo para dar palpites sobre os riscos de abastecimento de água para cidades do estado do Rio de Janeiro.  Assim, evita falar sobre o baixíssimo nível de outros reservatórios – como os do nordeste do país.  A ONS é a mesma que atribuiu vários apagões regionais à queda de raios e/ou abriu investigações que nunca levaram a lugar nenhum (ou cujos resultados nunca foram divulgados).

 

 

 

 

 

Desperdício do Potencial Hidrelétrico – Desleixo ou Submissão às Grandes Empreiteiras?

Parece inacreditável, mas o Brasil ainda desperdiça uma imensa quantidade de energia gerada por suas hidrelétricas.

O Operador Nacional do Sistema – ONS solicitou – quando poderia determinar – que usinas hidrelétricas desliguem as suas turbinas durante a madrugada ou quando a energia por eles gerada não estiver sendo utilizada.  A notícia, que pode ser lida aqui, passou desapercebida da grande imprensa.  Abaixo, são transcritos dois trechos de uma notícia:

“Em mais um sinal de agravamento nas condições de suprimento de energia, o Operador Nacional de Energia Elétrica (ONS) tem solicitado a alguns geradores que desliguem ou alterem o modo de operação de algumas turbinas de suas hidrelétricas durante a madrugada para economizar água dos reservatórios. A medida tem sido adotada em algumas usinas de Furnas, da Cemig e da AES Tietê, além da hidrelétrica de Itaipu.

“(…) essa situação mostra que o operador e o governo federal estão usando todos os recursos técnicos disponíveis para evitar ao máximo o racionamento de energia.  (…) No domingo, 13, os reservatórios do Sudeste/Centro-Oeste, o mais importante do País, operavam com 36,77% da capacidade.”

Pois nem o governo e nem o Operador do Sistema – e, de fato, ninguém – está usando de uma pequena fração dos recursos ténicos disponíveis para evitar um racionamento.  Se estivessem, já teriam avançado e muito com a repotencialização das hidrelétricas, começando pelas mais antigas.

A repontecialização consiste, basicamente – ainda que não apenas – na troca das unidades geradoras por outras mais modernas e muito mais eficientes.  Exatamente como trocar um motor de um veíiculo de 30 ou 50 anos atrás pelo motor de um veículo moderno. A troca aumenta a capacidade de geração das usinas hidrelétricas, pode ser feita em muito menos tempo do que a construção de uma nova hidrelétrica, além de se pagar num período bastante curto.

Mas essas iniciativas não interessam às empreiteiras que comandam o orçamento de obras públicas do setor elétrico.  Adotado esse caminho, os investimentos maiores são em novos equipamentos, em não na construção de barragens.

Em 2007, o assim chamado governo já sabia, havia muito, que a repotencialização é possível e os resultados de estudos de viabilidade ja se encontravam disponíveis.

“O custo do KW instalado com a repotencialização seria de US$ 500 a US$ 600, bem abaixo dos US$ 1.200 a US$ 15.000 necessários, hoje, para a construção de novas usinas.” – afirmava o professor de pós-graduação em energia da USP, Célio Berman. Segundo ele, o Brasil podia, então, conseguir adicionar 8.000 MW de capacidade de geração apenas com a repotencialização, isto é, sem a construção de novas hidrelétricas.  E mais, poderia reduzir pelo menos de 15% para 10% as perdas técnicas na transmissão e na distribuição de energia elétrica, disponibilizando, assim, 4.500 MW adicionais de eletricidade para o consumo.

Em 2010, analistas do setor apontavam para a responsabilidade da ANEEL – outra agência dedicada apenas às trivialidades das concessões e das revisões dos contratos – nos obstáculos à repotencialização das hidrelétricas brasileiras.

A ANEEL é um belo exemplo das muitas vitórias da burocracia mais medíocre sobre os interesses maiores da nação e, de uma certa forma, do próprio governo, que aceita o loteamento de cargos nas agências regulatórias. Sob a alegação da existência de um “vácuo jurídico”,  a ANEEL se espojava no assunto como se a resolução do problema comportasse mais do que uma única alternativa: o aumento no valor da concessão, que afinal é a única que cabe em seus poucos neurônios.

Pouco tempo depois um grande número de empresas geradoras tiveram as suas concessões simplesmentes estendidas, sem a parolagem do “vácuo jurídico”.

Quem tiver interesse ou paciência de colocar as palavras “repotencialização” e “hidrelétricas” no sistema de busca na internet encontrará um sem número de notícias e estudos.

Mas a inércia prevalece. À repotencialização pode-se e deve-se acrescentar a automação das hidrelétricas que permite a otimização, ganhos de eficiência e de segurança na operação do sistema.

Além disso, de lá para cá novas tecnologias de redução de perdas nas linhas de transmissão de longa distância já chegaram ao Brasil através de empresas chinesas que venceram as concorrências para a construção e a operação de um grande número dessas linhas – reduzindo em muito o tempo de retorno de seus investimentos.

Parcerias público-privadas (PPP) são caminhos excelentes para reduzir os investimentos diretos do governo ou mesmo das concessionárias das hidrelétricas mais antigas.  A atração dos fundos de pensão dessas concessionárias para tais parcerias facilita o processo porque o diálogo se dá com profissionais do ramo, além de garantir a segurança dos pensionistas (atuais e futuros) dessas empresas.

Acorda, Brasil.  É só sair da inércia… e da submissão aos interesses das grandes empreiteiras – no passado conhecidas como  “barrageiras” – que só querem mesmo e só sabem colocar concreto, emitir faturas por medição e negociar aditivos aos contratos originais, sem nunca se preocuparem em prestar um melhor serviço aos clientes.  Em países sérios, obras são conduzidas por empresas de engenharia, nunca por empreiteiras.  As empreiteiras brasileiras, hoje, subcontratam a engenharia, que consideram um apêndice ou componente acessório à gestão dos contratos.