Cidades Históricas – Mobilidade e Acesso para Moradores e Visitantes

Itália e França são talvez os países do mundo com maior visitação turística voltada para o patrimônio arquitetônico e artístico.  Em ambos, anda-se pelas ruas de cidades históricas sem riscos de tropeções, dedos cortados, e quase total impossibilidade de visitação por pessoas com dificuldades de locomoção ou mesmo acompanhadas de crianças.

Os italianos entenderam rapidamente que para melhor desfrutarem de suas cidades – arquitetura, museus, restaurantes -, era preciso que os turistas, estrangeiros e italianos, ou mesmo os moradores, sintam-se à vontade para caminhar por horas, dias inteiros.  Assim, seria apenas uma tolice incluir a pavimentação das ruas e calçadas no patrimônio tombado e querer mantê-las como eram ao final do século XIII (quando iniciou-se a construção da Basílica de Santa Maria del Fiore, em Florença, que terminou na terceira década do século XV).

Então, como se pode ver nas fotos abaixo, em Florença – como em outras cidades medievais italianas – os pavimentos originais foram substituídos por outros, contemporâneos, com material de dimensões padrões e estética compatível com o ambiente urbano medieval, para assegurar o melhor assentamento, estabilidade, tráfego de pessoas, manutenção dos sistemas de drenagem e esgotamento sanitário.

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Já em San Gimignano, a administração da cidade foi ainda mais ousada, permitindo inovações de maior modernidade para facilitar o assentamento do sistema coletor de esgotos e das redes de eletricidade subterrâneas, bem como sua manutenção.

Blog - Assis - webpequena

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aí, onde as primeiras muralhas datam do século XI, uma escadaria para a parte mais alta da cidade foi construída, sem que isso “ofendesse” a proteção do patrimônio histórico.

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Assis não fica atrás.  Na foto abaixo pode-se ver a imensa área em frente à Basílica de São Francisco de Assis.  Nada do pavimento original – e isso não foi consequência do terremoto que abalou a cidade nos anos 1990 -, mas apenas o bom senso de saber que ali passam milhões de turistas por ano, religiosos ou não.

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Já no Brasil, as autoridades encarregadas da proteção do patrimônio histórico costumam literalmente desprezar os moradores e visitantes das cidades históricas, como se pode ver nas duas fotos tiradas recentemente em Tiradentes, abaixo, que dispensam comentários.   Falam os iluminados do IPHAN, e que se danem as pessoas!

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Agora, que Tiradentes recebeu verbas para refazer o pavimento das ruas de uma parte da cidade, poderiam fazer coisa mais adequada aos tempos modernos, mas o IPHAN quer que as pedras sejam recolocadas, mesmo tendo as bordas cortantes.  A exigência não se coaduna com um mínimo de bom senso!  Não se trata apenas – e nem principalmente – de “recolocar as pedras nos lugares”, mas talvez de trocá-las por algo que permita um melhor nivelamento, uma padronização de medidas para os casos em que sejam necessários reparos, uma excelente sub-base (calculada de acordo com o peso máximo dos veículos – incluindo os de coleta de lixo e de serviços – que poderão circular nessas ruas, caimento lateral para assegurar uma drenagem apropriado e maior durabilidade dos serviços, pontos de acesso à infraestrutura que for instalada ou renovada (rede de esgotos, águas pluviais, cabos elétricos e outros, etc).

Para isso, não é preciso reinventar a roda, apenas abrir ou modernizar as mentes das autoridades encarregadas da proteção do patrimônio arquitetônico.

O non sense é ainda maior quando se sabe que na mesma Tiradentes há uma praça projetada por Burle Marx em 1989: o Largo das Forras, inaugurado em 1990, quando o paisagista recebeu o título de cidadão honorário da cidade, na comemoração de seus 80 anos.  Todos os elementos usados no piso que se vê abaixo – seixos, arenito e ardósia – foram feitos com materiais típicas da região.

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Já no centro histórico do Rio de Janeiro, na área conhecida e em seus arredores, foram feitas diversas intervenções nas calçadas com características semelhantes àquelas adotadas nas cidades medievais italianas.   Nas fotos abaixo, à esquerda, um trecho onde a sub-base foi bem preparada; na imagem à esquerda, um trecho onde se mantiveram as pedras e a sub-base foi feita que nem o nariz da empreiteira que realizou o trabalho.

 

Rio trabalho mal feito1

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Já é tempo do IPHAN e de órgãos estaduais de tombamento reverem os seus conceitos!

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Uma imagem do esquema de pavimentação das vias romanas há 2.000 anos e que encontram-se estáveis até os dias de hoje pode ser vista abaixo, com referências históricas aqui.  É mais fácil caminhar na Via Apia, hoje, do que numa dessas cidades históricas brasileiras.

Pavimentação romana