Floresta da Tijuca – O Bom, o Mau e o (Muito) Feio

A restauração e reforma do Açude da Solidão no Parque Nacional da Floresta da Tijuca foi uma excelente iniciativa.  Ninguém sabe qual a destinação da imensa quantidade de areia dragada do fundo do açude – areia com valor comercial -, mas esse tipo de sonegação de informação é mais a regra do que a excessão.  Fora isso, dois pontos merecem destaque.  O primeiro é que ainda faltam mais bancos e locais para que as pessoas realmente desfrutem da tranquilidade do local.  O segundo é que ficou claramente demonstrado – dentro de um Parque Nacional! – que a regra da “área de preservação permanente” às margens de reservatórios naturais e artificiais é uma tolice arrematada.

A alegação dos defensores dessa regra otária sempre foi a de que a manutenção da vegetação nativa é o único caminho para a estabilização das margens de rios, lagos, lagoas e reservatórios.  Isso contra toda a experiência existente no Brasil e, muito mais, no exterior.

 

Açude da Solidão - Plantas na Contenção.webpequena

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A foto abaixo mostra uma das melhores técnicas de contenção dos processos erosivos, amplamente adotada nos países sérios, em particular em lagos e lagoas.

Ah – mas se um proprietário privado tenta fazer algo assim aqui, logo aparecem os “ambientalistas” e algum promotor de mentalidade mais “literal” – sem qualquer conhecimento técnico ou capacidade de buscar uma opinião especializada – para impedir, bloquear, processar até mesmo os especialistas do setor público que tenham concedido a autorização, num verdadeiro ataque de hidrofobia.

 

Açude da Solidão - Contenção das Margens com Talvegue.webpequena

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O pontilhão abaixo – feito com estrutura de concreto, pedras e madeira (não necessariamente certificada, um requisito igualmente tolo quando uma árvore tombou naturalmente ou mesmo alcançou a sua plena maturidade) obedeceu a um projeto um tanto exagerado – podia ser algo mais leve, com algum senso arquitetônico -, mas merece elogios.

 

Açude da Solidão - Pontilhão.webpequena

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Há, no entanto, constrastes bastante marcantes com essas melhorias, entre os quais o total abandono da edificação onde durante muito tempo funcionou o restaurante Cascatinha, edificação situada no local original da residência de Nicolas Antoine Taunay.  Uma lástima, ainda que um abandono não maior do que os marcos em homenagem a Taunay e ao Barão d’Escragnolle, o mapa da floresta feita com ladrilhos portugueses que se encontra na área do estacionamento em frente ao antigo restaurante, ou mesmo a lindíssima banheira em mármore de Carrara.

 

Restaurante Cascatinha - Prédio Abandonado.webpequena

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Numa demonstração do desinteresse pela estética da Cascatinha e do Parque, ao lado da queda d´água há uma horrenda instalação da CEDAE (ops, da “Nova” CEDAE), que poderia simplesmente ser oculta com alguma pequena edificação em pedra com uma entrada pela parte não visível para os visitantes.

 

Cascatinha CEDAE.webpequena

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O tipo de sinalização colocado bem diante da Cascatinha é outra demonstração do descaso com o bom senso e a estética do local.

Sinalização na Cascatinha.webpequena

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Porém,  maior do que todas as agressões à paisagem como as citadas, destaca-se a horrenda sinalização ao longo de todo o longo percurso de um cabo de alta tensão colocado às margens das vias de circulação de pedestres e veículos.

 

Sinalização cabos de alta tensão.webpequena

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Desnecessários outros comentários sobre esse emporcalhamento do Parque, fruto do descaso, do desrespeito aos visitantes e da falta de cultura de seus administradores.

O Parque precisa de um novo Escragnolle e de outro Raimundo Castro Maya.

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Aliás, quanto se pretende arrecadar anualmente com a concessão dos serviços de acesso ao Cristo Redentor e quais os planos de aplicação desses (certamente vultosos) recursos?

Fora isso, quanto recebe o Parque pela existência das 10 horrendas torres de sustentação de antenas variadas que poderiam ser no mínimo disfarçadas na paisagem que agridem?

 

 

 

A Floresta da Tijuca Abandonada – VI

Em 1943, o prefeito Henrique Dodsworth convida Raymundo Ottoni de Castro Maya para fazer a “remodelação” da Floresta da Tijuca.  Oriundo de uma família abastada, Castro Maya trás para o Brasil o conceito de uma remuneração apenas simbólica de “um cruzeiro por ano”, pagando de seu bolso os 60 homens que com ele trabalham e sendo posteriormente reeembolsado pela prefeitura.

Abandonando os seus afazeres pessoais, entre 1943 e 1946, Castro Maia coordena a realização dos seguintes trabalhos, entre outros: (a) remodelação da ponte Job de Alcântara e construção da represa e do lago, (b) ampliação da Praça da Cascatinha, colocação da ponte, de grades e do painel de azulejos, (c) reconstrução da Capela Mayrink, onde foram colocadas as pinturas de Cândido Portinari, (d) implantação de um playground na Praça Mayrink, (e) reconstrução completa da antiga casa do Barão de Escragnolle, transformada em grande restaurante com jardim, (f )cabo subterrâneo para lovar força e luz ao novo restaurante numa extensão de 1.200 metros, com subestações transformadoras, (g) reforma completa do Açude da Solidão, transformado em lagos com jardins (projetados por Burle Marx), (h) reconstrução de uma represa e colocação de 800 metros de tubulação de ferro para evitar a contaminação das águas do Açude da Solidão, (i) reconstrução da casa A Floresta, transformada em pequeno restaurante que funcionou a partir de 1944, (j) reforma completa e construção do sítio Bom Retiro, com playground e bar, (k) reforma do local denominado “Excelsior”, canalização de ferro para levar água ao local e construção de duas casas novas para guardas, (l) reconstrução da casa denominada A Fazenda, transformada em duas casas de residências para guardas e abertura de uma nova gruta no mesmo local, (m) restauração e conservação de 16 km de estradas e outros 16 km de caminhos.  Também foram implantados pontilhões, muralhas de contenção e sistemas de drenagem com bueiros (o que conserva as estradas em bom estado, apesar das chuvas intensas).

Felizmente não existia, então, o IBAMA, o Instituto Chico Mendes ou outros que nunca fariam essas coisas por serem quase totalmente avessos à visitação pública dos parques nacionais e estaduais, ou por simples desinteresse do poder público em dar uma destinação minimamente sensata a essas unidades de conservação!  De toda forma, os trabalhos desenvolvidos por Castro Maya na Floresta poderiam e deveriam servir de inspiração para o que se pode fazer em outros parques nacionais e estaduais, se essa vontade existissse.

Ao final dos trabalhos, Castro Maya orgulhava-se da Floresta estar sendo visitada por 5.000 pessoas em cada fim de semana.  Ninguém se preocupou em reeditar o livro de autoria do empreendedor dessas maravilhosas obras que permitiram e estimularam a visitação da área, intitulado A Floresta da Tijuca (edições Bloch, Rio de Janeiro, 1967), com fotografias de Humberto e José de Moraes Franceschi.

Em 1970, é feita outra restauração da Capela Mayrink, com a colocação de uma placa otária citando nomes e cargos de “autoridades” – coisa que Castro Maya não pensou em fazer.  Em 2013, a pintura externa da Capela encontra-se bastante desbotada.

 

Capela Mayrink.webpequena

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Já o marco em homenagem ao Barão d’Escrangnolle, segundo administrador da Floresta e que nela plantou mais de 80.000 árvores durante 9 anos, está tão caído quanto o marco em homenagem a Taunay.  E foto abaixo dispensa comentários.

 

Marco Escrangnolle e Casado.webpequena

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Pior que tudo é a dragagem escondida que está sendo feita no Açude da Solidão.  Tão escondida que fecharam o acesso depois que a imprensa foi lá perguntar.  Para onde será que vão os sedimentos que estão sendo retirados?  Que volume?  O paisagismo do Burle Marx está sendo preservado?  Ou a coisa é clandestina?

 

A Floresta da Tijuca Abandonada – III

Não são apenas os gradis da Mesa do Imperador que se encontram completamente deteriorados.  Na Cascatinha Taunay, certamente o primeiro ou segundo ponto mais visitado de todo o Parque Nacional, a situação não é diferente, como se vê abaixo.

Corrimão Cascatinha.webpeqeuna

 

 

 

 

 

 

 

 

(O pior da Cascatinha Taunay ainda é o desvio de suas águas pela CEDAE, com o seu eterno desprezo por questões ambientais, mas esse é outro assunto, de solução tão remota quanto os insanáveis problemas de coleta e tratamento de esgotos em sua área de concessão.)

Esse tipo de abandono – que pode causar ferimentos nos visitantes, em particular nas crianças – talvez seja mais preocupante ainda quando se trata da estrutura da Vista Chinesa.

Corrimão Vista Chinesa.webpequena

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O matagal logo abaixo é no mínimo divertido, sobretudo em se tratando de um Parque Nacional.  Novamente, é essa a turma que pretende “tomar conta” de reservas legais e de áreas de preservação permanente nas propriedades privadas?

Pode-se dizer – como é hábito do poder público no Brasil – que os ‘culpados” são os visitantes que ali apoiam o pé.  Mas não é, como mostra o estado dos bancos em alguns trechos – poucos ainda.

Vista Chinesa - Junta.webpequena

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A boa notícia foi a decisão da Prefeitura do Rio de retirar as horrorosas lixeiras abóboras por outras, um pouco maiores, com o padrão verde-escuro utilizado nas cercanias do patrimônio arquitetônico – como o Teatro Municipal e o Centro Cultural Banco do Brasil.

Em breve, notícias sobre a última reforma de vulto feita na Floresta da Tijuca, antes que ela fosse transformada em Parque Nacional.

 

A Prefeitura do Rio Trabalhando Para Enfeiar a Cidade – Making Rio Ugly

A Prefeitura do Rio de Janeiro deve ter um “Serviço de Enfeiamento do Patrimônio Arquitetônico e das Paisagens” para colocar na Vista Chinesa, dentro do Parque Nacional da Floresta da Tijuca, lixeiras tão horrorosas e pouco eficientes como as que foram introduzidas na cidade pelo ex-prefeitículo Cesar Maia.

Pouco eficientes porque muito pequenas e mal desenhadas para a colocação ou a retirada do lixo.  E feias demais, em particular pela cor que ofende,  no caso, a estupenda paisagem (além de enfeiar o dia a dia dos cidadãos e visitantes – dizem até que esse uso da cor causa câncer de retina.

Vista Chinesa
A Vista Chinesa aos Olhos da Prefeitura do Rio de Janeiro
Agora que a Companhia de Limpeza Urbana do Rio de Janeiro resolveu trocar as feias lixeiras já ali instaladas há alguns anos por outras igualmente feias – a feiúra reluzente -, talvez essas imagens ajudem alguma área do poder pública encarregado do patrimônio histórico a pensar em outro modelo, menos ofensivo ao bom gosto e mais prático.