Mega-Seca e Incêndios Florestais na Califórnia – Um Alerta Adicional: O Futuro Chegou

Nestes dias, na Califórnia em decorrência de incêndios florestais fora de controle e que ontem – domingo, 13/9/2015 – já havia devastado 250.000 hectares e incendiado um número estimado de 500 casas nas primeiras 12 horas.  Esse é um dos resultados do 4° ano de seca no estado, já considerada uma das mais severas dos últimos 100 anos, e que levou o governo a decretar estado de emergência.

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Colapso de Água e de Energia X Soluções Inovadoras

As autoridades públicas brasileiras, em todos os níveis de governo, parecem atordoadas ou perdidas na mesmice diante da crise e riscos de colapso no abastecimento de eletricidade e de água no país (neste caso, com maior ênfase em algumas regiões envolvendo os estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais).

Não deixa de ser divertido ver os ministros da área econômica falando em controle da inflação e em retomada do crescimento como se essas duas crises sequer existissem, ainda que elas tendam a colocar em risco o conjunto da economia e mesmo a colocar em grave risco a ordem pública.  Essas autoridades parecem pensar apenas dentro das caixinhas dos fluxos financeiros, do equilíbrio das contas públicas via aumento nos impostos, do controle do consumo de energia e de água via penalidades tarifárias, e por aí afora.

Mais do mesmo não vai levar o país a lugar nenhum! – exceto, talvez, ao caos e ao colapso.

E se as autoridades setoriais e todos os níveis de poder se unissem, por exemplo, para acelerar a implantação de um programa consistente de micro geração distribuída de eletricidade, com foco na energia fotovoltaica, como fizeram e continuam fazendo vários países cuja ênfase na na segurança energética, não se limitando ao arroz com feijão da geração hidrelétrica ou térmica (incluindo a nuclear, uma excelente opção que países como o Japão não podem mais aceitar e que causa apreensão nos EUA em decorrência da localização em regiões costeiras)?

Não há uma responsabilidade apenas federal na crise de energia.  Estados e municípios podem fazer muito pela geração distribuída, como também na definição de padrões de eficiência energética nas edificações… desde que as autoridades econômicas – em todos os níveis  (mas em particular o ministro Joaquim Levy) –  não achem que os aumentos de tributos devem incidir da maneira indiferenciada sobre, por exemplo, painéis solares e cremes de beleza.

O mesmo raciocínio vale para a crise de água.  E se as mesmas autoridades se unissem para desencadear uma grande ofensiva voltada para o reuso da água em sua plenitude, além da mesmice das multas, elevações de tarifas ou mesmo proibição de alguns usos, como ocorreu em cidades da Califórnia, do Texas, e na Austrália.

Há muita coisa boa a fazer na gestão dos recursos hídricos além de campanhas publicitárias medíocres e de declarações não menos tolas, como a presidente da Copasa ao fazer de conta que uma redução de 30% no consumo na região metropolitana de Belo Horizonte era um passo importante… adiando o colapso no abastecimento de 3 para 4 meses.

No atual quadro de escassez de água, não faz absolutamente nenhum sentido o lançamento de esgotos coletados – tratados ou não – nos oceanos, através de emissários submarinos ou mesmo em rios que simplesmente  desaguam no mar.  Na Alemanha, há décadas, capta-se água dos rios para fazer a recarga dos lençóis freáticos, prática que já vem sendo adotada na Califórnia com a água de estações de tratamento de esgotos (com níveis de tratamento muito superiores aos brasileiros).

É altamente recomendável que todos se unam em torno de propostas e na implementação de soluções em lugar de ficarem tentando obter respostas através das concessionárias de água e esgoto… que não as têm.  Ou apontar o dedinho para o céu e dizer que “tudo depende de São Pedro” ou que “Deus é brasileiro” – cretinamente.

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Se as autoridades – inclusive as econômicas -, a iniciativa privada (diretamente ou através de suas representações setoriais como  Fiesp, Firjan e Fiemg), as associações de engenheiros e outras quiserem fazer algo de inovador na área de gestão de recursos hídricos sem ter que começar do zero – talvez possam encontrar maneiras de aproveitar a experiência alheia enviando delegações à Conferência de Reuso Comercial e Industrial de Água que ocorrerá nas próximas semanas, no Texas.  E/ou ao XXX Simpósio Anual de Reuso de Água (isso mesmo, 30°, 30 anos consecutivos) que se realizará em Seattle, em setembro.

Vale, também, buscar a cooperação técnica com as associações de reuso de água dos EUA, ou da Alemanha ou da Austrália, ou todas.  Com esse tipo de cooperação, será possível obter importantes subsídios técnicos e normativos.

O que não dá é para continuar pensando apenas em grandes obras, que é o que as concessionárias de serviços de água e governantes sempre gostaram.

Porque são muito grandes as chances de que tenhamos que nos adaptar a uma nova realidade climática, como já estão fazendo esses países que não se recolhem à negação do óbvio – aquilo que todos os grandes centros de meteorologia do mundo estão dizendo há anos, e cada vez mais.

 

 

Ciclos de Seca – Califórnia X São Paulo

Monitor da Seca nos EUA” é o nome de uma iniciativa conjunta de diversas instituições norte-americanas, entre as quais a Administração do Espaço e da Atmosfera que, com vários satélites, tem um dos melhores sistemas de previsão do tempo e do clima do país.  O sistema de informações sobre a seca foi criado em 1999 e conta com a participação do Departamento de Agricultura (equivalente ao nível ministerial no Brasil), do Centro Nacional de Mitigação da Seca, com uma galeria de fotos que merece ser vista por aqueles que não querem se aprofundar muito no tema.  Ambas as iniciativas contam com a participação de centros de pesquisa acadêmicos, que hospedam as páginas na internet.  Coisa de país sério.

Há poucos dias, o Monitor da Seca dos EUA mostrou que cerca de 80% do território da California encontra-se em situação de seca severa ou extrema.  O ano passado – 2013 – já havia sido o segundo ano mais seco da Califórnia desde o início dos registros históricos, em 1840.  E as autoridades da área de meteorologia não se atrevem a dizer por quanto tempo a seca pode se prolongar – já que o estado teve períodos extremamente úmidos.

Mas já existe uma nova ciência, a paleoclimatologia, que estuda os ciclos climáticos a partir das rochas, sedimentos, conchas, microfósseis, árvores e outras fontes.  E a professora Lynn Ingram, do Laboratório de Geoquímica Sedimentar e Meio Ambienta da Universidade de Berkeley, afirma que a California nunca esteve tão seca desde 1580 e que o que parece uma situação excepcional pode se tornar numa “nova normal”.  A professora Ingram é coautora do livro “O oeste sem água: o que as enchentes, secas e outras informações climáticas podem nos dizer sobre o futuro“.

“Se você retornar no tempo alguns milhares de anos, verá que as secas podem durar anos, senão décadas, e que ocorreram períodos de seca que duraram cerca de um século, como na Idade Média e no Holoceno” (que na escala geológica do tempo iniciou-se há 11.500 anos e estende-se até o presente).

Para descrever grandes enchentes, Lynn Ingram usa uma linguagem fascinante, como a expressão “rios atmosféricos”: “é quando uma enorme quantidade de umidade vinda dos trópicos atravessa o oceano Pacífico ao longo de milhares de quilômetros até a costa Oeste dos EUA trazendo chuvas equivalentes a – digamos – 10 rios Mississippi.  Durante dois ou três dias as chuvas são extremamente fortes.  Todas as grandes enchentes na Califórnia resultaram desses rios atmosféricos.  A última dessas enchentes – em 1861-1862 – foi realmente imensa e inundou completamente o Vale Central com cerca de 3 metros d’água.  A cidade de Sacramento (capital da California) ficou totalmente debaixo d’água.”

Nos EUA, o Serviço de Observação Geológica coordenou os estudos de 100 cientistas ao longo de dois anos para simular as perdas econômicas na Califórnia em caso de uma nova cheia dessas proporções.  Ao final, denominou o estudo e a correspondente modelagem como ArkStorm e estimou que uma nova cheia como as ocorridas no passado (a última em janeiro de 1969) causaria perdas de cerca de US$ 300 bilhões.

Enquanto isso, no Brasil, quem fala sobre a gravíssima situação do abastecimento d’água em São Paulo é a SABESP.  E trata o assunto como um tema político-eleitoral, fingindo que não há riscos de racionamento, como já ocorre, de maneira severa, na Califórnia.  Não chegam sequer a propor um bom programa de reuso de água pelas indústrias e até mesmo comunidades, bairros, NA-DA.  Só falam no “volume morto” e fazem chamanismos, com bombardeamento de nuvens.

Da mesma forma, a hidrovia Paraná-Tietê tem o tráfego de embarcações interrompido e tudo o que se pensa e afirma é que há necessidade de novas obras e que elas dependem de licenciamento ambiental.   O preço da preço da energia aumenta de maneira imprevisível e nada, nem uma palavra dos serviços do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE ou iniciativa de um trabalho conjunto com o Serviço Meteorológio da Marinha.  Abulia, omissão, ou proibição mesmo de esses órgãos se manifestem (como fez George W. Bush com a NASA no quesito mudanças climáticas)?

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No estado do Rio de Janeiro, anuncia-se o lançamento de um Mapa de Ameaças Naturais, notícia de muitos órgãos de imprensa.  O trabalho, iniciado ao final de julho de 2012, tinha previsão inicial de seis meses para a conclusão.  Ou faltaram recursos ou a opção foi pelo anúncio em tempos de eleição.  De toda forma, é bastante estranho que na página da Secretaria de Estado de Defesa Civil do Rio de Janeiro não conste absolutamente nada sobre o assunto e, é claro, nenhum informação sobre a metodologia utilizada (ainda que fosse a usual observação visual após os acontecimentos).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Crise de Abastecimento de Água em São Paulo – O Papel da SABESP

Neste momento – 17/09/2014 -, o racionamento de água afeta 142 municípios em 11 estados brasileiros.   E não apenas no Nordeste, segundo um levantamento da Folha de São Paulo.  A seca – ou falta d’água distribuida pelas concessionárias dos serviços – afeta municípios de Minas, São Paulo e outros.

A crise de abastecimento de água na Grande São Paulo levou a SABESP a propor aos municípios – que são o poder concedente dos serviços de água e esgoto – a aplicação de penalidades aos consumidores pelo “desperdício de água”.  Até aí, nada de errado, em particular se a SABESP estivesse cuidando com afinco de seus próprios desperdícios – técnicos e comerciais -, que são imensos e cuidadosamente sonegados da população.

A empresa anunciou o “bombardeio de nuvens” para fazer chover – uma espécie de pajelança – e a avaliação da possibilidade de investir no bombeamento da água do fundo dos reservatórios, o que demandará novos investimentos na captação de água.

E recomenda aos municípios – que são o poder concedente – a punição dos usuários que desperdiçarem água.  Aí já, atinge-se o cinismo deslavado, com a transferência das responsabilidades políticas.  Fora o que, está na moda culpar os usuários pela péssima qualidade dos serviços públicos concedidos.

A empresa anuncia, também, a construção de novas barragens, mas é lenta em relação à implantação de programas de reuso das águas provenientes de suas estações de tratamento de esgotos – ETEs – e totalmente omissa em relação ao incentivo ao reuso interno de água pelos consumidores industriais e comerciais.  Prefere obras, mesmo.  E joga para o futuro a solução do problema.

Aos fatos:

Em 2001/2002, a empresa alardeou a contratação de um estudo de viabilidade técnica e econômica para o reuso das águas das ETEs da região do ABC, ou seja, o reuso dos esgotos tratados para o abastecimendo de indústrias.  O estudo completo jamais foi disponibilizado aos cidadãos e empresas potencialmente interessados no assunto, ainda que apenas por uma questão de exercício da cidadania ou da formação dos profissionais do setor.

Só em 2012 começou a operar o primeiro grande sistema de reuso, de uma estação de tratamento da  SABESP para um pólo industrial na região do ABC.  Para implantar esse primeiro projeto, a SABESP optou por ter uma empreiteira como sócia-intermediária.  Sem necessidade, já que os investimentos nesse projeto devem ter sido pífios diante do orçamento total de investimentos da SABESP.  Nada se falou sobre o processo de seleção dessa empreiteira para a constituição de uma sociedade de propósito específico, e ainda menos sobre a equação financeira e a alocação de riscos entre os sócios.  Bom assunto para o Ministério Público de São Paulo.

Fundamentalmente, a iniciativa é boa do ponto de vista da eficiência no uso da água e poderia/deveria se estender a outras regiões metropolitanas do Brasil.   Duas questões ficam sem respostas: (a) se nesse único projeto foi possível economizar água equivalente para abastecer uma cidade de 300.000 habitantes, por que não divulgar os resultados dos estudos de viabilidade para as demais ETEs da região do ABC, e (b) por que outros projetos semelhantes, já avaliados no estudo de 2001, não foram implantados?

A participação privada é certamente bem-vinda, dada a grande ineficiência das empresas estatais de saneamento no Brasil – ainda que com variações.  Mas, em monopólios naturais, como é o caso dos serviços de água e esgoto, a presença atenta e eficiente do poder público é indispensável e ocorre em qualquer lugar do mundo.

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Infelizmente, o governo federal descontinuou um sistema de avaliação sugerido pelo Banco Mundial e adotado na década de 1990 com o nome de Programa de Modernização do Setor de Saneamento – PMSS.  Entre outras coisas, o PMSS sistematizava informações sobre as perdas técnicas e comerciais das concessionárias de água e esgoto no país, altíssimas.  Vale visitar a página do PMSS antes que ela seja “retirada do ar”.  As concessionárias de água não gostavam muito de ver divulgados os seus indicadores de perdas no sistema.

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O Brasil não tem um programa consistente – isto é, compreensível e viável – de eficiência no uso da água, da mesma forma que acontece no setor elétrico.  As concessionárias fazem o que bem entendem, e preferem gerar, transmitir, vender, do que investir seriamente naquilo que já na década de 1980 os norte-americanos denominavam “gerenciamento da demanda”.  Ao contrário do bom senso e do interesse público, as concessionárias dos serviços de água e esgoto fazem o possível para dificultar ou mesmo impedir o reuso no interior das indústrias, shoppings, supermercados, edificações corporativas e mesmo residenciais.  E os órgãos de meio ambiente fingem que não têm nada com isso.