Reciclagem de Concreto e o Caso da Perimetral no Rio de Janeiro

Só nos EUA,  140 milhões de toneladas de concreto são recicladas anualmente.  Ao contrário do Rio de Janeiro, onde a reciclagem de concreto tem sido feita à luz do dia mas de maneira discreta – sem publicidade que possa despertar atenções para alguma fonte de lucro não contabilizada -, a indústria da construção civil norte-americana há muito constituiu uma Associação de Reciclagem de Construção e Demolição. A revista da Associação encontra-se disponível online e traz informações sobre avanços tecnológicos, novos contratos, e tudo o mais que é relevante para as atividades do setor.  O volume total de reciclagem de materiais de demolição – incluindo aslfato, madeira, paredes de gesso e outros – já atinge a casa de 350 milhões de toneladas/ano. A reciclagem de concreto é um negócio lucrativo, em particular quando o seu uso se dá nas proximidades dos locais de demolição, evitando o custo do transporte.  E com grandes benefícios em termos de custos sociais, já que evita que esses materiais sejam levados para aterros sanitários.  Além de todos os custos ambientais, é claro.

Para a região portuária do Rio de Janeiro, onde o gerenciamento das obras foi entregue a um consórcio de empreiteiras mediante uma parceria público-privada (PPP), existe, em tese, um Projeto de Gerenciamento de Resíduos da Construção Civil para Obras de Infraestrutura.

“Em tese” porque o documento – finalizado em setembro de 2011 – não faz qualquer referência à reciclagem dos materiais de demolição do Elevado da Perimetral, estimados em 56,5 mil m3 de concreto, 13,5 mil toneladas de vigas metálicas e 8,4 mil m3 de asfalto (página 37).  Ao contrário, menciona o transporte dos resíduos por caminhões com “carrocerias cobertas por lonas” (página 53 do documento aberto em PDF).

Então, a questão que se coloca é: esses imensos volumes de resíduos reutilizáveis estão realmente sendo transportados para aterros e, em menor escala, para “cooperativas de catadores”, gerando um custo, ou estão sendo reciclados, gerando um lucro?

Não há indícios de uma enorme quantidade de caminhões caçamba levando os materiais de demolição da Perimetral para longe dali.  O mais provável é que esteja sendo utilizado na área portuária mesmo.  Neste caso, há que rever os processos contábeis – de valores – das obras feitas no quadro dessa parceria-público privada com o consórcio de empreiteiras já que o material de demolição da Perimetral continua deverua ter sido considerado como um ativo, isto é, um bem com valor.  E mais, parte do patrimônio público.]

Afinal, perguntar não ofende….

Vale dizer que o bom uso desse material envolve – além de uma receita para as empreiteiras -, um custo-evitado que seria pago no caso de sua deposição num aterro sanitário, além de um grande benefício ambiental considerado o prolongamento da vida útil do aterro.

Recentemente, o governo de São Paulo fez uma concorrência para a retirada e reciclagem de cerca de 45.000 veículos cujo abandonados que serão reciclados, ao menos em parte, pela indústria siderúrgica.   A empresa vencedora da concorrência ofereceu um pagamento por cada veículo abandonado.

E no Rio de Janeiro, o material proveniente da demolição da Perimetral está sendo reciclado ou contabilizado como custo das obras de revitalização da zona portuária?

***

A pergunta que não quer calar: cafetinar, durante uma década, a formação de “cooperativas de catadores”, é mais adequado para a captação de votos de um projeto de subdesenvolvimento da gestão ambiental do que investir na geração e transferência de tecnologias como essas?

 

Sustentabilidade Corporativa e Geração de Resíduos

Sustentabilidade e responsabilidade socioambiental das corporações é o tema, desde o mero slogan até algumas iniciativas muito interessantes.  Mas acreditar que as corporações e o livre-mercado substituirão os governos na resolução das questões básicas relacionadas à gestão ambiental num plano maior parece não passar de necessidade de ter esperança, para não falar da crescente dependência financeira das ONGs ambientalistas.

Aos fatos!

Nem mesmo as corporações que lidam com a alta tecnologia e baixo consumo de materiais conseguem i além de seus próprios limites, e um bom exemplo disso são os fabricantes de telefones celulares e smartphones.  A fabricação de baterias demandam minerais raros e ainda assim elas nem tentam padronizá-las para evitar que sejam descartadas juntamente com os aparelhos.

De acordo com a EPA, em 2010 foram descartados 152 milhões de telefones celulares nos EUA, dos quais apenas 11% foram reciclados.  Descarta-se a bateria e o carregador juntamente com o circuito e a e invólucro plástico.  Ninguém tem notícia de que um fabricante de celulares tenha deixado de lado, por um momento, a competição pelo mercado e procurado os demais para um acordo sobre a padronização de baterias e carregadores, ainda que não apenas num único modelo, mas em três ou quatro, como aconteceu no passado com as pilhas.  Isso evitaria uma boa quantidade de descartes.

O mesmo relatório da EPA informa que no mesmo ano foram descartados 82 milhões de teclados e mouses, dos quais apenas 10% foram reciclados.  Um mínimo de atenção ao design e padronização poderia facilitar imensamente a substituição dos componentes, ou sua limpeza.  Mas que fabricante desses periféricos vai gastar tempo com uma coisa dessas, quando é bem mais fácil doar para algumas ONGs o valor passível de dedução no imposto de renda?

Vale não sonegar que a própria reciclagem tem um custo ambiental, isto é, um custo em transporte, energia, água e outros insumos.

No próximo mês de agosto, a lei que instituiu a política nacional de resíduos sólidos no Brasil completa dois anos, depois de se arrastar no Congresso por uma década ou mais.  Uma boa parte da lentidão se deu em decorrência da reação das corporações à responsabilidade compartilhada pelo destino final dos resíduos.  A resistência seria menor se o mercado fosse segmentado, mas os crentes nos “códigos” insistem na visão de que eles resolvem os problemas, apesar de conterem apenas diretrizes, e não metas, prazos, procedimentos para implementação e avaliação periódica, nada.

Vejamos, então, a experiência internacional e, mais especificamente, a prática alemã.

Na década de 80, foi regulamentada a responsabilidade do comércio de bens de consumo sobre as embalagens de maneira muito simples: os compradores ou usuários finais deveriam dispor de um ponto para descarte das embalagens no próprio local da compra.  Nada dessa tolice usual brasileira que “entra em vigor na data de sua publicação”, mas como a iniciativa era bem simples, o prazo não foi longo.  Logo foi possível identificar as embalagens mais inúteis e mais desinteressantes para os consumidores, como as então padronizadas embalagens de plástico de CDs e DVDs. Que rapidamente desapareceram.  Ou seja, com um pequeno toque de regulação, o mercado se desfez de um material que aumentava o custo ambiental e o preço dos produtos, e que inevitavelmente terminaria no lixo.

O que é melhor: comemorar a alta taxa de reciclagem ou ter menos materiais para reciclar.

Muitos anos depois, o Ministério do Comércio da Inglaterra notificou fabricantes de brinquedos de que seu entendimento era de que os consumidores estavam sendo enganados ao comprarem um pequeno bonequinho de não mais de 10 cm com uma embalagem que três vezes mais do que o produto.  A iniciativa foi resultado das preocupações com o esgotamento de áreas para aterros sanitários.

Voltando à Alemanha, na mesma época em que se fez a primeira regulamentação simples sobre descarte de embalagens, uma regra bastante rigorosa obrigou os fabricantes de automóveis a retirarem de circulação as unidades abandonadas ou que tivessem atingido o fim de suas vidas úteis, não importando o país de fabricação.  A primeira reação desses fabricantes foi extremamente negativa, com a suposição de que isso aumentaria os preços.   Logo a indústria reagiu fabricante veículos com menor número de materiais e com design que facilitava a desmontagem – e, portanto, a substituição de peças.

Duas são as possíveis conclusões.  De um lado, que as corporações não têm – e nem podem ter – a visão do conjunto da sociedade, cabendo aos governos tomarem iniciativas regulatórias factíveis. Do outro lado, essas iniciativas não precisam se dar sob a forma de “códigos”, mas podem e devem ser mais simples e conter diretrizes claras para assegurar a sua aplicabilidade, com metas, prazos, procedimentos e critérios de avaliação periódica.  Sem isso, ficaremos no pensamento mágico que leva tudo aos tribunais – que julgam caso a caso, desconsiderando a jurisprudência (ah, o ego latino).

O mito da corporação dedicada à sustentabilidade não se sustenta, exceto quando se refere a aspectos que lhes interessam até mesmo financeiramente.

***

Parabéns ao Ministério das Cidades por ter aprovado linha de crédito para o mais avançado sistema de processamento de resíduos urbanos já proposto no Brasil, que envolve aeração forçada ou biodigestão aeróbia.  O sistema foi trazido da Alemanha por dois empresários paranaenses visionários e corajosos, que enfrentaram as muitas reações locais dos grupos interessados nos usuais aterros sanitários centralizados, com custos de transporte cada vez mais elevados.

O Ministério das Cidades mostrou-se mais ágil que o Ministério do Meio Ambiente!  Caberá a ele apoiar a disseminação dessa tecnologia, incomparavelmente mais próxima do conceito de sustentabilidade do que os antiquados aterros sanitários.

***

O Brasil precisa aprender a ser conduzido pela melhor tecnologia e não pelo custo financeiro inicial mais baixo.  Se a 8.666 fosse uma boa lei de licitações, ela seria usada em outros países!

 

Por que a atual proibição de sacolas plásticas ainda não resolve nada

Por Raquel Valentini

Em 2009, no Rio de Janeiro, promulgou-se uma lei que proíbe o uso de sacolas plásticas nos estabelecimentos comerciais do estado, determinando a coleta e a substituição dessas sacolas por outras de material reutilizável. A mesma lei está sendo pensada por outras cidades e estados. Seria uma boa iniciativa se fosse acompanhada de intenções honestas e aplicáveis à realidade brasileira e a favor do meio ambiente brasileiro.

Mas e os outros produtos feitos também de plástico? Muitas pessoas aplaudem a iniciativa, mas continuam consumindo, e a maioria não promove um descarte correto… de PLÁSTICO. E aquele monte de embalagem… de PLÁSTICO, de produtos alimentícios em geral, bebidas, produtos de higiene, brinquedos, utensílios domésticos, objetos de decoração,  que hipocritamente serão carregados em sacolas que não são mais da sua espécie. E como as embalagens e o lixo serão descartados se a separação e reciclagem de lixo ainda não é praticada pela maioria dos brasileiros?

Por trás disso, está a venda das sacolas de lixo biodegradáveis que já são vendidas em muitos estabelecimentos. Acontece que o que chamam de sacolas biodegradáveis (exceto as de origem vegetal, raras de encontrar) são aquelas sacolas plásticas que se fragmentam em pequenos pedaços no meio, deixando de serem visíveis, mas que continuam fazendo os mesmos danos à fauna e a flora por causa da sua composição.

Essa iniciativa não protege os ambientes líquidos (pedaços menores serão ingeridos por animais e sufocarão plantas e animais), mas beneficia o bolso das empresas desses tipos de sacolas graças ao lobby efetuado com sucesso.

Mas o problema que este artigo quer abordar, entre os inúmeros que o envolvem, é o descarte do lixo, literalmente falando:

No Brasil, o sistema de coleta de lixo ainda depende de sacolas. Até mesmo em prédios que possuem seus latões, cada apartamento joga seu lixo em sacolinhas. Diferente de alguns países em que é obrigatório fazer a separação em casa e disponibilizada nas calçadas, em dias marcados, em lixeiras próprias para cada tipo de lixo (amarelo para papeis, caixas, etc., azul para orgânico). Esse é só um exemplo entre inúmeros que existem nos países europeus.

O preço para comprar sacolas de lixo é alto para a esmagadora maioria dos brasileiros que já sofrem com a falta de educação (conscientização) e outros serviços públicos. Para eles resta a alternativa de utilizar sacolas de papel recebidas nos supermercados, e no comércio, como as de pão, que não resistem à umidade até a chegada do caminhão de lixo.

Mas até para a minoria que pode comprar sacos “biodegradáveis” de lixo – quando eles existirem no mercado -,  a falta de educação (ou conscientização) ainda prevalece: abra um saco de lixo alheio e veja quantos outros plásticos, papéis , caixas, embalagens diversas, papel higiênico, lâmpadas, etc. estão sendo jogados fora junto com o lixo orgânico, para ser separado pelos catadores.

A lei é benéfica, no momento, para uma minoria consciente que, enquanto não for modificado o sistema de coleta de lixo, pode aderir à prática de jogar lixo (antes da invenção das sacolinhas) em sacos de papel (desde que sejam resistentes) como era feito antes, em lugar de beneficiarem o lobby das sacolas plásticas biodegradáveis.