São Paulo – Promessas de reuso não saem do anúncio midiático

Em novembro de 2014, o governador Geraldo Alckmin anunciou que, até dezembro de 2015, São Paulo teria duas estações de tratamento de esgotos qualificadas para o reuso na produção de água potável.  Depois disso, nada.

Tratava-se daquilo que se denomina “reuso potável indireto”, ou seja, o tratamento dos esgotos a um nível de pureza que permite o seu lançamento para alimentar as fontes de captação ou para ser direcionado a um reservatório onde análises da água confirmem o seu grau de potabilidade.  Daí, para as estações de tratamento de água.

O que Alckmin anunciou tinha um efeito só “político”?

O tratamento de esgotos para reuso – incluindo o reuso potável direto, isto é, a reintrodução na rede de abastecimento – já não são mais uma novidade há algum tempo em alguns países, como os EUA e Cingapura (que já se planeja para 2060, como se pode ver na página da Agência Nacional de Águas neste último país; lá também se pode ver um croquis sumário de outros exemplos de reuso potável direto ou indireto nos EUA).

Na verdade, a SABESP tem – desde 2002 – estudos para o reuso da água das estações de tratamento de esgotos da região metropolitana, mas eles só saíram do papel com a força do lobby política da Odebrecht/Braskem, que levou à criação do Aquapolo, para abastecimento do polo petroquímico desta última.  E, ainda assim, com zero transparência no que se refere às práticas contábeis.

O que a turma aqui está esperando?  Uma nova e previsível “crise hídrica”?  Ou órgãos como a Agência Nacional de Águas – ANA, Conselho Nacional de Recursos Hídricos – CNRH, Ministério do Meio Ambiente e seus equivalentes estaduais… acordarem, saírem do marasmo?

Os custos de purificação/reuso de água em escala das concessionárias se reduziram tanto nas últimas duas décadas se reduziram tanto que seriam recomendáveis programas de cooperação técnica e de introdução de novas tecnologias como parte das políticas públicas na área de saneamento.  Fazer apenas mais do mesmo não levará o Brasil a avançar muito, se é que o país não está retrocedendo.

 

 

Dissemina-se o uso de água residuais e de escorrimento superficial (chuvas) para a recarga de aquíferos

Dissemina-se o uso de águas residuais – depois de tratadas – e de água de chuva para a recarga de aquíferos subterrâneos, aumentando as disponibilidades e a segurança hídrica.  Essa prática, velha conhecida em países como a Alemanha – onde é fonte de 2/3 do abastecimento público -, acaba de ser objeto de um estudo bastante amplo elaborado pela Academia Nacional de Ciências dos EUA – e publicado pela sua editora, encontrando-se disponível para download gratuito mediante uma inscrição simples que não requer mais do que o endereço eletrônico e uma senha (o campo com o uso a que se destina o download é facultativo).

Para os que interessam pelo assunto – segurança no abastecimento de água -, recomenda-se a leitura ao menos do Sumário Executivo e dos títulos dos capítulos.

Há anos, a Finep, com apoio da CEF e de outros órgãos, vem promovendo bons estudos sobre temas relacionados às alternativas de reuso de esgotos sanitários para diversas finalidades econômicas, e já é tempo de estimular esse tipo de reuso, assegurados bons níveis de tratamento e desinfecção.  Mas, além da linguagem e do formato excessivamente acadêmicos – tais documentos se iniciam com longas listas de nomes de autores -, até agora houve pouca ou nenhuma aplicação prática de suas conclusões.  Ainda assim, já é hora de se considerar a recarga de aquíferos com águas de escorrimento superficial – chuvas – como algo mais sério para aumentar a segurança hídrica, ao mesmo tempo que evita ou reduz enchentes e a subsidência dos solos urbanos, com seus elevados custos para a infraestrutura (como já se pode observar na região metropolitana de São Paulo).

No Brasil, o setor público caminha lentamente – quando caminha – em matéria de gestão de água.  E com pouca ou nenhuma transparência.  Apenas para exemplo, quem quiser folhear a descrição de um programa de US$ 143 milhões (isso mesmo, em dólares) com empréstimo do Banco Mundial no valor de US$ 107 milhões de dólares, pode se divertir.  Trata-se da descrição de uma árvore de Natal, envolvendo uma multiplicidade de órgãos do governo brasileiro (talvez a tal da “base aliada”) e sem que se encontre uma relação de resultados concretos… ainda que a finalização da apresentação do projeto tenha se dado em junho de 2011.  Conta a lenda que no quadro do projeto foi contratada uma “Política Nacional de Reuso de Água”.  Ou terá sido de esgotos?

Fora isso, vale notar que o Rio de Janeiro, a tal “Cidade Olímpica”, tem desde 2004, um muito bem elaborado decreto que regulamenta a retenção de água de chuva quando a houver impermeabilização de solos exatamente para evitar enchentes, assegurar a infiltração e recarga do aquífero, e abrir uma porta para o reuso dessas águas… que nunca foi levado a sério.  Ou alguém aí sabe de um conjunto de shoppings, supermercados, estádios de futebol e similares que tenham feito estruturas de retenção da água de chuva na fase de construção ou reforma, como determina o Decreto Municipal de 23.940, de 30.1.2004, que torna obrigatória a retenção das águas de escorrimento superficial e sua potencial utilização para reuso?  É esse o Rio que se diz “cidade resiliente” ou “cidade inteligente” (smart city)?

Não custa lembrar que com as mudanças climáticas as chuvas tendem a ser mais concentradas no tempo e as secas mais prolongadas.  Ou, como dizem os meteorologistas no mundo todo, o que era anormal já passa, aos poucos, a ser “o  novo normal”.  Nesse quadro, estratégias para a disponibilização de reservas de água são fundamentais.  A recarga dos aquíferos brasileiros é mais do que suficiente nas atuais condições climáticas.  Isso não significa que continue sendo por muito tempo, em função da contaminação e da impermeabilização das áreas de recarga.

 

Reuso de Água Avança em São Paulo

As boas notícias na área de gestão de águas são da Sabesp (aqui ou digitando a palavra reuso na área de busca da página da empresa), com avanços na área de reuso dos esgotos de suas estações de tratamento.

Esse processo já vem caminhando há cerca de 15 anos, quando a empresa contratou uma multinacional de engenharia com atividades já consolidadas no Brasil, para uma avaliação das potenciais melhorias a serem introduzidas nas estações de tratamento de esgotos da Região Metropolitana de São Paulo bem como do potencial de reuso para o abastecimento de indústrias.   Continuar lendo Reuso de Água Avança em São Paulo

Regulamentação de Reuso da Água – Excessos e Faltas de Regulamentação

Bobagens têm sido ditas em nome da necessidade de regulamentação do reuso da água.  Inexistem riscos decorrentes da falta de normas!

Na verdade, o maior temor, agora, é que o poder público resolva regulamentar até mesmo o reuso interno da água pelas indústrias e atividades comerciais – até mesmo quando inexistir qualquer contato humano com a água de reuso.  O grande risco é de um excesso de regulação que gere maior burocracia na gestão ambiental. Continuar lendo Regulamentação de Reuso da Água – Excessos e Faltas de Regulamentação

Colapso de Água e de Energia X Soluções Inovadoras

As autoridades públicas brasileiras, em todos os níveis de governo, parecem atordoadas ou perdidas na mesmice diante da crise e riscos de colapso no abastecimento de eletricidade e de água no país (neste caso, com maior ênfase em algumas regiões envolvendo os estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais).

Não deixa de ser divertido ver os ministros da área econômica falando em controle da inflação e em retomada do crescimento como se essas duas crises sequer existissem, ainda que elas tendam a colocar em risco o conjunto da economia e mesmo a colocar em grave risco a ordem pública.  Essas autoridades parecem pensar apenas dentro das caixinhas dos fluxos financeiros, do equilíbrio das contas públicas via aumento nos impostos, do controle do consumo de energia e de água via penalidades tarifárias, e por aí afora.

Mais do mesmo não vai levar o país a lugar nenhum! – exceto, talvez, ao caos e ao colapso.

E se as autoridades setoriais e todos os níveis de poder se unissem, por exemplo, para acelerar a implantação de um programa consistente de micro geração distribuída de eletricidade, com foco na energia fotovoltaica, como fizeram e continuam fazendo vários países cuja ênfase na na segurança energética, não se limitando ao arroz com feijão da geração hidrelétrica ou térmica (incluindo a nuclear, uma excelente opção que países como o Japão não podem mais aceitar e que causa apreensão nos EUA em decorrência da localização em regiões costeiras)?

Não há uma responsabilidade apenas federal na crise de energia.  Estados e municípios podem fazer muito pela geração distribuída, como também na definição de padrões de eficiência energética nas edificações… desde que as autoridades econômicas – em todos os níveis  (mas em particular o ministro Joaquim Levy) –  não achem que os aumentos de tributos devem incidir da maneira indiferenciada sobre, por exemplo, painéis solares e cremes de beleza.

O mesmo raciocínio vale para a crise de água.  E se as mesmas autoridades se unissem para desencadear uma grande ofensiva voltada para o reuso da água em sua plenitude, além da mesmice das multas, elevações de tarifas ou mesmo proibição de alguns usos, como ocorreu em cidades da Califórnia, do Texas, e na Austrália.

Há muita coisa boa a fazer na gestão dos recursos hídricos além de campanhas publicitárias medíocres e de declarações não menos tolas, como a presidente da Copasa ao fazer de conta que uma redução de 30% no consumo na região metropolitana de Belo Horizonte era um passo importante… adiando o colapso no abastecimento de 3 para 4 meses.

No atual quadro de escassez de água, não faz absolutamente nenhum sentido o lançamento de esgotos coletados – tratados ou não – nos oceanos, através de emissários submarinos ou mesmo em rios que simplesmente  desaguam no mar.  Na Alemanha, há décadas, capta-se água dos rios para fazer a recarga dos lençóis freáticos, prática que já vem sendo adotada na Califórnia com a água de estações de tratamento de esgotos (com níveis de tratamento muito superiores aos brasileiros).

É altamente recomendável que todos se unam em torno de propostas e na implementação de soluções em lugar de ficarem tentando obter respostas através das concessionárias de água e esgoto… que não as têm.  Ou apontar o dedinho para o céu e dizer que “tudo depende de São Pedro” ou que “Deus é brasileiro” – cretinamente.

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Se as autoridades – inclusive as econômicas -, a iniciativa privada (diretamente ou através de suas representações setoriais como  Fiesp, Firjan e Fiemg), as associações de engenheiros e outras quiserem fazer algo de inovador na área de gestão de recursos hídricos sem ter que começar do zero – talvez possam encontrar maneiras de aproveitar a experiência alheia enviando delegações à Conferência de Reuso Comercial e Industrial de Água que ocorrerá nas próximas semanas, no Texas.  E/ou ao XXX Simpósio Anual de Reuso de Água (isso mesmo, 30°, 30 anos consecutivos) que se realizará em Seattle, em setembro.

Vale, também, buscar a cooperação técnica com as associações de reuso de água dos EUA, ou da Alemanha ou da Austrália, ou todas.  Com esse tipo de cooperação, será possível obter importantes subsídios técnicos e normativos.

O que não dá é para continuar pensando apenas em grandes obras, que é o que as concessionárias de serviços de água e governantes sempre gostaram.

Porque são muito grandes as chances de que tenhamos que nos adaptar a uma nova realidade climática, como já estão fazendo esses países que não se recolhem à negação do óbvio – aquilo que todos os grandes centros de meteorologia do mundo estão dizendo há anos, e cada vez mais.