Rio + 20 e Países Imaginários

Quem afirma que a Rio + 20 foi um fracasso, mente intencionalmente ou prefere acreditar que alguma coisa poderia ser decidida no Rio de Janeiro, onde os representantes dos países teriam  três minutos cada para falar?  É preciso mentir, ou fazer como a imprensa, que precisa de criar expectativas ainda que para depois tentar encontrar um bode expiatório, mais provavelmente no próprio governo brasileiro.  Jogos de cena, apenas.

Em reuniões desse tipo, os chefes de estado ou seus representantes encontram-se apenas para ratificar as decisões já tomadas antes pela diplomacia.  O encontro do Rio de Janeiro foi precedido de cinco reuniões regionais em 2011 – Chile, Etiópia, Suíça, Coréia, Egito -, além de reuniões preparatórias intergovernamentais, de comitês, e muitas outras.  Todas as tentativas de chegar a qualquer acordo, até mesmo sobre a definição do que seria a tal “economia verde”, já haviam fracassado.  Por que, então, a suposição de que no Rio de Janeiro seria possível chegar a compromissos de financiamento ou metas claras de alguma coisa – mais provavelmente de redução de emissões de gases causadores de mudanças climáticas.

Não havia qualquer razão para supor que os países altamente industrializados financiariam mais do que os projetos usuais nos países subdesenvolvidos, emergentes, em desenvolvimento e similares.  A atual crise financeira serviu apenas como um fator a mais para que fundos ambientais imaginários continuassem como tentativas de pedir mais dinheiro para continuar não mudando nada.  Ou alguém supos seriamente, em algum momento, que os países mais ricos entregariam dinheiro para o governo brasileiro, por exemplo, cuidar da Amazônia, quando esse mesmo governo não consegue prover sequer educação elementar de boa qualidade à população local e do país em geral (“governo”, aqui, no sentido de poder público).

Então, pode-se dizer que o principal resultado da Rio + 2- foi demonstrar que não há acordo possível.  Os empregos ditos “verdes” foram, são e e serão gerados em países que investem massivamente em inovação tecnológica e em eficiência.   Com diversos graus de avanço, esses mesmos países investem, hoje, naquilo que denominam “sociedades de transição”.  Eles já não têm dúvidas de que (a) as mudanças climáticas são irreversíveis (independente do que possam dizer os cientistas alagoanos, contra o parecer do próprio Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais*) e (b) a sociedade de consumo está se aproximando de um colapso – mudanças muito profundas, tanto pelo esgotamento dos recursos naturais quanto pelas mudanças na percepção que os povos dos países mais desenvolvidos têm, hoje, do consumo conspícuo como forma de atingir a realização humana e a felicidade.

A suposição de que o estímulo ao consumo puro e simples é uma forma de “salvar” a economia mundial merece ser questionada.   O governo brasileiro certamente deveria formular estratégias de segurança energética consistente, em lugar de se apoiar apenas nas grandes hidrelétricas com transmissão de longa distância e na crença na geração eólica (com tecnologia estrangeira).  Programas de micro-geração eficiência energética precisam ser melhor estruturados.

Além disso, a segurança alimentar não pode se reduzir aos esquemas de bolsa-família.  Alimentos que chegam a grandes centros urbanos brasileiros – mesmo os perecíveis – dependem cada vez mais de transporte de longa distância! Quem duvida, pode passar uma manhã anotando as placas dos caminhões que chegam aos centros de distribuição do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Vale refletir um pouco sobre a sociedade de transição, isto é, sobre o que fará o Brasil no caso de uma recessão global mais duradoura.  Pelo menos é isso que estão fazendo os países altamente desenvolvidos e mesmo estados norte-americanos.

* – A certeza das mudanças climáticas atualmente em curso não é afirmativa de um grupo de cientistas, mas de instituições inteiras.  Tentar apresentar essa afirmativa como “uma hipótese”, como fizeram alguns órgãos da imprensa brasileira nos dias da Rio + 20, dando espaço a indivíduos isolados, é puro obscurantismo jornalístico.  Quem afirma a existência de mudanças climáticas são instituições como a NASA, a Agência Espacial Européia, os serviços meteorológicos da Inglaterra, da Alemanha, da Rússia, da China, dos EUA e por aí afora, além do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE do governo brasileiro (que deveria ser ouvido pelo governo brasileiro).  Que se dane o cientista alagoano, pois!

 

Rio + 20 and Inconvenient Truths or The Slogans Conference

The Rio + 20 Conference will take place by the side of a beautiful costal lagoon where lots of raw sewage is discharged. Eutrophication and high rates of sedimentation are major problems of the lagoon.  Due to the sewage, the lagoons do not provide a safe environment for recreation.  High rates of sedimentation has made it unfit for transportation.  Fish disappeared.

This is not due to lack of technology or funds for “sustainable development”, a major issue at the Conference.  In that area, there are both economic requirements for investments in sewage collection and treatment with an acceptable payback: willingness to pay and capacity to pay.  It is a wealthy neighborhood by any standards.

The so called “sanitation program” of the area started in 1986!  Until now, there is no deadline for its completion.

The water utility do not report on progression of sanitation works to the environmental authorities nor to the public.  This lack of transparency and accountability is the “state of the art” practice in Brazil, mainly when it comes to state-owned water utilities.  Most of them are highly dysfunctional!

The local utility keep pretending to blame urban development.  And pretending that this is all due to lack of appropriate individual treatment of sewage, which is known to be more expensive than conventional solutions. And not effective.  People insist to defecate every single day!

Ban Ki-moon, the UN delegates, the delegations, the NGOs who transformed “sustainable development” in a slogan are not aware of it or prefer not to be aware of it?

Are these the guys who call for a gigantic financial fund and technology transfer to cope with climate change?

 

 

 

Rio + 20 ou Mais do Mesmo?

Todo mundo sabe – ou intui – que a “economia verde” é só um A Aquslogan, sem qualquer potencial para uma transformação mais profunda dos padrões de produção e consumo.  Seria cansativo repetir o já dito e o óbvio: os biocombustíveis competem tanto com a produção de alimentos quanto com a biodiversidade, a energia eólica e a fotovoltaica são relativamente antigas e não influíram de maneira significativa na matriz energética mundial, a reciclagem e o reuso têm limitações mais do que evidentes, as soluções tecnológicas dependem da ciência e não deram, ainda, indícios de resultarem na redução do consumo (transformação) de materiais e de energia.

Sem dúvida, a maioria das propostas concretas agora denominadas oficialmente de “verdes” é boa e merece apoio.  No Brasil, se pelo menos a Petrobras já promovesse o reúso da água utilizada em suas refinarias ao nível dos padrões dos países desenvolvidos, se fosse feita a repotencialização e a automação de todas as hidrelétricas mais antigas, se as concessionárias de serviços públicos de águas e esgotos reduzissem as perdas, se…..

Insistir em pedir esmola – ou dinheiro a fundo perdido – para países altamente desenvolvidos é que não vai ser uma solução… e não deixa de ser vergonhoso.  Supor que os países altamente desenvolvidos farão transferência de tecnologia sem custos também beira ao ridículo!  De um lado, na maioria dos casos – ou na quase totalidade -, a tecnologia não pertence ao governo mas às empresas, que não transferem nem tecnologia de medicamentos que salvam vidas gratuitamente.  Do outro, porque em muitos casos a “tecnologia” é uma forma de conhecimento que já está disponível, já é de domínio público, e só não é absorvida pelos países “não tecnológicos” – ou que não avançaram na direção de se tornarem “sociedades de conhecimento” porque não investiram em educação!  E aí, não tem mesmo como “transferir” nada.

Se as cidades brasileiras não fazem sequer bons projetos de redes de drenagem de águas pluviais – incluindo áreas para contenção de cheias e recarga do aquífero subterrâneo, no mínimo para evitar excedentes de  poluição nos rios -, isso não ocorre porque a “tecnologia” não se encontra disponível, mas por muitas outras razões!

Criticar os países altamente desenvolvidos por salvarem os seus bancos – com os seus próprios recursos – é jogo de cena para o público interno brasileiro mais desavisado.  Algo similar a criticar os chineses por inundarem o Brasil com os seus produtos.  O blá-blá-blá dos bodes expiatórios só funciona temporariamente e tem pernas curtas.  A proposta de “mais consumo” para evitar a crise está na essência do capitalismo e nunca foi tão efetiva como o aumento da produtividade, 0  eficiência global da economia e os investimentos em infraestrutura.

Todo mundo tem o direito de redescobrir tudo de  novo, até mesmo o FMI, cuja missão fundamental é manter a pulsação do sistema financeiro e agora se junta ao já velho mote do “pagamento pelos serviços ambientais”.

O desinteresse dos europeus pela Rio + 20 não se deve apenas à gravidade dos problemas financeiros com que eles se defrontam, mas também – e principalmente – à percepção de que é preciso se preparar para uma transição que não se dará sem crises sociais mais ou menos graves, que nos documentos oficiais foram e são chamadas de “social unrest“.  Para quem se interessa pelo assunto, alguns dos melhores documentos sobre a sociedade de transição (em inglês) estão na página do German Advisory Council on Global Change.

Na Rio + 20, é que não vai acontecer nada além do falatório usual!

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É interessante notar que os alemães, como toda a Europa, continua falando sobre uma “sociedade de baixo carbono” e em proteção às florestas… ainda sabendo que até o mês em curso a produção mundial de petróleo bateu todos os recordes históricos, que nos EUA dezenas de novas usinas termelétricas a carvão foram encomendadas nos últimos anos (e ainda não entraram em operação), que novas áreas de mineração de carvão foram liberadas nos EUA e na Austrália, que a produção de petróleo no Ártico é, agora, uma questão de pouco tempo, e que acelera-se rapidamente a exploração de gás através de novas técnicas de fraturamento hidráulico (shale gas).  Então, que sociedade de baixo carbono será essa?

 

 

Rio + 20 – Dilma Roussef e a Conferência Imaginária

A imprensa brasileira inventou uma Rio + 20 cheia de expectativas de sucesso, ao contrário de todo mundo, em todos os outros países. As ONGs ditas ambientalistas apoiaram essa percepção, por ingenuidade ou por verem nessa atitude uma oportunidade de aumentar a sua força política conjuntural.

A consequencia natural será a tentativa de atribuir ao governo a responsabilidade pelo inevitável fracasso do encontro. O Brasil não é, não será e não tem a menor possibilidade de ser protagonista da Conferência! O governo federal deve se prevenir contra essa percepção.

Não é verdade, como escreveu Aécio Neves na Folha de São Paulo de hoje, que “mais uma vez o Brasil está no centro do desafio ambiental que mobiliza o mundo”. Subitamente interessado por gestão ambiental, Aécio afirma que “do Brasil se espera o exemplo” – algo o que em nada contribuiu quando governador de Minas Gerais.

Nenhum país onde se realizaram os muitos encontros preparatórios para a Rio + 20 pode ou deve ser responsbilizado pelo fato de que nada se avançou até a chegada ao Rio! Ou se avançou apenas na definição de um “Documento Zero” sem conteúdo prático que a duras penas foi alcançado em Nova York (sem que ninguém tente responsbilizar os EUA ou, ainda menos, Obama, por isso).

Exceto para o discurso vazio – por genérico e abstrato – dos “ambientalistas do sétimo dia”, que se nutre das impossibilidades reais que ocultam a sua própria incompetência para soluções práticas, não há sequer qualquer “mapa do caminho” para o conjunto das nações. A percepção dos EUA, da China e da Inglaterra é simples: a “solução” só pode ser tecnológica e a “crise ambiental” é mais uma oportunidade para dinamizar mercados e vender tecnologia. Ponto! Ninguém vai “transferir” nada de graça! Além do que, no caso de muitas tecnologias “ambientais” dependem de conhecimentos que não se encontram disponíveis em países de economia periférica, como é o caso do Brasil.

Então, por favor, senhores e senhoras da imprensa, parem de inventar fatos e responsáveis imaginários.  Cabe ao Ministério das Relações Exteriores alertar a presidente Dilma sobre essa farsa!

Apesar dos muitos e exaustivos encontros preparatórios, hoje, faltando poucos dias para o encontro oficial que será submetido aos chefes de estado, o documento que vazou para a imprensa comprova a total falta de convergência de pontos de vista entre países desenvolvidos e os demais, que continuam pedindo dinheiro.

Isso não significa, é claro, que não haverá muita gente com excelentes trabalhos, ideias, projetos, com maior ou menor grau de seriedade e verdade.  Numerosos encontros altamente produtivos ocorrerão e muitas promessas se farão!  Mas o resultado oficial não será diferente do que aconteceu em Copenhagen em 2009: nada!  E lá a Dinamarca não teve e nem pretendeu ter qualquer papel de protagonista, e nem as ONGs multinacionais tentaram atribuir a ela qualquer parcela de responsabilidade pelo naufrágio que já era previsto.

Eles não conseguem chegar a um acordo sobre redução nas emissões na aviação internacional!  Definir o que é a tal da “economia verde”, então, está se revelando uma missão impossível para efeitos práticos.