Rio + 20 ou Mais do Mesmo?

Todo mundo sabe – ou intui – que a “economia verde” é só um A Aquslogan, sem qualquer potencial para uma transformação mais profunda dos padrões de produção e consumo.  Seria cansativo repetir o já dito e o óbvio: os biocombustíveis competem tanto com a produção de alimentos quanto com a biodiversidade, a energia eólica e a fotovoltaica são relativamente antigas e não influíram de maneira significativa na matriz energética mundial, a reciclagem e o reuso têm limitações mais do que evidentes, as soluções tecnológicas dependem da ciência e não deram, ainda, indícios de resultarem na redução do consumo (transformação) de materiais e de energia.

Sem dúvida, a maioria das propostas concretas agora denominadas oficialmente de “verdes” é boa e merece apoio.  No Brasil, se pelo menos a Petrobras já promovesse o reúso da água utilizada em suas refinarias ao nível dos padrões dos países desenvolvidos, se fosse feita a repotencialização e a automação de todas as hidrelétricas mais antigas, se as concessionárias de serviços públicos de águas e esgotos reduzissem as perdas, se…..

Insistir em pedir esmola – ou dinheiro a fundo perdido – para países altamente desenvolvidos é que não vai ser uma solução… e não deixa de ser vergonhoso.  Supor que os países altamente desenvolvidos farão transferência de tecnologia sem custos também beira ao ridículo!  De um lado, na maioria dos casos – ou na quase totalidade -, a tecnologia não pertence ao governo mas às empresas, que não transferem nem tecnologia de medicamentos que salvam vidas gratuitamente.  Do outro, porque em muitos casos a “tecnologia” é uma forma de conhecimento que já está disponível, já é de domínio público, e só não é absorvida pelos países “não tecnológicos” – ou que não avançaram na direção de se tornarem “sociedades de conhecimento” porque não investiram em educação!  E aí, não tem mesmo como “transferir” nada.

Se as cidades brasileiras não fazem sequer bons projetos de redes de drenagem de águas pluviais – incluindo áreas para contenção de cheias e recarga do aquífero subterrâneo, no mínimo para evitar excedentes de  poluição nos rios -, isso não ocorre porque a “tecnologia” não se encontra disponível, mas por muitas outras razões!

Criticar os países altamente desenvolvidos por salvarem os seus bancos – com os seus próprios recursos – é jogo de cena para o público interno brasileiro mais desavisado.  Algo similar a criticar os chineses por inundarem o Brasil com os seus produtos.  O blá-blá-blá dos bodes expiatórios só funciona temporariamente e tem pernas curtas.  A proposta de “mais consumo” para evitar a crise está na essência do capitalismo e nunca foi tão efetiva como o aumento da produtividade, 0  eficiência global da economia e os investimentos em infraestrutura.

Todo mundo tem o direito de redescobrir tudo de  novo, até mesmo o FMI, cuja missão fundamental é manter a pulsação do sistema financeiro e agora se junta ao já velho mote do “pagamento pelos serviços ambientais”.

O desinteresse dos europeus pela Rio + 20 não se deve apenas à gravidade dos problemas financeiros com que eles se defrontam, mas também – e principalmente – à percepção de que é preciso se preparar para uma transição que não se dará sem crises sociais mais ou menos graves, que nos documentos oficiais foram e são chamadas de “social unrest“.  Para quem se interessa pelo assunto, alguns dos melhores documentos sobre a sociedade de transição (em inglês) estão na página do German Advisory Council on Global Change.

Na Rio + 20, é que não vai acontecer nada além do falatório usual!

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É interessante notar que os alemães, como toda a Europa, continua falando sobre uma “sociedade de baixo carbono” e em proteção às florestas… ainda sabendo que até o mês em curso a produção mundial de petróleo bateu todos os recordes históricos, que nos EUA dezenas de novas usinas termelétricas a carvão foram encomendadas nos últimos anos (e ainda não entraram em operação), que novas áreas de mineração de carvão foram liberadas nos EUA e na Austrália, que a produção de petróleo no Ártico é, agora, uma questão de pouco tempo, e que acelera-se rapidamente a exploração de gás através de novas técnicas de fraturamento hidráulico (shale gas).  Então, que sociedade de baixo carbono será essa?