Rio de Janeiro, Cidade Refém – Quando o Velho se Finge de Novo

Na cidade do Rio de Janeiro, o muito velho tenta se mascarar de novo e a administração – se assim se pode chamar – pública é refém de empresas de ônibus e de empreiteiras que receberam uma vasta zona portuária de presente numa “parceria público privada caracterizada por transparência zero.

O enorme e incontido poder das empresas de ônibus não é novidade!  Nas palavras de um ex-prefeito, como trabalham com dinheiro miúdo não contabilizado de maneira adequada, elas têm infinitas possibilidades de corromper quem quiserem.

Agora, colocaram uma máscara de modernidade na empulhação: a criação de corredores de ônibus para os caminhões que trafegam pela cidade levando receberam nomes e siglas em inglês para dar aos otários uma impressão de modernidade – BRT, BRS, e por aí afora.  Tudo muito antigo em outros estados, para não falar de outros países.

Não existe um estudo mínimo de demanda de linhas e do número de veículos em cada linha por horário.  A autoridade, totalmente a serviço da arqui-retrógrada máfia dos ônibus, limita-se a aceitar e a ampliar o caos pré-existente no transporte público da cidade.

Planejamento?  Para que?  Num único momento do passado, a prefeitura tentou dar um mínimo de sensatez às permissões de novas linhas – aqui e ali transformadas em concessões com o apoio de uma câmara municipal onde tudo se negocia.  À época, a prefeitura fingiu contratar a COPPE/UFRJ, mas não levou os estudos adiante.  O que mais?  Estudos de impacto viário necessários às permissões são desovados sem qualquer plano direto do sistema de transporte.

Na cidade do poder público refém, 0s corredores exclusivos de ônibus não são uma opção pelo transporte de massas, mas pela vontade soberana das empresas de ônibus que assim se apropriam do espaço público sem se submeterem a qualquer ordenamento.

Muito além do caos das obras cujos trabalhadores enchem as ruas de cones coloridinhos como bem entendem, logo serão fechadas pistas de artérias principais para linhas exclusivas de ônibus articulados cujas concessões permanece um mistério.

Um dia, os moradores já acordarão com o engarrafamento adicional, sem que a promiscuidade entre a administração pública e os felizes concessionários das novas “linhas amarelas sobre pneus” tenham tido a oportunidade de considerar alternativas como veículos leves sobre trilhos e similares.  A inércia mental dos interesses que controlam o setor fez a sua opção e ponto final.

Afinal, a quem pertencem as empresas concessionárias dos corredores de ônibus em construção?

Por seu lado, a questionável entrega da zona portuária a um consórcio de empreiteiros faz o que bem entende sem prestar contas a ninguém: um dia, a população acorda e eles fecharam mais um conjunto de ruas para fazer sabe-se lá o que.  Planejamento?  Qual nada!  O pavimento das ruas é removido, refeito, e pouco depois tudo se inicia porque haviam esquecido a rede de águas pluviais ou de esgotos.  Todos viram e a imprensa se aquietou.

Agora, resolveram que vão interditar uma das principais vias do centro da cidade para preparar o acesso de uma longa pista subterrânea que permitirá a remoção do elevado da perimetral.  Alguém já viu o projeto?  As sondagens do subsolo foram feitas?  Qual o orçamento da obra e seu cronograma?

Pistas subterrâneas por uma grande extensão numa área já edificada é obra caríssima.  Ao vai da valsa, sem projeto, sem engenharia, sem um contrato com cuidadosa alocação de riscos, o mais provável é que o “projeto” – melhor dizendo, a proposta – se transforme numa teta, cash-cow, mega-mutreta que vai fazer a tal “cidade da música” de Cesar Maia parecer brincadeirinha de crianças do jardim da infância.

As perguntas ficam sem resposta ou não sem formuladas.  A população que se dane!  Paciência – é tudo o que lhe pede a autoridade refém de poucos grupos de interesse econômico. Sem mais.

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A cidade anda coalhada de pessoas com o jaleco da prefeitura em cores variadas.  São centenas de “auxiliares de trânsito” perdidos como baratas tontas colocando cones de formatos variados para “sinalizar” o que eles decidem que deve ser sinalizado.  Exatamente como fazem os trabalhadores em obras públicas e concessionárias de serviços: o que lhes dá na telha, no horário que querem.  Talvez a proliferação de jalecos e de cones coloridinhos tenha sido pensada por algum marqueteiro para dar a impressão de que existe, na cidade, alguma coisa que possa lembrar a engenharia de trânsito?

 

A Pedra do Sal e Largo João da Bahiana Pela Lente de Zeca Linhares

“A palmeira bem no centro da foto fica na tombada Pedra do Sal, na base do Morro da Conceição, vertente voltada para as proximidades da Praça Mauá, na zona portuária do Rio de Janeiro.  Essa rua é a Argemiro Bulcão e o prédio àdireita é a sede da Cedae.  A Pedra do Sal, hoje conhecida como Largo João da Bahiana, é o mais antigo monumento vinculado à histórica do samba carioca.  Ponto de encontro dos escravos, muito próximo de onde se negociava o sal, nela nasceram as rodas de capoeira, de choro, as “tias bahianas”.

“Hoje é um lindo estacionamento.”
Pedra do Sal

 

Zeca Linhares é fotógrafo do mundo.   E tem desenvolvido alguns  dos mais excelentes trabalhos já feitos sobre a gente e a cidade do Rio de Janeiro.  Sem o devido reconhecimento!

Depois de fotografar praticamente todo o patrimônio arquitetônico da cidade, Zeca tem fotografado a zona portuária e o Morro da Conceição, muitas vezes na companhia de outro excelente fotógrafo, Pedro Pinheiro Guimarães, agora de retorno de Paris onde viveu a maior parte de sua vida.

Na ânsia de “modernizar” a zona portuária, negocia-se o “esapço aéreo”, isto é, o direito à verticalização dos poucos grupos investidores que conseguiram ou que ainda conseguirem adquirir terrenos na área.  E fala-se, com grande sem cerimônia, que prédios que poderão ter 50 pavimentos (de repente, depois fazem mais) vão “pontuar a paisagem da Baía de Guanabara”. 

Essa é a imagem do descaso do nosso falido urbanismo com o patrimônio histórico e com algumas das mais belas paisagens do mundo.

Enfim, a opção pelo estilo Chicago ou Nova York está sendo feita em detrimento da opção peloa abordagem urbanística de San Francisco, por exemplo, ajnda que a “moda dos arranha-céus” já tenha passado há muito.   Mas esse é outro assunto.  Fica apenas a curiosdade de saber como se entrega a gestão de uma área tão importante do Rio de Janeiro à iniciativa privada antes de saber quanto seria necessário de investir ali em infraestrutura. 

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Para os que nunca ouviram falar de João da Bahiana, que antecedeu e inspirou até mesmo o grande mestre Pixinguinha, vale vê-los com Baden Powell ainda jovem tocando Lamento, ou com 82 anos ainda falando em africano e ensinando as origens do samba para o jovem Baden Powell, ou ainda ouvi-lo numa de suas muitas gravações afro-brasileiras que levaram o Largo-hoje-estacionament0 a receber o seu nome.